“A natureza pode suprir todas as necessidades, menos a ganância dos homens”
Mahatma Gandhi (1869-1948), filosofo e líder pacifista indiano.
Ao conhecer pensadores e as ciências da Antiguidade, percebemos a continuidade e interdependência entre espaços naturais e humano.
O meio ambiente continua actor primordial da história.
O povoamento, ocupação de territórios e a sobrevivência humana resultam da obtenção de recursos hídricos, terras férteis, pastos para animais, assim surgiram assentamentos, migrações, agriculturas, comércio, urbanismos, náuticas, redes viárias, transportes,…

Sociólogo
As paisagens culturais, hoje reconhecidas como património mundial pela UNESCO, evidenciam a importância concedida à Geohistória.
Se observarmos o mapa de Portugal verificamos que, desde a antiguidade, as principais cidades situam-se junto aos estuários dos rios, Lisboa, Porto, Setúbal, Tavira, Portimão, Vila Real de Santo António…, em áreas inundadas e férteis como Coimbra, Santarém, Vila Franca de Xira, no alinhamento dos itinerários romanos que deixaram nos territórios importantes infraestruturas como piso em calçada, pontes, aquedutos,…
O território português regista povoamentos desde a Idade do Ferro.
No período romano a Península Ibérica estava dividida em províncias. A Hispânia Tarraconense, a norte do Douro, Lusitânia entre Douro e Guadiana e a Bética a sul
As “kuras” visigóticas coincidiram com os “conventus” romanos.
Os berberes muçulmanos habitaram a Ibéria medieval, durante cinco séculos utilizaram as cidades existentes, pouco alteraram a organização territorial, o Al-Andalus foi uma civilização integradora das culturas existentes que de há muito se conheciam.
Com o avanço dos bárbaros cristianizados para sul, sobretudo francos, foram sendo concedidos forais, surgiram comarcas à volta das cidades e vilas.
A estrutura administrativa do País evoluiu com as formas de poder feudal ou absoluto e necessidades sociais. As urbes concentravam os poderes político, religioso, militar e fiscal.
No reinado de D. João III as comarcas foram agregadas em seis províncias, a alteração mais profunda ocorreu com a Revolução Liberal de 1820, foram criados 21 distritos e 799 concelhos, contudo em 1842 eram 381, metade tinham sido extintos.
Na primeira metade do século XX a geografia ganhou com a influência do alemão Hermann Lautensach que publicou sobre a geografia da Península Ibérica, realizou o estudo geomorfológico do litoral português, foi particularmente atento à geopolítica.
Amorim Girão, professor de Geografia na Universidade de Coimbra, foi o primeiro doutorado na disciplina, fez a proposta da divisão do País em províncias, publicou um “Atlas de Portugal” (1940), a “Geografia de Portugal” (1941) e “Geografia Humana” (1946).
A década de 40 foi marcante no reconhecimento da interdisciplinaridade e da geohistória.
Entre 1941 e 1944, Fernand Braudel, preso pelos nazis escreveria na prisão a sua obra marcante “La Méditerranée et le Monde Méditerranéen à l’Époque de Philipe II”, na qual introduz o conceito de história-problema, de tempos históricos e geográficos.
Orlando Ribeiro estruturou a mais profunda reanálise da história física e cultural do Pais. Fez licenciatura em Geografia, doutorou-se em 1936 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com uma tese sobre a Arrábida. Frequentou a Sorbonne entre 1937 e 1940, foi leitor de português, aí conheceu historiadores da Escola dos Annales.
Começou a escrever “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico” em 1941, estudou os climas, estações do ano, características dos lugares, relevo, vegetação, hidrografia, as vidas nas comunidades e a adaptação das actividades às condições geoclimáticas.
Para Orlando Ribeiro a história constrói-se a partir do espaço físico.
Após a II Guerra Mundial o mundo registou profundas transformações demográficas, tecnológicas, económicas, adoptou o modelo capitalista neoliberal. Estabeleceu-se a produção intensiva, consumo massificados, os efeitos foram devastadores no meio ambiente, desflorestação, abandono do mundo rural, dependência alimentar,…
O ordenamento do território português no século XX esteve demasiado ligado ao dogma da economia e escassamente ligado à ciência, permitiu-se a destruição de florestas autóctones, introdução da espécie infestante australiana, o eucalipto, para produção de pasta de papel; a “campanha do trigo” de Salazar, urbanizações em zonas inundáveis, cimenteiras, pedreiras e estufas em áreas protegidas, aeroportos em reservas naturais,…
Os conhecimentos de geógrafos e de outros cientistas foram menos valorizados, substituídos pela visão da economia financeira de natureza quantitativa.
No início deste ano Portugal enfrentou a tempestade Kristin com ventos de 200Km/h e ondas de 14 metros, deixou um rasto de devastação, 18 mortos e centenas de famílias desalojadas, queda de 6 mil quilómetros de cabos e 5800 torres da rede eléctrica nacional, num único episódio custos estimados em cerca de 5 mil milhões de euros.
Relatórios internacionais da climatologia indicam que a Península Ibérica será a zona da Europa mais atingida por fenómenos extremos.
A adiada regionalização do País, ordenamento do território, planeamento de recursos e acções são prioridades na prevenção das alterações climáticas. Implica outra visão estratégica de coesão territorial, de coordenação, interligação de meios e monotorização.
A soberania e segurança alimentares são essenciais ao País, têm nos princípios da dieta mediterrânica valioso e útil suporte histórico, científico e prático.
O homem por mais tecnologia e inteligência artificial que desenvolva estará sempre dependente dos mecanismos do universo.
Em suma, a maior lição, aprender com a natureza.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: Religiões mediterrânicas comparadas, as Bíblias e o Corão | Por Jorge Queiroz















