As arritmias cardíacas continuam a preocupar médicos e doentes, sobretudo nas idades mais avançadas, porque podem surgir de forma silenciosa ou causar sintomas que afetam bastante a qualidade de vida. O tratamento desta doença, que se define por alterações do ritmo do coração, exige precisão, tecnologia especializada e equipas capazes de atuar numa das zonas mais sensíveis do organismo.
Na República Checa, está a ser testado em estudos clínicos um novo cateter concebido para tratar tecido cardíaco responsável por arritmias com impulsos de energia mais curtos e aplicados de forma mais precisa. A tecnologia, desenvolvida na Europa, está a ser avaliada no Hospital Na Homolce, em Praga, uma unidade de referência na área da cardiologia, de acordo com a Euronews.
Um problema que cresce com a idade
A fibrilhação auricular, uma das arritmias mais frequentes, torna-se mais comum com o envelhecimento. A Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) refere que a prevalência aumenta de forma clara nas faixas etárias mais velhas, podendo chegar a cerca de 10% nas pessoas com mais de 75 anos e a valores entre 10% e 17% acima dos 80 anos, o que corresponde a dezenas de milhões de pessoas, de acordo com dados da ESC e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
“A perceção clínica da doença é muito variável”, explica Petr Neužil, Diretor da Clínica de Cardiologia do Hospital Na Homolce, um dos principais hospitais da República Checa. “O doente pode não se aperceber de nada, pode estar completamente assintomático. Depois, pode sentir palpitações. Pode sentir-se sem fôlego. Não consegue respirar. E, muitas vezes, sente fraqueza”.
Quando é necessário intervir, uma das opções usadas pelos médicos é a ablação por cateter. Neste procedimento, tubos finos e flexíveis são introduzidos nos vasos sanguíneos e guiados até ao coração, onde ajudam a interromper ou isolar os sinais elétricos que provocam batimentos irregulares. As orientações europeias continuam a incluir a ablação por cateter entre as estratégias de controlo do ritmo cardíaco em doentes selecionados.
Objetivos deste novo cateter
A tecnologia, de acordo com o hospital checo, pretende tornar o procedimento mais rápido, reduzir manipulações dentro do coração e permitir uma recuperação mais favorável. No comunicado oficial do Hospital Na Homolce, a unidade refere que os primeiros doentes tratados no ensaio clínico receberam uma tecnologia checa baseada em ablação por campo pulsado, com potencial para encurtar o procedimento e reduzir o risco de lesão em tecidos próximos.
“Passa-se menos tempo com o cateter. Tem uma única oportunidade. Reduzimos as aplicações, as manipulações e as ferramentas necessárias para entrar”, explica Neužil, citado pela mesma fonte.
Impulsos mais curtos e expetativa de maior precisão
O cateter foi desenvolvido pela BTL Industries, empresa ligada ao setor dos dispositivos médicos. A tecnologia baseia-se na ablação por campo pulsado, conhecida pela sigla PFA, que usa impulsos elétricos muito curtos para atuar no tecido-alvo. A empresa anunciou em dezembro de 2024 o tratamento dos primeiros seis doentes num estudo de viabilidade em humanos.
“O médico coloca o cateter na veia e faz a ablação, com uma única injeção em toda a área, de uma só vez, à medida que precisa. Assim, o tempo poupado varia entre três horas e 15 minutos para a ablação”, afirma Martin Hanuliak, Diretor de Gestão de Produtos da empresa. “O procedimento é mais seguro porque aplicamos impulsos de microssegundos, ou seja, um milionésimo de segundo, que, idealmente, destroem o miocárdio e poupam os outros tecidos, pelo que o coração cicatriza mais depressa e melhor”.
A promessa da nova solução está na combinação entre rapidez e seletividade. Em vez de depender apenas de calor ou frio, como acontece em técnicas tradicionais, a ablação por campo pulsado procura atingir sobretudo as células cardíacas responsáveis pela arritmia, poupando estruturas vizinhas sempre que possível.
Um cateter mais complexo e móvel
“A principal diferença entre o cateter que estamos a desenvolver aqui e os cateteres padrão é que o nosso é muito mais complexo”, explica Jiří Dašek, gestor de produto na empresa. “Contém peças muito pequenas, com menos de um milímetro de tamanho. A segunda diferença é que o nosso cateter se move, porque, no passado, os únicos cateteres utilizados eram retos e fixos, sem quaisquer partes móveis”.
Esta capacidade de adaptação pode ser relevante porque a anatomia do coração varia de doente para doente. Segundo o Hospital Na Homolce, a possibilidade de alterar a forma do cateter pode ajudar o médico a ajustar o tratamento à anatomia cardíaca de cada pessoa.
Produção prevista na União Europeia (UE)
Se vier a ser aprovado pelas autoridades competentes, o novo cateter e a respetiva unidade de controlo deverão ser fabricados na UE. A colocação no mercado europeu depende da avaliação de conformidade e da marcação CE ao abrigo do Regulamento (UE) 2017/745, com intervenção dos organismos notificados quando aplicável.
“O nosso volume de negócios cresce normalmente 10% ou 15% em média, consoante o ano. Mas é difícil dizer quais as áreas que estão a crescer. Por vezes, a cardiologia expande-se mais rapidamente, outras vezes é a fisioterapia. Depende dos produtos. Se a empresa quiser continuar a crescer, tem de inovar”, explica Tomas Drbal, Diretor de Tecnologia.
Para já, o dispositivo continua em fase de estudos clínicos. Médicos e criadores esperam que, caso os resultados e a avaliação regulamentar sejam favoráveis, o cateter possa chegar aos mercados da UE a partir do início de 2028.
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