O novo surto de Ébola na República Democrática do Congo e no Uganda levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma emergência de saúde pública internacional. Em Portugal, o risco para a população é considerado muito baixo, mas as autoridades de saúde estão a reforçar a vigilância para detetar rapidamente eventuais casos importados.
A decisão da OMS foi anunciada a 17 de maio, depois de terem sido identificados casos de doença causada pelo vírus Bundibugyo, uma estirpe do Ébola para a qual não existe atualmente uma vacina aprovada. O surto começou na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo, e já levou as autoridades internacionais a acompanharem a situação com maior atenção.
Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) reforçou as medidas de deteção precoce de possíveis casos importados, embora considere que o risco de infeção na Europa é muito baixo. A vigilância incide sobretudo sobre viajantes provenientes das zonas afetadas, bem como sobre a preparação dos serviços de saúde para responderem a eventuais suspeitas.
Risco existe, mas pandemia é considerada improvável
Em entrevista ao portal de notícias Executive Digest, Joana Moreno, médica especialista em Saúde Pública e secretária-geral da direção da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, explicou que a possibilidade de chegada de casos à Europa não pode ser totalmente excluída. “Relativamente ao risco para a expansão desta doença ou à chegada de casos à Europa, nós não podemos dizer que este risco é inexistente”, afirmou.
A especialista lembrou que as viagens internacionais permitem que uma pessoa esteja num país afetado e, poucas horas depois, chegue a uma região sem transmissão ativa da doença. Ainda assim, considerou pouco provável um cenário de propagação global semelhante a uma pandemia, devido às características de transmissão do Ébola.
A avaliação internacional segue a mesma linha. A OMS considera que o risco de disseminação global é baixo, embora o risco seja elevado a nível nacional e regional nas zonas afetadas. Até hoje, 20 de maio, há dezenas de casos confirmados e centenas de casos suspeitos ou em investigação.
Ébola não se transmite pelo ar
Uma das mensagens centrais das autoridades de saúde é que o Ébola não se transmite por via aérea, ao contrário de doenças respiratórias altamente contagiosas. A transmissão ocorre através do contacto direto com sangue, saliva, vómito, fezes ou outros fluidos corporais de pessoas infetadas, bem como com materiais contaminados.
Joana Moreno explicou que “este é um vírus que se passa pessoa a pessoa, mas não é por via aérea, é por contacto com fluidos da pessoa, como sangue, saliva ou outros materiais contaminados”. Por isso, as medidas de proteção de barreira são essenciais, sobretudo em contexto hospitalar ou perante uma suspeita de infeção.
A médica destacou ainda a importância de medidas simples, como a lavagem das mãos, e defendeu que qualquer contacto com um caso suspeito deve ser feito de forma protegida, com recurso a equipamentos adequados, incluindo máscara, viseira e outras barreiras usadas por profissionais de saúde.
Estirpe Bundibugyo preocupa por não ter vacina aprovada
O atual surto é causado pelo vírus Bundibugyo, uma estirpe mais rara do Ébola. A ausência de uma vacina aprovada contra esta variante torna o controlo mais difícil, sobretudo em zonas afetadas por conflito, deslocações populacionais e fragilidades nos sistemas locais de saúde.
A OMS indicou que uma vacina dirigida a este surto poderá demorar entre seis e nove meses a ficar disponível. Enquanto isso, a resposta passa por diagnóstico rápido, isolamento de casos, rastreio de contactos e proteção dos profissionais de saúde.
Joana Moreno sublinhou também que estes vírus “normalmente não têm tratamento específico”, o que limita as opções terapêuticas. Nesses casos, o tratamento tende a ser sobretudo de suporte, com cuidados clínicos dirigidos aos sintomas e às complicações.
Sintomas podem confundir-se com outras infeções
A identificação precoce é um dos maiores desafios, de acordo com a OMS. Numa fase inicial, o Ébola pode provocar sintomas pouco específicos, como febre, dores musculares, cansaço, dores de cabeça e dor de garganta. Estes sinais podem facilmente ser confundidos com outras doenças comuns.
Segundo a mesma médica, a pessoa só transmite a doença quando desenvolve sintomas. “Quando a pessoa desenvolve sintomas é quando ela tem a capacidade de transmitir a doença a outros”, explicou, acrescentando que pessoas assintomáticas não transmitem o vírus.
Numa fase mais avançada, podem surgir vómitos, diarreia e manifestações hemorrágicas, sinais que tornam a suspeita clínica mais evidente. Ainda assim, a especialista defende que qualquer sintoma em pessoas regressadas de zonas afetadas deve ser valorizado, sobretudo quando existe histórico de viagem ou contacto com possíveis casos.
O que devem fazer os viajantes
Quem tenha estado numa zona afetada e desenvolva sintomas não deve dirigir-se diretamente a uma urgência hospitalar sem aviso prévio. A recomendação é contactar telefonicamente os serviços de saúde, explicar o histórico de viagem e indicar se houve contacto com pessoas doentes ou situações de risco.
A médica de Saúde Pública, citada pela mesma fonte, aconselha ainda os viajantes a manterem-se afastados de focos conhecidos de infeção e, sempre que possível, a adiarem deslocações para zonas afetadas até o surto estar mais controlado. Esta recomendação é particularmente relevante para viagens não essenciais.
Portugal tem planos preparados
Apesar do alerta internacional, Portugal dispõe de protocolos criados em surtos anteriores de Ébola. Joana Moreno recordou que o país se preparou há mais de uma década, com hospitais de referência, planos específicos e procedimentos definidos para lidar com eventuais casos importados.
A principal dificuldade poderá estar na deteção rápida, uma vez que o Ébola não é uma doença habitual em Portugal. Por isso, a história clínica e epidemiológica dos doentes, incluindo viagens recentes, será determinante para orientar a resposta médica.
A DGS, de acordo com as recomendações da OMS, está a atualizar medidas de preparação e resposta em articulação com recomendações internacionais, incluindo informação dirigida a profissionais de saúde, capacidade laboratorial e vigilância de viajantes provenientes de zonas afetadas, segundo a informação avançada pela RTP.
O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças acompanha também a evolução do surto. Até ontem, 19 de maio, o ECDC indicava que a República Democrática do Congo registava mais de 500 casos suspeitos e mais de 130 mortes, com a maioria das ocorrências na província de Ituri.
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