Há por aí quem tenha descoberto uma forma particularmente engenhosa de exercer o poder: começar por mudar os substantivos.
Se uma coisa não corresponde à grandeza que se imagina possuir, muda-se-lhe o nome.
Se uma realidade não é suficientemente lisonjeira, muda-se a descrição.
Se um facto é pouco conveniente, muda-se o enquadramento.
E, se ainda assim o mundo insiste em não colaborar, pode sempre mudar-se o mundo! Pelo menos na gramática!
Há quem se considere rei sem precisar de trono. Basta-lhe a certeza.
A certeza de que aquilo que diz passa imediatamente a ser verdade; de que aquilo que nomeia lhe pertence um pouco mais; de que um adjetivo repetido com suficiente convicção deixa de ser adjetivo e adquire estatuto de facto.

Grande. Extraordinário. Histórico. Incomparável. Magnífico.
Há palavras que, nas mãos certas, descrevem. Nas mãos erradas, coroam.
Essa a mais curiosa manifestação de poder: não a capacidade de fazer, mas a convicção de que dizer equivale a fazer.
Há quem fale como se a realidade fosse uma espécie de funcionário subalterno, obrigado a tomar notas.
Diz-se isto. Anote-se.
Declara-se aquilo. Altere-se.
Não concordamos com o facto? Então o facto que se ponha em conformidade.
Não gostamos do nome? Troque-se.
Não gostamos da história? Reescreva-se.
Não gostamos da pergunta? Ataque-se quem a fez.
É uma filosofia simples, quase infantil na sua pureza: se a realidade não obedece, talvez seja a realidade que esteja errada.
O curioso é que funciona.
Durante algum tempo.
Funciona porque as palavras têm poder. Porque os títulos impressionam. Porque a repetição desgasta a dúvida. Porque há sempre quem confunda confiança com competência e volume com autoridade. Porque o mundo moderno tem uma fraqueza peculiar por quem fala em superlativos.
Mas há uma coisa que nem a mais exuberante das certezas consegue fazer.
Não consegue transformar uma opinião em facto.
Pode embrulhá-la. Pode gritá-la. Pode adorná-la. Pode repeti-la até à exaustão. Pode rodeá-la de títulos, aplausos e adjetivos.
Mas continuará a ser uma opinião.
Talvez seja por isso que algumas pessoas precisem de tantos superlativos. Quando a realidade não confirma a grandeza que se reclama, há sempre um adjetivo disponível.
Quando o argumento não chega, acrescenta-se convicção.
Quando a autoridade vacila, aumenta-se o volume.
Quando a coroa pesa, imagina-se que ela é suficiente para provar a realeza.
Mas uma coroa não faz um rei. Tal como um título não faz uma pessoa sábia.
Uma declaração não faz um facto. Um decreto não faz uma verdade. E um adjetivo, por mais dourado que seja, continua a ser apenas um adjetivo.
Talvez o verdadeiro poder seja precisamente o contrário disto tudo.
É saber que não é preciso chamar-se extraordinário para ser extraordinário. Não é preciso declarar-se grande para deixar uma marca. Não é preciso mudar os nomes das coisas para ter importância. E, sobretudo, não é preciso obrigar o mundo inteiro a repetir a nossa versão para sabermos quem somos.
Há por aí quem se considere rei. Mude substantivos. Distribua adjetivos. Reescreva descrições. Coroa-se a si próprio. E talvez espere que, de tanto o dizer, o mundo acabe por se ajoelhar.
Mas o mundo tem um defeito imperdoável para quem se julga soberano: continua a ser mundo.
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