Durante anos, a salicórnia foi vista como uma planta selvagem das zonas de sapal, capaz de crescer em terrenos salgados onde quase nada sobrevive. Hoje, o “espargo do mar” começa a ganhar estatuto de alimento de futuro, com presença na alta cozinha, interesse científico e potencial económico para explorações agrícolas ligadas à sustentabilidade.
Conhecida popularmente como “espargo do mar”, esta planta halófita desenvolve-se em ambientes salinos, sobretudo em zonas de marisma e sapal. O seu sabor salgado e a textura crocante tornaram-na cada vez mais procurada por chefs e restaurantes que procuram ingredientes diferentes, ligados ao território e com menor impacto ambiental.
Em Espanha, um dos nomes associados à transformação da salicórnia em cultura agrícola é Manuel Díaz, técnico florestal de 57 anos, natural de Isla Cristina, em Huelva. Cresceu entre marismas e começou a olhar com outros olhos para uma planta que, durante décadas, era pouco valorizada fora das comunidades costeiras.
A salicórnia também pode ser encontrada em Portugal, nomeadamente em zonas húmidas e salinas como a Ria Formosa, no Algarve, onde cresce naturalmente em sapais e áreas influenciadas pela água salgada. Esta presença reforça a ligação da planta aos ecossistemas costeiros e ajuda a explicar o interesse crescente pelo seu aproveitamento gastronómico, embora a recolha em espaços naturais deva respeitar sempre as regras de conservação e proteção ambiental.
De planta ignorada a produto de valor
De acordo com o Huffpost, a história de Manuel Díaz começou com curiosidade e muitas experiências. Nos tempos livres, enquanto trabalhava na área florestal, decidiu perceber se seria possível cultivar salicórnia fora do seu habitat natural sem prejudicar as populações selvagens existentes nas marismas.
O processo não foi imediato. Depois de vários testes, erros e pequenas experiências, conseguiu reunir cerca de 600 gramas de sementes e começou a testar o cultivo na própria casa, incluindo numa zona improvisada na açoteia. Esse trabalho artesanal permitiu-lhe compreender melhor a planta e avançar para uma produção controlada.
Com o tempo, Manuel tornou-se um dos pioneiros no cultivo de salicórnia em Espanha. Hoje produz em modo ecológico numa parcela em Isla Cristina e fornece o produto a pedido, sobretudo para áreas onde este ingrediente é valorizado pela sua raridade, sabor e ligação ao mar.
Quanto pode render a salicórnia?
O potencial económico é um dos pontos que mais chama a atenção. Em declarações citadas pela imprensa espanhola, Manuel Díaz afirma que, em cinco hectares bem trabalhados, é possível faturar até milhão e meio de euros, uma estimativa que ajuda a explicar o interesse crescente nesta cultura.
Segundo o produtor, um hectar bem explorado pode produzir pelo menos 6.000 quilos por ano. No mercado de produto fresco ecológico, o preço pode rondar os 35 euros por quilo, embora estes valores dependam da procura, da qualidade, da certificação, dos canais de venda e da capacidade de escoamento.
Além da venda em fresco, a planta pode ter outros aproveitamentos. O restante material vegetal pode ser usado para extratos ou aplicações ligadas à investigação, aumentando o valor potencial da cultura e tornando-a mais interessante para projetos agrícolas inovadores.
Um alimento ligado à sustentabilidade
A salicórnia tem despertado interesse não apenas pelo sabor, mas também pela capacidade de crescer em terrenos salinos, onde outros cultivos dificilmente prosperam. Esta característica torna-a particularmente relevante num contexto de alterações climáticas, escassez de água doce e degradação de solos agrícolas.
A planta foi mesmo descrita pela Smithsonian Institution como um “promissor superalimento”, devido ao seu valor nutricional, resistência a condições extremas e potencial para integrar sistemas agrícolas mais adaptados a ambientes difíceis.
O seu cultivo pode ajudar a diversificar a agricultura em zonas costeiras ou salinas, desde que seja feito de forma controlada e sem danificar os ecossistemas naturais. Para muitos especialistas, este é precisamente o equilíbrio mais importante: transformar uma planta de valor em cultura agrícola sem pôr em risco os sapais onde ela cresce espontaneamente.
Da marisma para a alta cozinha
Nos restaurantes, a salicórnia é valorizada pelo sabor salino natural, que permite acompanhar peixe, marisco, saladas e pratos vegetarianos. A textura crocante e a aparência invulgar tornam-na apelativa para a alta cozinha, onde é muitas vezes usada como ingrediente de acabamento.
Apesar do crescente interesse, continua a ser um produto minoritário em Espanha e noutros mercados ibéricos. A produção ainda é limitada, o preço é elevado e a distribuição depende muito de canais especializados, restaurantes e consumidores mais atentos a ingredientes diferenciados.
Ainda assim, o percurso da salicórnia mostra como uma planta antes ignorada pode tornar-se oportunidade económica, gastronómica e científica. O “espargo do mar” passou de erva de sapal a símbolo de uma agricultura mais resiliente, capaz de encontrar valor onde antes quase ninguém via futuro.
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