Aos 78 anos, Kay Coombes continua a viver na quinta que comprou com o marido, Pete, perto de Monchique, há quatro décadas e meia. O casal deixou o Reino Unido quando tinha pouco mais de 30 anos e encontrou no interior algarvio uma forma de vida distante daquela que conhecia.
A casa mantém-se como o ponto de ligação entre diferentes fases da vida de Kay. Foi ali que os dois começaram a trabalhar a terra, estabeleceram relações com os vizinhos, acompanharam a transformação da região e criaram uma rotina que se prolongou mesmo depois da reforma e da morte de Pete, em 2019.
Decisão tomada depois de várias viagens
Segundo a revista Tomorrow Algarve, Kay e Pete chegaram ao Algarve numa caravana, depois de várias passagens pela região. Numa dessas viagens, conheceram outros estrangeiros que lhes falaram de uma propriedade em Monchique, adquirida por cerca de 2.300 euros.
A possibilidade de começar uma nova vida ganhou consistência. O casal vendeu a casa que tinha no Reino Unido e avançou para a compra de uma quinta com mais de três hectares. O terreno não tinha eletricidade nem telefone, mas essas limitações não impediram a mudança.
Quando a serra ainda tinha caminhos de terra
Monchique era bastante diferente no início da década de 1980. Muitas estradas não estavam pavimentadas, as deslocações até Portimão ou Lagos demoravam mais tempo e havia poucos residentes estrangeiros. A vila tinha também uma oferta comercial reduzida, marcada por pequenas lojas e encomendas de produtos básicos.
A decisão de ficar começou a tomar forma durante uma passagem pela serra. O casal tinha seguido até à Fóia depois de conhecer um parapentista norueguês acampado numa praia perto de Albufeira. A visita tinha como objetivo avaliar as condições para a modalidade, mas acabaram por passar a noite no local. “Lembro-me de ver duas mulheres a serem deixadas por um carro. Saíram e começaram a caminhar para um lugar que parecia ser o meio do nada. Pensei: imaginem viver aqui!”, recorda Kay.
Aprender a viver sem rede elétrica
A quinta ficava no fim de um caminho íngreme e exigia uma adaptação imediata. Sem eletricidade ou telefone, os novos moradores tiveram de aprender a resolver problemas práticos e a cuidar da terra, tarefas que não faziam parte do quotidiano deixado para trás.
Os vizinhos tiveram um papel importante nessa fase. Ajudaram o casal a encomendar materiais para as obras e explicaram como cultivar frutas e legumes. A experiência alterou hábitos e expectativas, mas também reforçou a ligação à comunidade local. “Era como voltar atrás no tempo. Era difícil comprar produtos e as duas pequenas lojas da vila pareciam ter sobretudo peixe enlatado. Até o pão tínhamos de encomendar”, conta Kay.
Entre matanças do porco e novas amizades
A integração passou ainda pela aprendizagem da língua portuguesa e pelo contacto com tradições que permaneciam presentes na vida da aldeia. Uma dessas práticas era a matança anual do porco, que juntava várias pessoas para preparar a carne, produzir banha e organizar uma refeição acompanhada por bebidas, incluindo medronho.
Kay não quis participar numa das tarefas relacionadas com a confeção do chouriço, mas ofereceu-se para lavar a loiça. A refeição reunia mais de 20 pessoas e a dimensão do trabalho levou Pete a ajudá-la. A presença de um homem nessa tarefa acabou por surpreender e divertir os habitantes locais, segundo a mesma fonte.
Casa que atravessou a mudança do Algarve
A entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia, em 1986, e o crescimento da década de 1990 trouxeram novas infraestruturas, mais turismo e um aumento de residentes estrangeiros. O casal também encontrou novas oportunidades profissionais. Pete trabalhou como pintor e decorador, enquanto Kay exerceu funções comerciais no grupo Pestana e no Alto Golf and Country Club, em Alvor.
Mesmo depois de se reformarem, os dois continuaram a viajar de caravana e mantiveram a quinta como base. A doença de Pete, em 2017, mudou os últimos anos do casal. Após a sua morte, dois anos mais tarde, Kay permaneceu na propriedade que ambos tinham comprado e transformado.
Hoje, o lugar conserva a memória de uma decisão tomada durante uma viagem sem um plano definitivo. O Algarve que Kay conheceu tinha menos infraestruturas e uma presença estrangeira mais reduzida, mas foi precisamente nesse contexto que encontrou a vida que procurava. A casa de Monchique continua a ser a sua residência e o cenário de uma história iniciada há 45 anos.
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