O escândalo não é Montenegro telefonar. É Portugal desprezar quem lhe acrescenta valor.
Em Portugal, há sempre quem confunda distância com dignidade institucional e silêncio com sentido de Estado.
Luís Montenegro telefonou a Cristiano Ronaldo, ao selecionador e ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Bastou isso para surgir a indignação e a acusação de intromissão.
Eu considero essa indignação profundamente reveladora da nossa pobreza de visão.
Um primeiro-ministro deve preocupar-se com a reputação internacional do seu país. Deve acompanhar crises que envolvem instituições nacionais.
E deve perceber que certas personalidades têm uma dimensão económica e diplomática que ultrapassa largamente a sua profissão.
Telefonar para compreender uma crise não equivale a escolher o onze da seleção.
Confundir as duas coisas é uma forma cómoda de fugir ao essencial.
Cristiano Ronaldo é sem dúvida o maior ativo de projeção internacional de Portugal.
Quem olha para ele e vê apenas um jogador de futebol está a analisar o país com uma calculadora sem pilhas.
A sua relevância empresarial também é concreta.
Só um exemplo que é muito mais que turismo em massa para Portugal que estamos a falar.
Em 2024, através da CR7, adquiriu 10% da Vista Alegre Atlantis e acordou a aquisição de 30% da Vista Alegre Espanha.
Numa altura que a empresa sofria um enorme embalo com possibilidade de despedimento em massa.
Estamos a falar de investimento em marcas portuguesas, com produção, trabalhadores e ambição internacional.
É fácil aplaudir a internacionalização em conferências.
Mais difícil, pelos vistos, é reconhecer o valor de quem coloca dinheiro e notoriedade ao serviço dessa ambição.
Na Madeira, uma investigação identificou o impacto enorme positivo de Ronaldo na imagem do destino turístico. Isso não permite atribuir-lhe uma percentagem arbitrária de visitantes, mas permite rejeitar a ideia de que a sua projeção é economicamente irrelevante.
A atenção internacional do Português mais conhecido que o próprio país tem valor.
A capacidade de tornar um país reconhecível tem valor.
A associação de marcas portuguesas a uma personalidade mundial tem valor.
Ignorar tudo isto porque o assunto começou num balneário é uma extraordinária demonstração de miopia.
E depois há a Federação Portuguesa de Futebol.
Defendo que o seu presidente deve prestar esclarecimentos públicos sobre uma crise desta dimensão.
A autonomia desportiva exige responsabilidade.
Uma instituição que representa Portugal não pode esperar que o país celebre os seus êxitos e aceite, sem perguntas, a gestão dos seus conflitos.
O Governo não deve decidir convocatórias, substituições ou titularidades.
Deve, porém, poder ouvir os protagonistas e procurar compreender o que está em causa. Transformar esse contacto num escândalo automático é reduzir o exercício de governação a uma discussão sobre quem pode telefonar a quem.
Também não defendo imunidade para Ronaldo.
O mérito não compra razão eterna. A sua conduta deve ser criticada, como a de qualquer outro jogador.
Mas uma avaliação séria exige proporção, contexto e memória.
Há um vício português que me incomoda particularmente: exigir reconhecimento internacional e, quando alguém o conquista, desenvolver uma urgência quase moral de o diminuir.
Queremos investimento, exportações, turistas e notoriedade. Queremos empresas fortes e empregos bem pagos. Depois tratamos com desconfiança quem reúne capacidade financeira, alcance internacional e vontade de investir em Portugal.
Esta contradição tem custos.
O Estado Social precisa de uma economia que o financie.
Hospitais, escolas e pensões precisam de receita, produtividade, empresas e trabalho.
A defesa dos serviços públicos exige que levemos a sério a criação de riqueza.
Não podemos passar a vida a discutir como distribuir e reagir com desdém quando se fala de quem investe, promove e abre portas.
Cuidar dos nossos ativos internacionais é uma obrigação de inteligência económica.
Exige instituições capazes de gerir conflitos sem desperdiçar reputação.
Exige dirigentes que compreendam o impacto das suas decisões. E exige um debate público com mais substância do que reflexos partidários.
Condenar o Montenegro simplesmente por ter telefonado é uma crítica demasiado pequena para um assunto desta dimensão. Ronaldo traz muito pão para a mesa de muitos portugueses. E se queremos uma economia forte, temos de proteger os nossos activos.
Pior, não ouvi nem 10% das pessoas a criticar quando o seu caso da empresa Spinuviva. Sim escrevi mal de propósito. Isso sim deveria de ser um caso para o Primeiro-Ministro demitir-se.
Voltando a marca de Portugal mais activa de momento:
Portugal precisa de ambição.
Precisa de saber reconhecer valor e de ter maturidade para o proteger sem abdicar do escrutínio.
O escândalo não é um primeiro-ministro pegar no telefone.
É ainda haver um país tão necessitado de criar riqueza continuar tão disponível para desprezar quem lhe acrescenta valor.
Arrisco a dizer que a marca Ronaldo traz mais de 1% de PIB a Portugal.
Se discordem desafiem se faz favor.
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