A Direção de Informação da RTP explica, com a solenidade própria das instituições públicas, que o recurso ao vox pop nas reportagens visa “recolher e refletir o sentimento público sobre determinados temas, trazendo às peças a voz das pessoas e a diversidade de perceções existentes na sociedade”. A formulação é impecável. Democrática, plural, quase pedagógica. Mas, como em tantas declarações de boas intenções, o diabo mora nos detalhes — ou, neste caso, nos limites.
O episódio recente de uma reportagem sobre o custo de vida ilustra bem esta fronteira invisível entre o que é considerado “sentimento público legítimo” e aquilo que, aparentemente, já ultrapassa o perímetro do aceitável. Uma cidadã, interpelada num mercado, afirmou que “em Espanha é tudo mais barato”. Até aqui, nada de extraordinário: comparações internacionais são comuns e raramente suscitam reparos editoriais.

Jurista
Se o povo só pode falar quando diz o que convém, então não estamos perante vox pop. Estamos perante vox permitida
O problema começou quando, questionada pela jornalista, a mesma cidadã ousou acrescentar que “é tudo a comer, minha senhora. Os que estão no Governo, é tudo para o saco deles e os pobres cada vez mais pobres”. Foi neste momento que o vox pop deixou de ser expressão espontânea do povo e passou a ser, segundo a Direção de Informação, um “anátema indiscriminado sobre a classe política”, com o risco adicional de “amplificar uma visão populista e desinformada, sem qualquer enquadramento legal que a sustentasse”.
A ironia é evidente: o vox pop serve para ouvir o povo — desde que o povo fale como um comunicado oficial. A espontaneidade é bem-vinda, desde que devidamente higienizada. A diversidade de perceções é valorizada, desde que não colida com a moldura discursiva considerada aceitável. Em suma, a voz do povo é livre, mas convém que seja uma liberdade comedida.
É legítimo que uma redação tenha critérios editoriais. É desejável que evite difusão de desinformação. Mas quando a fronteira entre “crítica legítima” e “populismo inaceitável” passa a depender da intensidade com que um cidadão comum exprime a sua frustração, corre-se o risco de transformar o vox pop numa encenação cuidadosamente controlada. E, nesse caso, deixa de ser a voz do povo para ser apenas a voz permitida ao povo.
Se o objetivo é realmente refletir o sentimento público, talvez seja útil recordar que o sentimento público raramente vem com “enquadramento legal”, linguagem técnica ou prudência institucional. Vem cru, direto, imperfeito — e, por isso mesmo, autêntico. Filtrar essa autenticidade em nome de uma suposta neutralidade pode, paradoxalmente, afastar o jornalismo da realidade que pretende retratar.
Afinal, se o povo só pode falar quando diz o que convém, então não estamos perante vox pop. Estamos perante vox permitida.
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