Agosto tem esta particularidade curiosa: enquanto quase toda a gente está de férias, muitos professores estão… à espera.
À espera das listas.
À espera de uma colocação.
À espera de saber onde será o próximo ano letivo.
É também um mês em que sobra algum tempo para pensar. E foi precisamente numa dessas pausas que dei por mim a refletir sobre uma expressão que me acompanha há anos e que, confesso, continua a divertir-me pela sua aparente contradição.
“Profissional não profissionalizada.”
Não é uma crítica. É uma curiosidade linguística.
Da primeira vez que a ouvi, pensei que alguém se tivesse enganado. Afinal, se uma pessoa exerce uma profissão, assume responsabilidades, responde pelo seu trabalho e procura desempenhá-lo da melhor forma possível, não será, por definição, um profissional?
A resposta é simples.
Sim. E… não.
Há dezassete anos que entro numa sala de aula. Ao longo destes anos ensinei História, mas ensinaram-me sobretudo pessoas. Aprendi que uma aula tanto pode começar na Antiguidade Clássica como terminar numa conversa sobre o mundo atual. Descobri que há alunos que aprendem a escrever, outros a desenhar e outros apenas quando alguém lhes desperta a curiosidade.
Ensinar nunca foi apenas explicar matéria. É perceber quem temos à nossa frente.

Durante estes dezassete anos confiaram-me turmas, direções de turma, projetos, visitas de estudo, reuniões com encarregados de educação, processos administrativos, conselhos de turma e todas as restantes responsabilidades que fazem parte da vida de um professor. Mas, acima de tudo, confiaram-me jovens. E não conheço responsabilidade maior. Nunca ouvi uma direção de escola dizer:
“Gostávamos muito de lhe entregar esta direção de turma, mas talvez seja melhor esperar até estar profissionalizada.”
Também nunca um encarregado de educação começou uma reunião perguntando pela minha situação administrativa.
Nem um aluno levantou o braço para perguntar:
— Professora, antes de começarmos a matéria… já concluiu a profissionalização?
Os alunos têm preocupações muito mais interessantes. Querem perceber. Querem aprender. Querem sentir que alguém acredita neles. E talvez seja aí que reside a essência da profissão.
Naturalmente, acredito na profissionalização. Aliás, continuo há anos a tentar concluí-la. Considero-a importante, necessária e valorizo profundamente a formação pedagógica. Mas continuo a achar curioso confundirmos, tantas vezes, duas palavras diferentes.
Profissionalização é um percurso académico e legal. Profissionalismo é uma forma de estar. Não se decreta.
Não se publica em Diário da República. Não cabe num despacho. Constrói-se todos os dias. Na aula preparada até mais tarde. Na explicação dada pela terceira vez sem perder a paciência. Na conversa com um aluno que precisava, naquele dia, de ser ouvido antes de conseguir aprender.
Há poucos dias, alguém com quem trabalhei durante anos referiu-se a mim como “uma excelente profissional”.
Sorri e agradeci. Minutos depois lembrei-me da minha classificação administrativa e voltei a sorrir. Há qualquer coisa de deliciosamente portuguesa nesta ideia de podermos ser profissionais… sem sermos profissionalizados.
Talvez a culpa não seja da lei. Talvez seja apenas das palavras. Porque as palavras criam imagens.
Quando ouvimos “não profissionalizado”, imaginamos alguém que ainda está a aprender a profissão.
Mas existem muitos docentes que levam anos a exercê-la, que continuam a estudar, que procuram concluir a profissionalização e que, entretanto, fazem exatamente aquilo que deles se espera: ensinar.
Dentro de poucas semanas começará mais um ano letivo.
Como milhares de professores contratados, voltarei a consultar listas, horários e colocações. Voltarei a esperar que exista uma vaga onde possa continuar a fazer aquilo que faço há dezassete anos.
Se essa vaga surgir, uma escola confiar-me-á, uma vez mais, aquilo que tem de mais precioso: os seus alunos.
E eu aceitarei essa responsabilidade com a mesma alegria de sempre. Continuarei também a procurar concluir a minha profissionalização. Nunca vi qualquer incompatibilidade entre uma coisa e outra.
Mas confesso que agosto é um excelente mês para apreciar estas pequenas ironiasda vida.
Porque há paradoxos que merecem ser resolvidos.
E há outros que merecem apenas ser saboreados… com um sorriso.
Quem sabe se um dia deixaremos de falar em “profissionais não profissionalizados”.
Até lá, prefiro continuar à espera de uma frase muito mais importante do que qualquer classificação administrativa:
— Professora, para o ano fica connosco?
Leia também: Música, gastronomia e artesanato marcam nova edição da Festa da Ria na Fuzeta















