A resposta da Europa aos desafios contemporâneos ganhou uma nova dimensão no plano da política urbana e cultural. Numa altura em que o continente procura alinhar a coesão social com as exigências ambientais, a rede europeia de grandes cidades Eurocities manifestou o seu apoio à proposta apresentada pela Comissão Europeia para redefinir o enquadramento da próxima geração das Capitais Europeias da Cultura (ECoC). A iniciativa visa modernizar um dos programas mais emblemáticos da União Europeia, garantindo que o título produza um impacto sustentável, inclusivo e democrático no desenvolvimento do território a longo prazo.
A nova orientação estratégica acolhe premissas fundamentais há muito defendidas pelos municípios, introduzindo critérios ambientais mais exigentes para assegurar a neutralidade carbónica, uma centralidade reforçada na promoção dos valores democráticos e a criação de um Secretariado (Bureau) permanente. Este novo órgão terá como missão prestar assistência técnica e acompanhamento contínuo às cidades organizadoras antes, durante e após o ano do título, evitando que o investimento se esgoste no período festivo de 12 meses.
A ligação entre a Eurocities e este programa é profunda: 44 municípios membros já detiveram a distinção, mais de 65 submeteram candidaturas e três cidades da rede — Oulu, Lublin e Leuven — integram o grupo de atuais e futuras capitais. Para que o novo modelo entre em vigor, a proposta aguarda agora a ratificação do Parlamento Europeu e do Conselho.
É precisamente neste contexto de exigência e transformação que a cidade de Victoria, na ilha de Gozo, em Malta, foi recentemente recomendada pelo Painel de Especialistas independentes para deter o título de Capital Europeia da Cultura em 2031. O anúncio oficial da Comissão Europeia confirmou a escolha da localidade gozitana, que sucede a La Valeta (2018) como a segunda cidade do arquipélago maltês a conquistar a distinção. Sob o lema “Uma Ilha de Ilhas”, a candidatura de Victoria 2031 — apoiada pela rede europeia Culture Next — coloca a insularidade, a cooperação transfronteiriça e a ligação entre comunidades periféricas no centro da sua reflexão estratégica, antecipando já os pilares da nova geração do programa. Em 2031, Malta partilhará o título com uma cidade espanhola, cujo nome será anunciado em dezembro.
A escolha de Victoria e a reformulação do enquadramento europeu fundam-se nas lições acumuladas ao longo de quatro décadas de história do programa, criado em 1985. As Capitais Europeias da Cultura demonstraram ser potentes motores de regeneração urbana e desenvolvimento regional. No plano económico, a atribuição do título traduz-se habitualmente num forte impulso na atividade turística, na atração de investimento direto e na dinamização das indústrias criativas. O caso de Liverpool em 2008 permanece exemplar, tendo atraído cerca de 9,7 milhões de visitantes e gerado um impacto económico líquido superior a 750 milhões de libras. De igual modo, a edição de Guimarães em 2012 permitiu à cidade portuguesa registar crescimentos históricos na ocupação hoteleira e fortalecer o seu ecossistema ligado à inovação e à criação artística.
Para lá das métricas financeiras imediatas, o verdadeiro indicador de sucesso das Capitais Europeias da Cultura reside no seu legado social e infraestrutural. Cidades organizadoras utilizam frequentemente a candidatura para requalificar zonas industriais devolutas e construir novos equipamentos comunitários, tal como demonstrou Lille em 2004 através da reconversão de edifícios fabris em espaços culturais polivalentes (Maisons Folie), estimulando a participação cívica em bairros desfavorecidos. Contudo, a experiência passada também revelou os riscos de estratégias focadas exclusivamente no marketing territorial ou no turismo de massas, que geraram equipamentos sobredimensionados e encargos orçamentais pós-evento. Com as novas exigências de sustentabilidade e o apoio técnico permanente agora propostos, o programa assegura que projetos como o de Victoria 2031 não se limitem a um brilho efémero, mas consolidem antes um ativo estratégico e duradouro para as gerações futuras.
Edição e adaptação de João Palmeiro com Julie Hervé/EUROCities.

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