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PAULO FREITAS DO AMARAL - Professor, historiador e autor | Foto DR
Opinião

Santo António nasceu numa família da nobreza portuguesa? | Por Paulo Freitas do Amaral

“O santo do povo pode, afinal, ter começado a sua história muito mais perto das elites de Lisboa do que a memória popular costuma admitir”

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Há perguntas históricas que parecem ter uma resposta conhecida até ao momento em que decidimos olhar para elas com maior atenção. A origem social de Santo António é uma dessas questões. Habituámo-nos à imagem de Fernando de Bulhões como o santo próximo dos pobres, dos humildes e do povo de Lisboa, imagem que a tradição religiosa e a devoção popular consolidaram ao longo dos séculos. Mas uma coisa é a imagem que construímos do santo depois da sua morte, outra, bastante diferente, é tentar perceber quem era a família em que nasceu, onde vivia, que educação recebeu e que posição ocupava na Lisboa do final do século XII.

É precisamente neste ponto que uma leitura olisipográfica, como a de José Sarmento de Matos, se torna particularmente sugestiva. Sarmento de Matos habituou-nos a olhar para Lisboa não apenas através dos grandes acontecimentos ou dos grandes personagens, mas também através das casas, das ruas e dos lugares concretos onde a história aconteceu. O próprio historiador explicou que, perante um edifício, procura saber quem o construiu, quem o habitou, o que essas pessoas faziam e, sobretudo, «que tipo de gente morava ali». A casa deixa, assim, de ser simples cenário para passar a ser documento histórico.

Aplicado a Santo António, este método obriga-nos a fazer uma pergunta aparentemente simples, mas historicamente decisiva: que família vivia diante da Sé de Lisboa na época em que nasceu Fernando de Bulhões?

A tradição situa a casa dos pais de Santo António junto da Sé de Lisboa, no espaço onde posteriormente seria construída a igreja que lhe foi dedicada. Não estamos, portanto, perante uma residência situada numa periferia indiferenciada da cidade medieval. Estamos no coração religioso e urbano de Lisboa, junto do principal templo da cidade, num espaço onde se concentravam instituições eclesiásticas, circulação de pessoas, actividade comercial e relações de poder.

A tradição antiga é ainda mais explícita. Um texto sobre a vida do santo conservado em documentação patrimonial de Vila Franca de Xira afirma que Martim de Bulhões e Teresa Taveira moravam «junto e defronte da porta principal da Sé da cidade» e identifica ambos como pessoas «de nobre sangue». O mesmo texto acrescenta que Fernando foi baptizado na Sé e que ali recebeu as primeiras letras, aprendeu latim e exerceu funções de acólito e menino do coro.

É necessário, contudo, separar aquilo que a tradição posterior afirmou daquilo que as fontes mais antigas permitem sustentar.

E aqui surge um dos documentos fundamentais para esta investigação: a Legenda Assídua, primeira grande narrativa franciscana sobre a vida de Santo António. A fonte não se limita a dizer que os pais eram virtuosos. Ao descrever a família, afirma que, na zona ocidental de Lisboa, os pais do futuro santo possuíam uma «residência digna do seu estatuto e condição social». Outras fontes medievais são ainda mais directas. O Dialogus de gestis beati Antonii apresenta Fernando Martins como «oriundo duma mui nobre família dessa cidade», enquanto a Benignitas fala de uma «linhagem nobre» e a Raimundina volta a referir a sua origem numa «família nobre».

Isto não é uma invenção da genealogia portuguesa dos séculos posteriores. É uma tradição que aparece relativamente cedo na documentação hagiográfica franciscana.

Mas há uma diferença importante entre dizer que as fontes medievais apresentam Fernando como oriundo de uma família nobre e afirmar que conseguimos hoje reconstruir, sem margem para dúvidas, uma linhagem aristocrática dos Bulhões até aos reis das Astúrias ou a Godofredo de Bouillon. Essa segunda afirmação exige muito mais cautela.

A genealogia tradicional de Martim de Bulhões e Teresa Taveira atribuiu-lhes ascendências extraordinariamente ilustres. Martim teria sido ligado à linhagem de Godofredo de Bouillon, enquanto Teresa teria sido relacionada com a antiga realeza asturiana. Essas genealogias aparecem repetidamente na tradição antoniana e genealógica, mas a sua comprovação documental é muito mais problemática. Há mesmo estudos genealógicos que colocam sérias reservas sobre a identificação da mãe de Santo António com a linhagem tradicionalmente atribuída aos Taveira.

É precisamente aqui que o historiador deve resistir à tentação da certeza fácil.

O argumento mais interessante não depende sequer de provar uma árvore genealógica até à Alta Idade Média. Depende de observar aquilo que sabemos sobre a posição social da família na própria Lisboa.

