Passar o dia ao volante, ouvir música e ver a paisagem mudar é uma forma de trabalhar que Andrea, camionista espanhola, aprecia. Escolheu conduzir camiões por gosto, mas reconhece que a profissão precisa de melhores salários e de horários que deixem mais tempo para a vida fora da estrada.
Andrea García, natural de Barcelona, começou no transporte rodoviário aos 21 anos. Numa entrevista ao podcast El Camionero Recomienda Historias, de José María Sallés, citada pelo jornal espanhol 20minutos, falou sobre a liberdade que encontra no trabalho, as condições que gostaria de mudar e os comentários que ouviu por ser uma mulher jovem ao volante de um pesado.
Trabalhar sozinha é uma das vantagens
Para Andrea, a independência é um dos principais atrativos da profissão. Poder organizar a viagem dentro das exigências do serviço e passar várias horas sem trabalhar diretamente com outras pessoas são aspetos que valoriza.
“Gosto de trabalhar sozinha; prefiro trabalhar sozinha a trabalhar em grupo. Vês paisagens, ouves música e, se gostas de conduzir, tens a sensação de que não estás a trabalhar como se estivesses numa fábrica, oito horas de pé”, explicou.
Prefere conduzir durante a noite
Entre os diferentes horários, a camionista prefere os percursos noturnos. A tranquilidade é a principal razão apontada, embora reconheça que a sonolência exige atenção acrescida.
“A noite é muito tranquila. É verdade que é preciso ter mais cuidado porque pode dar sono”, afirmou. Andrea associa essa preferência à necessidade de descansar bem antes de iniciar o serviço.
Salários e duração dos dias merecem críticas
Apesar de gostar do que faz, a jovem considera que a remuneração nem sempre corresponde às exigências da atividade. Com experiência em camiões rígidos e veículos articulados, identifica diferenças entre os vários serviços de transporte.
“O que gostaria de mudar nos transportes é o salário. Deveria ser um pouco melhor pago, porque há setores dentro do próprio transporte que não são pagos como deveriam”, defendeu. Também contesta o período que descreve como disponibilidade: “São 15 horas e isso são muitas horas”. A referência não deve ser confundida com 15 horas de condução efetiva.
Pausas também entram na discussão
Andrea gostaria ainda de ter maior flexibilidade quando precisa de movimentar o camião durante uma pausa. Na entrevista, deu o exemplo de uma paragem interrompida pouco antes de atingir os 45 minutos.
“Se fazes 44 minutos de pausa e moves o camião porque estás a incomodar, fica registada a condução e começa tudo de novo”, afirmou.
A camionista defende que deveria ser possível aproveitar os minutos já cumpridos e completar o restante tempo depois, apresentando essa possibilidade como uma alteração que gostaria de ver nas regras.
Ser mulher ao volante ainda provoca comentários
A entrada na profissão também trouxe situações de preconceito. Andrea conta que algumas pessoas questionaram a sua capacidade para conduzir um pesado pelo simples facto de ser mulher, embora tenha recebido igualmente manifestações de apoio.
A quem partilha a mesma vocação, deixa uma mensagem de incentivo: “Diria que perseguissem os seus sonhos, se é realmente o que querem. Há empresas que cumprem a lei e, se avançarem, não se vão arrepender”.
Como funciona a profissão de camionista em Portugal?
Em Portugal, os motoristas de pesados abrangidos pelas regras europeias estão sujeitos, em regra, a um máximo de nove horas de condução diária, extensível a dez horas duas vezes por semana. Após quatro horas e meia ao volante, devem fazer uma pausa de 45 minutos, que pode ser repartida em 15 minutos seguidos, mais tarde, de outros 30, segundo o portal oficial Your Europe.
O trabalho, porém, vai além de conduzir: pode incluir cargas e descargas, manutenção e formalidades administrativas. Por isso, importa distinguir tempo de condução, tempo de trabalho e disponibilidade. O limite médio de trabalho semanal é de 48 horas, podendo chegar às 60 numa semana, desde que seja respeitada a média no período de referência aplicável.















