Trabalhar meses para produzir uma colheita e acabar por deitá-la fora pode parecer uma decisão difícil de compreender. Foi, no entanto, precisamente isso que esta agricultora decidiu fazer quando chegou o momento de vender parte daquilo que tinha produzido.
Agricultora em Logroño, na região espanhola de La Rioja, Clara recusou aceitar o preço que lhe propuseram. Segundo contou ao canal de Jaime Gumiel, no ano passado ofereceram-lhe metade do valor pago pela mesma produção no ano anterior. Preferiu assumir o prejuízo.
“Prefiro deitar fora a minha colheita a pagarem-me metade do que vale”, é a posição da agricultora, cujo testemunho foi divulgado pelo El Español.
Clara chega a trabalhar 16 horas por dia
A agricultura faz parte da história da família de Clara há várias gerações. Quando os pais se reformaram, decidiu continuar a exploração para evitar que desaparecesse o trabalho construído pelos pais, avós e tios.
Há pouco mais de quatro anos que trabalha profissionalmente no setor como independente. A exploração tem cerca de 1,5 hectares, onde produz tomate, melão e melancia através de agricultura convencional.
Grande parte do trabalho é feito manualmente e Clara gere a propriedade praticamente sozinha, recorrendo a ferramentas agrícolas e pontualmente a um trator.
Durante o verão, a carga de trabalho aumenta consideravelmente. A agricultora conta que trabalha de segunda-feira a domingo e que as jornadas podem chegar às 14 ou 16 horas por dia.
A quantidade de horas não é, contudo, a sua única preocupação. Uma tempestade, granizo ou uma inundação podem destruir em poucos minutos uma produção que demorou meses a crescer. Clara conta já ter perdido campanhas inteiras devido a inundações.
Tomate vendido por 80 cêntimos chega às lojas por mais de 3,50€
É nos preços pagos aos agricultores que Clara encontra um dos principais problemas da atividade. Segundo as suas contas, os custos de produção rondam 35 a 40 cêntimos por quilograma.
Para mostrar a diferença existente ao longo da cadeia, dá o exemplo do tomate. Em Mercarrioja, conta que chegou a receber 80 cêntimos por quilo e, nos melhores casos, cerca de um euro.
O mesmo produto, afirma, acabava depois à venda nas lojas por mais de 3,50 euros por quilograma.
A agricultora aponta ainda para a concorrência dos produtos provenientes de fora da União Europeia. Na sua perspetiva, diferenças nas regras relativas a pesticidas, fertilizantes ou condições laborais tornam mais difícil aos pequenos agricultores espanhóis competir pelo preço.
Preferiu perder a produção a aceitar metade
Foi perante estas dificuldades que Clara tomou uma das decisões mais arriscadas desde que assumiu a exploração familiar.
Quando tentou vender a colheita no ano passado, conta que lhe propuseram metade do preço que tinha recebido no ano anterior. Clara recusou e acabou por deitar fora parte da produção.
Para a agricultora, aceitar aquele valor significaria ceder a condições que considera injustas e contribuir para um modelo que, na sua opinião, está a prejudicar os pequenos produtores.
Apesar das dificuldades, Clara continua no campo e encontrou na venda direta ao consumidor uma forma de conseguir uma margem mais favorável e sentir que o seu trabalho é valorizado.
Quanto ao futuro, mostra-se menos otimista. Embora goste da profissão, admite que não se imagina a continuar na agricultura dentro de dez anos se as condições se mantiverem. Também desaconselha os jovens a começarem atualmente uma exploração do zero, devido aos obstáculos económicos que encontra no setor.