Fernando cresceu junto da Sé. Teve acesso precoce à instrução. Aprendeu latim. Foi educado no ambiente da principal instituição religiosa da cidade. Frequentou depois São Vicente de Fora, ingressando entre os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, antes de, anos mais tarde, abraçar a vida franciscana.

A sua formação inicial, portanto, não corresponde à imagem de uma infância desprovida de recursos ou de contactos com os centros intelectuais e religiosos da cidade. O próprio acesso à instrução constitui um indício social relevante, embora não seja, isoladamente, uma prova de nobreza.

Mais interessante ainda é aquilo que aconteceu à própria casa.

A residência associada ao nascimento de Santo António acabaria por ficar integrada no espaço institucional da cidade. No local desenvolveu-se posteriormente a Casa de Santo António e funcionaram os Paços da Câmara e o Senado de Lisboa. A investigação sobre a freguesia da Sé regista precisamente essa transformação do espaço associado à casa paterna de Santo António em lugar ligado posteriormente ao poder municipal.

Temos, assim, uma coincidência histórica extraordinariamente sugestiva: o espaço tradicionalmente associado à casa de uma família lisboeta do século XII tornar-se-ia, séculos depois, um espaço de administração e representação política da própria cidade.

Não significa isto que a casa fosse um «palácio» no sentido moderno, nem que a família de Santo António ocupasse necessariamente um cargo político. Seria um abuso da fonte afirmá-lo. Significa, isso sim, que a localização da residência, a descrição medieval da condição social dos pais, o acesso de Fernando à educação e a própria tradição documental sobre a sua origem compõem um conjunto de indícios que merece ser levado a sério.

É aqui que a hipótese de Sarmento de Matos ganha força enquanto método histórico. O lugar não prova sozinho a condição social dos seus habitantes. Mas o lugar, quando confrontado com as fontes escritas, pode transformar-se num indício. E quando vários indícios convergem, o historiador tem o dever de formular a pergunta, mesmo quando ainda não pode oferecer uma resposta absoluta.

Santo António nasceu, segundo a tradição, em 1195, embora a cronologia exacta continue a ser discutida. Foi baptizado Fernando e cresceu numa Lisboa que ainda se encontrava relativamente próxima da conquista cristã de 1147. A cidade era pequena quando comparada com a Lisboa moderna, e a proximidade física entre os seus principais espaços religiosos, políticos e residenciais tinha uma importância que hoje dificilmente conseguimos imaginar.

Nascer junto da Sé não significava automaticamente pertencer à aristocracia. Mas viver ali, possuir uma residência descrita como adequada ao estatuto da família, ter acesso à educação ligada à Sé e seguir posteriormente uma formação religiosa altamente qualificada são elementos que não devem ser apagados pela imagem posterior do «santo do povo».

Talvez a pergunta correcta não seja, portanto, se Santo António nasceu numa família «rica» ou «pobre». Essas categorias são demasiado modernas para descrever adequadamente a sociedade lisboeta do século XII.

A pergunta historicamente mais rigorosa será outra: qual era a posição social da família de Fernando de Bulhões na Lisboa do seu tempo?

E aqui a resposta parece ser mais interessante do que aquela que a tradição popular nos habituou a imaginar.

As fontes medievais falam de nobreza. A Legenda Assídua fala de uma residência compatível com o estatuto social dos pais. A localização junto da Sé coloca a família no centro da Lisboa medieval. A educação de Fernando demonstra acesso a um universo intelectual e religioso privilegiado. E a tradição genealógica, embora em vários pontos deva ser tratada com prudência, conservou persistentemente a memória de uma origem social elevada.

Não temos, com segurança documental suficiente, uma carta régia que nos permita escrever simplesmente: «Martim de Bulhões era membro da nobreza portuguesa». Mas temos algo historicamente mais interessante: um conjunto de fontes medievais e indícios sociais que tornam perfeitamente legítimo investigar a hipótese de uma família pertencente aos estratos superiores da sociedade lisboeta.

É uma diferença fundamental.

O historiador não precisa de transformar uma hipótese em certeza para fazer História. Pelo contrário, é precisamente quando sabe onde termina o documento e começa a interpretação que a investigação ganha credibilidade.

E talvez seja essa a verdadeira pista escondida na casa de Santo António.

Antes de ser o santo que Lisboa ofereceu ao mundo, Fernando de Bulhões foi uma criança que nasceu junto da Sé, cresceu num ambiente familiar que as fontes descrevem como socialmente digno e recebeu uma educação que o colocou, desde muito cedo, no coração religioso e intelectual da cidade.

O santo do povo pode, afinal, ter começado a sua história muito mais perto das elites de Lisboa do que a memória popular costuma admitir.

E é nessa casa, diante da Sé, que talvez devamos começar a procurar a resposta.

Leia também: Os assobios de família que se deixaram de usar… | Por Paulo Freitas do Amaral

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