A apreensão dos produtores de azeite em Espanha está a crescer numa altura decisiva para o olival, com o setor dividido entre a evolução do tempo, a floração das oliveiras e uma descida dos preços em origem que volta a pressionar a rentabilidade das explorações.
Na Andaluzia, a preocupação concentra-se em duas frentes: o calor que chegou em plena fase sensível do ciclo da oliveira e a queda das cotações do azeite. Entre 18 e 24 de maio, o azeite virgem extra foi negociado em origem a 4,04 euros por quilo, segundo dados do sistema Poolred divulgados pela organização agrária espanhola ASAJA-Jaén.
Preço aproxima-se de uma barreira psicológica
No mesmo período, o azeite virgem ficou nos 3,241 euros por quilo e o lampante nos 3,11 euros. No caso do Picual de Jaén, uma das variedades mais representativas da principal região oleícola espanhola, o virgem extra desceu mesmo para 3,96 euros por quilo, ficando abaixo da barreira simbólica dos quatro euros.
A descida surge depois de várias semanas de correção no mercado. A própria ASAJA-Jaén tinha indicado, para o período de 4 a 10 de maio, um valor de 4,18 euros por quilo para o azeite virgem extra, o que confirma a tendência de pressão sobre os preços em origem.
Calor chega numa fase delicada
O outro motivo de inquietação está no campo. A floração e o vingamento da azeitona são fases particularmente sensíveis ao calor, e a AEMET registou em Jaén máximas de 35,3 graus no dia 23 de maio e de 35 graus no dia 24, valores elevados para esta altura do ano.
Esta preocupação tem base agronómica. O catálogo internacional de variedades de oliveira indica que as flores são uma das partes mais vulneráveis ao stress térmico e que temperaturas acima dos 30 graus podem reduzir a germinação do pólen e o vingamento do fruto. Acima dos 35 graus, o risco de danos severos nas flores aumenta.
Produção ainda pesa nas contas do setor
Apesar da incerteza sobre a próxima campanha, os dados disponíveis da campanha atual mostram um volume relevante. A produção acumulada de azeite em Espanha atingiu 1.294.590 toneladas até 30 de abril, de acordo com dados da Agência de Informação e Controlo Alimentar citados pela mesma organização acima citada.
As existências totais estavam nas 863.339 toneladas, distribuídas sobretudo por lagares, envasadores e Património Comunal Olivarero. Estes números mostram que ainda há azeite por escoar, mas também que os stocks estão a diminuir ao longo da campanha.
Setor pede prudência nas vendas
Cristóbal Gallego, responsável pelo setor do azeite nas Cooperativas Agroalimentares da Andaluzia e presidente do grupo Jaéncoop, defendeu que o momento exige “cabeça fria”. O dirigente alertou que os dados atuais não justificam uma venda precipitada nem uma desvalorização do produto no mercado.
Na sua análise, as saídas acumuladas situavam-se nas 869.790 toneladas e o setor ainda terá de manter um ritmo importante de comercialização até ao fim da campanha. Por isso, Gallego defende prudência, firmeza e união entre produtores, para evitar que operações pontuais pressionem artificialmente as cotações.
Exportação e valorização ganham importância
Enquanto tenta conter a pressão de curto prazo nos preços, o setor espanhol continua a apostar na promoção internacional. A ASAJA-Jaén refere que a marca Aceites de Oliva de España voltou a reforçar a presença na China, considerado um dos mercados prioritários para o crescimento do consumo de azeite.
Há também uma aposta crescente na valorização do azeite virgem extra como produto associado à saúde. A associação QvExtra! lançou em Espanha uma certificação que permitirá a 36 marcas destacar, nos rótulos, benefícios cardiovasculares e propriedades antioxidantes, depois de análises científicas e validação técnica alinhadas com a regulamentação europeia.
Dúvida está na próxima campanha
O setor do azeite espanhol entra, assim, numa fase de equilíbrio difícil. Por um lado, os preços em origem continuam a descer e reduzem a margem dos produtores. Por outro, o calor em plena floração levanta dúvidas sobre a dimensão real da próxima colheita, sobretudo na Andaluzia, região decisiva para o mercado.
A evolução das próximas semanas será determinante para perceber se o mercado estabiliza ou se a pressão continua. Para já, produtores e cooperativas tentam evitar decisões precipitadas, enquanto acompanham o impacto do calor no campo e procuram defender o valor de um produto central na agricultura espanhola.
E em Portugal?
Em Portugal, a evolução do mercado espanhol é acompanhada com atenção, uma vez que Espanha continua a ser o principal produtor mundial de azeite e tem forte influência nas cotações internacionais. Segundo o Conselho Oleícola Internacional, a produção espanhola deverá atingir 1,419 milhões de toneladas na campanha 2024/2025, enquanto Portugal deverá chegar às 177 mil toneladas, o que mostra a diferença de escala entre os dois mercados.
Ainda assim, o setor português ganhou peso nos últimos anos, muito por causa do olival moderno no Alentejo. O Observatório de Preços Agroalimentar indica que a fileira do azeite representa 860 milhões de euros na produção agrícola nacional, cerca de 8% do total, e que Portugal tem um grau de autoaprovisionamento de 264,8%, sinal de uma produção claramente acima do consumo interno.
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