Depois de mais de três décadas a ensinar francês, um professor decidiu aposentar-se aos 61 anos, pouco antes de começarem a produzir efeitos as alterações à idade da reforma em França. Com uma pensão que lhe permite viver sem grandes preocupações, recorda a carreira com serenidade e encontrou uma forma diferente de continuar ligado às salas de aula.
Chama-se Joël, aposentou-se aos 61 anos, em junho de 2021, e contou o seu percurso ao jornal francês Le Figaro Emploi.
Segundo a publicação francesa, recebia aproximadamente 2.500 euros líquidos por mês enquanto trabalhava e indicou uma pensão de 2.454 euros líquidos.
Uma carreira entre a região de Paris e a Vendée
Joël começou a ensinar na região parisiense, sobretudo no departamento de Essonne. Durante cerca de dez anos, trabalhou em estabelecimentos de zonas socialmente desfavorecidas, identificados no relato como pertencentes à rede de educação prioritária reforçada, conhecida pela sigla REP+.
Entre os alunos, havia muitos cuja língua materna não era o francês. Mais tarde, foi transferido para um colégio público em La Roche-sur-Yon, no departamento de Vendée, onde terminou a carreira.
O seu percurso decorreu no ensino correspondente aos primeiros anos do secundário francês.
Última aula foi sobre um romance de Maupassant
A despedida aconteceu no final do ano letivo de 2021. Na última aula, Joël falou de Bel-Ami, de Guy de Maupassant, a uma turma de quatrième, equivalente ao 8.º ano português. A literatura, que marcou o seu trabalho, esteve também presente no momento de sair.
“Adorei a minha profissão”, afirmou à mesma fonte. Ainda assim, explicou que tinha vontade de terminar a carreira para experimentar outras atividades. O gosto pelo ensino coexistia com o desejo de passar a organizar o tempo de outra maneira.
Pensão próxima do último salário líquido
De acordo com a mesma fonte, o professor tinha o estatuto de funcionário público e recebia, no final da carreira, cerca de 3.200 euros brutos mensais, correspondentes a aproximadamente 2.500 euros líquidos.
A pensão indicada na reportagem era de 2.700 euros brutos, ou 2.454 euros líquidos por mês. Comparando os montantes líquidos divulgados, a diferença fica nos 46 euros mensais. Estes são os valores apresentados no testemunho, não uma confirmação do montante que recebe atualmente.
Aposentou-se antes da alteração das regras francesas
Joël deixou o ensino aos 61 anos, antes da reforma francesa das pensões aprovada em 2023. Segundo o Le Figaro Emploi, tinha validado os períodos contributivos necessários para beneficiar de uma pensão à taxa plena.
A reportagem não esclarece, porém, qual foi o mecanismo que lhe permitiu aposentar-se naquela idade. O seu caso não significa que qualquer professor francês com cerca de 30 anos de ensino pudesse sair nas mesmas condições.
Continua a ensinar, agora como voluntário
Na altura do relato, Joël dava aulas de francês a estrangeiros através do centro social da sua localidade. Fazia-o como voluntário, duas vezes por semana, durante duas horas em cada sessão. A atividade permitia-lhe continuar a partilhar conhecimentos depois da aposentação.
Os alunos eram agora adultos, muitos deles interessados em aprender a língua para encontrar emprego e participar na vida da comunidade. Pai de dois filhos já a trabalhar, o antigo professor manteve assim uma ligação regular ao ensino, com uma rotina diferente da que tinha na escola.
Quais são as condições para os professores portugueses?
Em Portugal, o regime depende do percurso do docente. Segundo a Caixa Geral de Aposentações (CGA), os trabalhadores inscritos até 31 de dezembro de 2005 mantêm-se abrangidos nas condições legalmente previstas.
Desde 1 de janeiro de 2006, os novos trabalhadores admitidos na função pública passaram a ser inscritos no regime geral da Segurança Social.
Em 2026, a idade normal de acesso à pensão é de 66 anos e nove meses. Existem modalidades de antecipação: a CGA prevê, por exemplo, uma modalidade para quem tenha pelo menos 40 anos de serviço efetivo enquanto tiver 60 anos. O acesso e as eventuais reduções dependem das regras aplicáveis a cada situação.
Quanto aos salários, a tabela oficial de processamento de remunerações de 2026, disponibilizada no portal do IGeFE, apresenta uma remuneração base mensal entre 1.770,69 euros no primeiro escalão e 3.770,19 euros no décimo escalão da carreira docente, antes dos descontos. São valores salariais, não montantes de pensão.
Para saber quanto receberia um professor português, seria necessário conhecer os anos de serviço, as remunerações relevantes, o regime de proteção social e a data da aposentação. A proximidade entre o salário e a pensão relatada por Joël não permite antecipar o resultado dessas contas em Portugal.















