1635. Guerra dos 30 anos na Europa. Amsterdão. Procurava-se ordem no caos internacional reinante. É impresso o primeiro mapa geopolítico dos Reinos de Portugal e do Algarve. Brasões de armas, elegia histórica num pedestal, figuras exóticas salientam individualidade militar e política dos Reinos. Reconfiguram atlas e um mapa anterior, de Fernando Secco, de 1560, compilado por Ortellius na coleção Theatrum orbis terrarum( Teatro do Mundo).
Joan Blaeu foi seu editor. Cartógrafo oficial da Companhia Holandesa das Índias Orientais. A riqueza cromática e figurativa do mapa dignifica, com esplendor, os Reinos. Como um espetáculo. Surpresas? O brasão de armas do Reino do Algarve a par do de Portugal, conferindo-lhes dimensões políticas e militar equitativas.
A descrição Portugallia et Algarbia quo olim Lusitania (Portugal e Algarve que outrora foram Lusitânia) é histórica. Algarbia é individualidade reinol como Portugal; ambos partes de anciã memória singular, a Lusitânia. O Algarve é também seu descendente.

“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”
O mapa retrata -se como palco ou teatro ao seu observador. Oceanus Occidentalis e Meridionalis envolvem o conjunto. Naquele, um deus marinho, quiçá, Neptuno, com seu tridente. Naus e rosas dos ventos projetam direções. As duas figuras com trajes islâmicos ou otomanos são os atores. Observam. Utilizam instrumentos. Astrolábio, Quadrante. E, seguramente, uma esfera armilar.
Questões suscitam-se. Geopolítica? Brasão algarvio e sua dimensão axial em cores azul e amarelo? Cabeças de reis cristãos e muçulmanos? A longitude do Algarve melhor medida que a de Portugal? 1635? 5 anos antes da Restauração de 1640? A impressão nos Países Baixos não é despicienda. A potência colonial emergente contra o Império Espanhol. Um mapa de significados. Dignidade geopolítica só existe quando reconhecida condignamente por poderosos terceiros.
É o caso. Blaeu tinha ricos burgueses, diplomatas, militares e estudantes como clientes. Ávidos de mapas globais, os atlas. Como agora se adquirem imagens da Lua pela expedição Artemis II. Portugal e Algarve faziam parte da ordem global. A área de influência portuguesa consagrada no Tratado de Tordesilhas continuava a ser respeitada por Madrid. E isso era determinante para as lógicas de mercado e políticas neerlandesas.
E os trajes orientalizantes das figuras humanas? Com instrumentos científicos, observando presuntivamente céu, sol, estrelas? Ou a Lua? Com esfera armilar, rosas dos ventos? Que razões para a poderosa Amsterdão assim retratarem Portugal? E Algarve?

A geopolítica é explicação. Portugal e Algarve fizeram parte de um projeto marítimo invulgar e pioneiro de entrelaçamento, cruzamento e dimensão geopolítica euro-afro-asiáticas. Negando a separação Ocidente/Oriente. A viagem de Vasco da Gama teve ajuda decisiva de um piloto mouro em Melinde que o conduziria à India. Seu nome? Malemo Caná, numa história de engenho bem descrita por Jerry Brotton em Trading Territories.
A diferença e individualidade militar de Portugal e Algarve devem-se ao seu sucesso histórico conjunto. Na tessitura de um etnocentrismo plural e híbrido na Europa medieval com a assimilação do Reino do Algarve por Portugal. Que impulsionou o desenvolvimento prático e científico no Além-Mar por África até ao Oriente. O horizonte foi o nascer do sol de onde vieram raízes muçulmanas que preciosamente Portugal acolheu com o Algarve.
Algarve e Portugal completam-se. O fito foi comum. Um Império construído na água recorrendo a uma sabedoria e engenho militar reconhecidos com dignidade geopolítica internacional. A Portugal falta atribuir ao Algarve o estatuto particular de território histórico. A reconciliação digna com a História que muitas vezes falta à ordem política portuguesa.
O Imperio holandês fê-lo em 1635. Também com origem em Províncias Unidas num Reino construído na água. E na periferia da guerra. O Algarve foi anterior. O que sabiamente a História nos ensinou é que o sucesso das ordens políticas depende do seu êxito nas periferias. A de Portugal com o Algarve.
Virgílio Machado, autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico” (http:reinosdoalgarve.com)















