Há uma filosofia portuguesa? Foram diversas as tentativas de sínteses da História da Filosofia Portuguesa.
Nos séculos XVI e XVII a teoria geocêntrica foi substituída pela heliocêntrica, a Terra deixou de ser centro do universo, provou-se girar à volta do sol, a descoberta provocou mudanças profundas. As ciências autonomizaram-se da religião, a filosofia ganhou asas, capacidades e liberdade critica.
Encontramos centenas de obras de filosofia produzidas por autores portugueses ou de períodos anteriores à nacionalidade. As marcas são o debate do cristianismo primitivo face às heresias, identidades, o “encoberto” e o messianismo, sebastianismo, e o Destino, Quinto Império, problemáticas psicanalíticas mais recentes sobre “ser português”.
Da filosofia, repositório de temas da existência, uma breve viagem sobre Portugal.

Sociólogo
Na Idade Media surgiram teólogos como Paulo Orósio do século V, natural de Bracara Augusta, foi a Hipona conhecer Santo Agostinho, ambos escreveram obras inspiradas na tomada de Roma por Alarico I, o primeiro a “História contra os Pagãos” e Agostinho na “Cidade de Deus” reflecte sobre os Bárbaros e o ataque a Roma.
São Martinho de Dume, ou de Braga, no século VI, foi um bispo que escreveu o “De Correctione Rusticorum”, influenciado pelos ciclos astrais sugeriu o início equinocial do ano, a mudança da designação romana dos dias da semana para a forma actual.
Pedro Hispano ou João XXI (1215-1277), único Papa português, foi médico, professor, teólogo, escreveu a “Summulæ Logicales”, análise da lógica aristotélica que teve 260 edições em toda a Europa. Papa durante oito meses, morreu em Viterbo soterrado por um desmoronamento no palácio onde vivia.
D. Duarte (1391-1438), décimo rei de Portugal, o “Rei Filosofo”, escreveu o “Leal Conselheiro” e um manual de cavalaria, o “Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela”. Morreu vitimado pela peste deixando herdeiro menor, o futuro rei Afonso V “o Africano”.
O Infante D. Pedro (1392-1449) o mais culto da dinastia de Avis, “Infante das Sete Partidas” viajou pela Europa, foi regente dez anos por morte do irmão D. Duarte e por vontade popular. A “Carta de Bruges” dirigida ao irmão contém reflexões e recomendações sobre a boa governação ainda actuais. Escreveu o “Tratado da virtuosa benfeitoria”, traduziu o “Livro dos ofícios” de Cícero. Justo e ético, morreu em Alfarrobeira numa cilada da aristocracia feudal, deixou obra relevante, foi injustamente apagado da História de Portugal.
Com a expansão marítima portuguesa, revelou-se Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), cosmógrafo que negociou o Tratado de Tordesilhas, estava na armada de Pedro Alvares Cabral que “achou” o Brasil, deixou o misterioso “Esmeraldo Situ Orbis”, desaparecido durante 400 anos, reflecte a ciência sustentada pela prática, a “madre de todas as cousas”.
Damião de Góis (1502-1574) destacou-se nos centros da cultura europeia, foi secretário da feitoria de Antuérpia, guarda-mor da Torre do Tombo, conheceu Erasmo e Loyola, na sua extensa obra destacam-se a Crónica de D. Manuel I, universalista com temas inovadores. Despertou invejas, o companheiro jesuíta Simão Rodrigues denunciou-o à Inquisição como erasmista, foi maltratado e preso. Morreu em Alenquer, terra natal onde hoje existe um museu com o seu nome, dedicado às vítimas do Santo Ofício.
Francisco Sanches (1550-1622), foi um filósofo céptico, adversário do pensamento de Aristóteles, a sua obra de referência é “Quod nihil scitur” ou “O Que nada se sabe”.
O jesuíta Padre António Vieira (1608 -1697), missionário e pregador no Brasil e também filosofo, usou sermões para defender ideais humanistas e os indígenas, a abolição da escravatura. Em 2013 a obra completa de Vieira foi publicada em trinta volumes.
Luís António Verney (1713-1792), filosofo “estrangeirado” foi personalidade destacada do iluminismo português, criticou os jesuítas pela excessiva teorização e dogmatismo, o ensino devia basear-se na experiência. Escreveu o “Verdadeiro Método de Estudar” editado em 1746 a pedido de D. João V, colaborou na reforma do ensino, defendeu que a escola elementar devia ser para ambos os sexos e para todas as classes sociais, paga pelo Estado. Exilou-se em Roma, devido às ameaças, onde morreu.
O atribulado século XIX, com invasões napoleónicas, fuga da corte para o Brasil, guerra civil entre liberais e absolutistas, o ultimato inglês deu origem a acesos debates e à ascensão das correntes republicanas. Sucederam-se pensadores como Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) anti idealista defendeu a separação entre filosofia e ciência, teve a oposição de Guerra Junqueiro (1850-1923) Sampaio Bruno (1857-1915), Teófilo Braga (1843.-1924),…
A Geração de 70, reflecte o mal-estar do século XIX, os “Vencidos da Vida” teve continuidade no século XX, no debate entre as visões europeístas e antieuropeístas.
Entre a I Republica e o Estado Novo entre 1910 e 1932 surgiu a revista “A Águia” órgão da Renascença Portuguesa nela escreveu António Sérgio. O movimento filosófico da Escola do Porto, inspirou-se em Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Amorim Viana e outros.
Em 1943, Álvaro Ribeiro publicou “O Problema da Filosofia Portuguesa”, considerava que o pensamento filosófico em Portugal não era autónomo, porque exposto a sistemas filosóficos estrangeiros, a dialéctica de “castiços” e “estrangeirados”.
Cabral de Moncada afirmou em 1960 que a “preocupação nacionalista mais ou menos extravagante, é fortemente detractora das filosofias estrangeiras e quase xenófoba“, António Braz Teixeira considerava a ideia de Deus, que as relações entre a filosofia e a religião são o cerne do debate especulativo português, Fernando Pessoa como uma «forma de provincianismo mental».
Eduardo Lourenço em finais do século XX afirmou “logo que nos aproximamos da linha tórrida do racional tornamo-nos tímidos, ficamos paralisados, perdemos a imaginação”.
Personalidade filosófica singular e libertária não enquadrável em grupos foi Agostinho da Silva (1904-1994), exiliado político, expulso do ensino por se recusar a assinar a declaração de que não participava em “organizações subversivas”. Foi para o Brasil em 1947 onde leccionou em Universidades, regressou a Portugal em 1969. Deixou extensa obra como as “Sete cartas a um jovem filósofo” (1945), “Carta Vária” (1989) e “Vida conversável” (1994).
Entre os filósofos da segunda metade do século XX de uma corrente com proximidades com a psicologia social e a psicanalise destacaram-se os irmãos Fernando e José Gil, Mário Sotto Mayor Cardia, Eduardo Lourenço.
A filosofia portuguesa é um oceano de turbulências, o mistério de existir.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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