A experiência de vida foi, durante milénios, um dos mais sólidos “manuais” disponíveis. Em muitas culturas, os mais velhos não eram apenas pessoas de idade — eram arquivos vivos, depositários de memória, prudência, técnica, mito, jurisprudência e até diplomacia. Não eram apenas “anciãos”; eram, em certo sentido, instituições.
Hoje, porém, a equação social mudou — e não necessariamente para melhor.
O idoso deixou de ser visto como “quem sabe” e passou a ser visto como “quem já não faz”. Numa sociedade obcecada com métricas, performance e aceleração, o valor mede-se pela produção imediata. E quem não produz ao ritmo exigido é discretamente deslocado para a margem. A velhice deixou, em muitos contextos, de ser um recurso civilizacional para passar a ser tratada como um problema de gestão.

Jurista
A ideia de que o idoso é 'não produtivo' assenta num modelo económico que reconhece sobretudo o retorno rápido
A ideia de que o idoso é “não produtivo” assenta num modelo económico que reconhece sobretudo o retorno rápido. Mas há outras formas de valor — menos quantificáveis, mais lentas, e talvez por isso mais negligenciadas:
– São eles que guardam a memória das instituições.
– São eles que conhecem os ciclos longos da vida e da história.
– São eles que já viram modas, crises e entusiasmos repetirem-se.
– São eles que sabem, muitas vezes, distinguir o essencial do ruído.
Uma sociedade que desvaloriza isto arrisca-se a perder não apenas memória, mas critério.
Os chamados “lares da terceira idade” — frequentemente necessários e, em muitos casos, assegurando cuidados essenciais — tornaram-se também um sinal de uma dificuldade mais profunda: a de integrar a velhice no tecido vivo da comunidade. Quando o modelo dominante privilegia a separação em vez da convivência, o risco não é apenas físico, mas social.
Multiplicam-se os eufemismos — “residência sénior”, “estrutura de acolhimento” — mas a questão central permanece: estamos a criar espaços de continuidade ou de afastamento? Em demasiadas situações, o que existe é uma espécie de suspensão — uma vida segura, mas à parte.
A experiência de vida — que não se compra, não se acelera, não se descarrega — tornou-se um valor difícil de enquadrar num sistema que privilegia o imediato.
Talvez o desafio não seja “valorizar os idosos” como gesto simbólico, mas reintegrá-los como parte ativa da sociedade. Isso implica repensar espaços e práticas: aproximar gerações nas escolas e comunidades, criar programas de mentoria intergeracional, abrir canais de participação cívica onde a experiência conte, e não apenas a velocidade de execução.
Não se trata de regressar a um passado idealizado, mas de recuperar uma função que nunca deixou de ser necessária: a de lembrar, orientar, relativizar — e, em última análise, ensinar a viver.
Uma sociedade que acelera sem memória não progride. Apenas se agita.
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