Recentemente, um amigo meu descobriu que transportava uma hérnia umbilical. Até aqui, nada de exótico. As hérnias têm um péssimo hábito de aparecer sem convite e de exigir uma intervenção cirúrgica para voltarem ao sítio de onde nunca deviam ter saído.
O extraordinário tem lugar quando o Serviço Nacional de Saúde decide tratar não apenas da hérnia, mas também da sua cultura geral e do seu conhecimento de geografia do território nacional.
Recebeu um cheque-saúde e a indicação de que poderia ser operado… em Fão. Sim, Fão. Uma localidade situada apenas a 587 quilómetros da sua residência em Portimão, distância que o SNS considera, pelos vistos, perfeitamente compatível com o conceito de “proximidade”. Afinal, num país pequeníssimo como o nosso, meia dúzia de centenas de quilómetros não é mais do que um ligeiro esticão, e não propriamente um verdadeiro exercício de resistência física e espiritual. Naturalmente, a viagem faz-se de autocarro. Primeiro um longo percurso até Lisboa, depois outro até ao Porto, finalmente a ligação para Esposende ou Fão. O tempo previsto ronda as oito horas e meia, podendo, com facilidade, chegar às nove. É uma espécie de peregrino no Caminho de Santiago, mas sem catedral no fim, apenas um bloco operatório.
Confesso que desconhecia esta nova faceta do SNS: o turismo de saúde doméstico ou caseiro, como lhe queiramos chamar. Durante anos ouvimos falar de uma diversidade de experiências convergindo no turismo de natureza, gastronómico, religioso, industrial e até enológico. Faltava-nos apenas o turismo cirúrgico interno. É uma inovação tipicamente portuguesa que não lembraria a António Ferro. Antes de tratar o doente, oferece-se uma excursão pelo país, para que ele possa apreciar a paisagem enquanto a hérnia vai amadurecendo.
Já estou a imaginar os folhetos promocionais, ou em termos mais requintados, os ditos cujos flyers:
“Operação à hérnia com visita ao Minho. Inclui oito horas de autocarro, três transbordos, paisagens variadas e uma tela abdominal de oferta. Almoço não incluído.”
Não deixa de ser uma ideia brilhante. Se um cidadão precisa de uma cirurgia, porque não transformá-la numa experiência turística? Talvez o próximo passo seja enviar quem necessite de uma consulta de oftalmologia para Bragança, uma colonoscopia para Vila Real, ou uma extração dentária para as Flores. O importante é mesmo a promoção da coesão territorial.
Depois da operação, o meu amigo terá o privilégio de regressar a casa exatamente pelo mesmo percurso. Acabadinho de ser operado ao abdómen, enfrentará outras tantas horas de autocarro, sentado sobre a convicção inabalável dos decisores de que isto é perfeitamente normal. A tela colocada para reforçar a parede abdominal talvez também sirva para impedir que rebente de tanto desatar a rir perante a genialidade da solução encontrada.
Tudo isto acontece em nome da eficiência, aquela palavra mágica que justifica qualquer disparate. Fecham-se serviços em nome da eficiência. Empurram-se doentes para centenas de quilómetros em nome da eficiência. Obriga-se uma pessoa fragilizada a atravessar o país em transportes públicos durante um dia inteiro… em nome da tal dita cuja eficiência. A este ritmo, qualquer dia será mais eficiente mandar os doentes para serem operados a Madrid, desde que apanhem um autocarro a preço módico.
Dizem-nos, à boca cheia, que o cidadão deve estar no centro do sistema. Começamos a suspeitar que o problema seja precisamente esse: colocam-no no centro do mapa e depois decidem enviá-lo para qualquer uma das extremidades do país.
O mais inquietante não é sequer a distância. É a absoluta naturalidade com que alguém, sentado no traseiro de uma secretária, considera razoável dizer a um doente: “A solução que temos para si fica a quase seiscentos quilómetros. Boa viagem.”
Presumo que nesta decisão não haja malícia; talvez há algo pior: a burocracia elevada ao estatuto filosófico. A folha de cálculo satisfeita, os indicadores estatísticos sorridentes e a consciência administrativa dormindo o sono dos justos. Entretanto, o doente transforma-se num pacote postal, expedido para onde houver vaga, como se transportar pessoas fosse exatamente o mesmo que redistribuir pacotes de exames no armazém logístico do Ministério da Educação,transformado num cenário digno de comédia absurda entre caixotes empoeirados, técnicos de palete em punho e o lema de uma “tecnologia de ponta”, transformada no futuro digital do país que agora depende de procurar folhas perdidas à lanterna.
Talvez estejamos a ser excessivamente críticos. Talvez o SNS não esteja a gozar com os doentes. Talvez apenas tenha decidido que, se a saúde vai mal, ao menos o turismo interno não abrande.
E assim vamos, convencidos de que vivemos num Estado Social, quando, na maior parte das vezes, parece que vivemos numa agência de viagens especializada em deslocações de doentes. Há destinos improváveis, itinerários intermináveis e uma única certeza: quem parte para uma cirurgia regressa com uma história de viagem muito mais interessante do que qualquer recuperação clínica.
Já dizia Camilo que Portugal é um país de contrastes. Hoje talvez dissesse que é um país onde uma hérnia se opera no Minho, um algarvio atravessa o país para ser tratado e a única coisa bem próxima continua a ser o absurdo.
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