As relações entre água, sociedade e poder são estudadas na geopolítica. Neste cantinho da Península Ibérica que foi Reino multisecular e de Aquém e Além-Mar cumpre discernir significados e sentidos políticos associadas à hidrografia de massas de água como ribeiros, rios, açudes, correntes, barragens, lagos, mares e oceanos.
Afinal, Portugal foi Império construído na água, segundo Jerry Brotton em Trading Territories. Faz sentido. Mas teria o Algarve, esse ufanado Reino, algum antecedente nessa construção? A hipótese é ousada. Aceita-se o desafio. Com observação atenta e estrutural.
Existe um fortíssimo legado de água em toponímias de cidades ou lugarejos no Algarve. Lagos, Lagoa, Olhão, Albufeira são hoje sedes de município. Fontes da Benémola, Santa em Quarteira, do Poço do Bispo, de Boliqueime, Sítio das Fontes, Olhos de Água induzem urbanidade no seu controlo e domínio.

“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”
Nomes atuais de rios e ribeiras (Guadiana, Odeleite, Odelouca), provindos do wad árabe, constituíram reforço de uma cultura hidrológica perene, fonte de riqueza e poder para atividades humanas diversas como agricultura, produção de energia ou fluxo de água para orientação no transporte e comércio.
O respeito do Guadiana como fronteira natural entre Portugal e Castela no Tratado de Badajoz de 1267 na fundação do Reino do Algarve português. Facto geopolítico singular na história medieval peninsular prenunciador da importância da água na demarcação e aceitação das ordens políticas. O mar, a sul e ocidente, seriam outros elementos naturais para domínio e controlo do Reino, facto hidropolítico que o vincularia à procura de outras margens além-mar, na existência de ameaças inimigas que nele se transportavam para saque, pirataria e captura de escravos.

Eventos dramáticos têm consequências geopolíticas dinâmicas. Ainda que faltem dados científicos decisivos, secas como as 1385-1398 ou 1412-1413, marcaram escassez de trigo com a necessidade de sua procura para o Norte de África. Assim como de ouro para pagamento do financiamento da guerra com Castela até 1411. O Algarve seria apoio decisivo nas expedições marítimas e militares consequentes.
O controlo apurar-se-ia no tempo. Cartas marítimas precisas que localizavam rotas de navegação, mercados e mercadorias. Implantação de portos e ilhas chave em bacias hidrográficas com água potável. Conhecimento prático de ventos, marés e inclinações de sol e lua para eficiência no transporte marítimo. O respeito toponímico da cultura hidrológica no Algarve é causa e reflexo da expansão geopolítica de Portugal. Os reis recusaram a expressão Império. Preferiram Reino dos Algarves de Aquém e Além-Mar.
A assimilação dos mouros foi outro fator decisivo. A miscigenação e o casamento inter-racial foram mote inspirador. J. H. Parry e Boies Penrose em Europe and a Wider World e The Age of Discovery apontam aqui a fragilidade da eficiência administrativa e prática na ordem imperial portuguesa face aos congéneres europeus. Pela mistura inter-racial que prejudicou capacidades de hierarquia e controlo. Mas a História do Algarve teve outros antecedentes.
Nas periferias dos Impérios, em reação militar, formam-se outros Impérios. O Império Otomano na periferia do Bizantino. Ou as confederações bárbaras nos confins do Romano. Por sua vez, na Baixa Idade Média, as tribos nómadas berberes do Norte de África procuraram em sociedades agrárias ou com boas localizações comerciais, extorsão de recursos, coleta de impostos ou termos favoráveis de troca. O Sul Ibérico seria cobiçado e conquistado.
Entre o desmembramento do Califado de Córdova(1031) e a conquista do Algarve(1249-1250), dois Impérios berberes formaram-se, os Almorávidas e os Almoadas, caracterizadas por um sunismo ortodoxo religioso e monoteísmo profundo. Chegaram a ter entre 1 e 2 milhões de km2 de extensão.

A resposta do Portugal cristão vitorioso seria nomádica e mimética. O fim dos Almoadas no Algarve nunca deixou de criar um efeito reflexo, como desejo de um Império- Espelho alimentado por brilhos de outrora e ameaças atuais sobre capacidade militar, desafios no acesso renovado a trigo, cobiça em ouro para meio de pagamento e escravos para mão de obra no Norte de África. O Algarve fronteira seria o território logístico conveniente.
É a História do Império nomádico português causa das suas forças e fraquezas. Marítimo, com vocação agrária assente em produtos exportáveis, menor capacidade de coleta de impostos populacionais, dependência de pontos-chave críticos para vantagem no transporte e comércio, matriz energética e de produção alimentar dispersas. O Algarve inspirou matricialmente a experiência hidrográfica.
Nas falésias de Sagres, fronteiras da bacia do Guadiana ou nas águas da Ria Formosa respira-se uma das belas Histórias HidroPolíticas do Mundo. A Água como suporte de identidade geopolítica. Não há melhor forma de inspirar o respeito do Poder pela Natureza!
Virgílio Machado, autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e Portugal Geopolítico” (http:reinosdoalgarve.com).
Leia também: O primeiro mapa geopolítico de Portugal (e do Algarve) | Por Virgílio Machado
















