Há uma linha ténue, quase impercetível, onde habitam os maiores paradoxos da nossa existência. Entre eles, o mais antigo e avassalador de todos: a vizinhança íntima entre o amor e o ódio.
Imaginemos, por momentos, que ambos ganham corpo e caminham lado a lado, de mãos dadas, pela calçada da nossa vida. O Amor avança com um passo leve e saltitante, os olhos ávidos, procurando a beleza nos detalhes mais ínfimos dos dias. É um sentimento que tudo desculpa, que se encanta até com a estranheza do outro, vendo maravilhas onde mais ninguém as alcança. E, ao seu lado, o Ódio. Sombrio, denso, de semblante carregado e insolente.
É fascinante e tragicamente humano perceber que o Ódio precisa do Amor para caminhar. Ele agarra-lhe a mão não por afeto, mas por egoísmo e necessidade profunda. Porque o Ódio, na sua essência, é estéril. Passa a viagem a murmurar queixas, a projetar sombras onde o outro tenta semear luz. Caminham ao mesmo ritmo, numa valsa descompassada onde um respira a alegria e o outro, insaciavelmente, a consome.
Com o desenrolar da viagem, a jornada cobra o seu preço. O Amor, por muito inesgotável que pareça ser no início, começa a perder o fôlego a cada passada. A negatividade constante do seu companheiro de estrada infiltra-se-lhe nos ossos. O passo antes saltitante dá lugar a um arrastar penoso. A energia vital esvai-se, sugada pela voracidade de um sentimento que não sabe criar, apenas destruir. Até que o Amor para. Fica imóvel, exausto, sem forças para avançar um centímetro que seja.
E é então que o trágico acontece. O Ódio, agora robustecido e alimentado pela energia que roubou, avança sozinho. Dá, com frieza, esse derradeiro e único passo em frente.
Quando dizemos na gíria que “do amor ao ódio vai apenas um passo”, esquecemo-nos de que esse passo não é um salto aleatório no vazio. É o resultado de uma longa, silenciosa e exaustiva caminhada a dois. O ódio nasce, esmagadoramente, no exato lugar onde o amor se esgotou de tanto tentar. E fica a reflexão para os dias em que o vento sopra mais forte nas nossas margens: cuidar do amor não é apenas alimentá-lo; é também ter a lucidez de não o deixar caminhar de mãos dadas com a escuridão, antes que a sombra lhe devore, por completo, a luz.
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