O Dia Mundial da Energia, celebrado a 29 de maio, assinala um momento de sensibilização coletiva para a importância da eficiência energética e da transição para fontes de energia renováveis e resilientes. Em Portugal, esta data é comemorada desde 1981 e convida à reflexão sobre a gestão estratégica dos recursos energéticos, num contexto marcado pela transição climática e pelas metas europeias para 2030. A sua origem está associada à crise do petróleo de 1979, desencadeada pela instabilidade polÃtica no Irão, que provocou perturbações profundas nos mercados internacionais e levou a um aumento de cerca de 150% no preço do barril entre 1979 e 1981, com impactos económicos significativos.
Ao longo dos últimos 45 anos, o sistema energético português transformou-se de forma estrutural. O paÃs evoluiu de uma forte dependência de combustÃveis fósseis e de uma produção renovável limitada essencialmente à energia hÃdrica para um sistema mais resiliente, eficiente e diversificado, apoiado numa crescente produção eólica e solar e na integração de tecnologias digitais de gestão. Em 2025, a incorporação de energia renovável no sistema elétrico nacional atingiu 75,6%, permitindo reduzir 10,8 MtCOâ‚‚eq de emissões de gases com efeito de estufa. No entanto, esse ano ficou marcado pelo apagão ibérico de 28 de abril, que afetou 60 milhões de pessoas e expôs fragilidades na redundância de sistemas crÃticos como saúde, segurança, mobilidade, logÃstica e comunicações, lembrando que a energia é hoje um fator central de vulnerabilidade social e que a transição energética exige coordenação técnica robusta e preparação coletiva.
O inÃcio de 2026 trouxe um novo desafio global com impacto direto na segurança energética. O fecho do Estreito de Ormuz, uma das rotas marÃtimas mais estratégicas do planeta e responsável pelo escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial, provocou uma redução abrupta da oferta e uma subida imediata de 15% no preço do barril, atingindo aumentos superiores a 40% nos momentos de maior tensão, mesmo após a libertação de mais de 400 milhões de barris das reservas estratégicas globais. Este episódio voltou a evidenciar a vulnerabilidade dos paÃses dependentes de importações energéticas, como Portugal.
No Algarve, estes desafios assumem uma relevância particular. A região caracteriza-se por uma elevada dependência energética externa, forte sazonalidade de consumo e vulnerabilidade climática, fatores que tornam a resiliência energética ainda mais crÃtica. A aposta em eficiência energética, produção descentralizada com recurso a energia solar e eólica, comunidades de energia e gestão inteligente de recursos tem vindo a reforçar a capacidade regional de resposta. O apagão de 2025 e a volatilidade dos preços do petróleo em 2026 demonstraram a importância de acelerar soluções locais, renováveis e robustas, essenciais para proteger setores estratégicos como o turismo, os transportes, a água e os serviços públicos.
A AREAL – Agência Regional de Energia e Ambiente do Algarve tem desempenhado um papel determinante neste percurso, promovendo projetos de eficiência energética, apoiando a criação de comunidades de energia, incentivando a produção renovável descentralizada, capacitando municÃpios e entidades e desenvolvendo estratégias de resiliência energética. Num contexto marcado por choques externos e vulnerabilidades sistémicas, o trabalho da AREAL é fundamental para apoiar o Algarve na construção de um sistema energético mais seguro, sustentável e preparado para emergências.
A celebração do Dia Mundial da Energia recorda que a energia não é apenas um recurso técnico ou de acesso garantido, mas um pilar estratégico da sociedade. O futuro energético de Portugal – e do Algarve em particular – dependerá da capacidade de consolidar os progressos alcançados, antecipar riscos e construir um sistema verdadeiramente resiliente, sustentável e seguro para todos.
- Por Cláudio Casimiro, diretor-geral da AREAL – Agência Regional de Energia e Ambiente do Algarve e especialista em Energia pela Ordem dos Engenheiros
















