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ANA ALEXANDRA RESENDE - Arqueóloga e escritora. Foto DR
Opinião

O sabor da liberdade | Por Ana Alexandra Resende

“O meu filho não aprendeu a nadar naquele dia. Mas aprendeu qualquer coisa talvez ainda mais importante. Aprendeu que o medo não significa necessariamente ‘não consigo'”

14:40 15 Setembro, 2026 07:23 16 Setembro, 2026
Cristina MendonçaCristina MendonçaJornalista
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Há dias, na praia, o meu filho mais novo descobriu a liberdade.

Não aconteceu nada de extraordinário. Não houve grandes decisões, discursos ou acontecimentos daqueles que costumamos associar às mudanças importantes da vida.

Havia apenas mar, uma criança, uma bóia e duas braçadeiras. E algum medo.

Há algum tempo que tentávamos convencê-lo a entrar na água sem a bóia. Não sem proteção, as braçadeiras continuariam lá, mas sem aquela espécie de fortaleza insuflável que lhe dava segurança e, ao mesmo tempo, lhe condicionava os movimentos.

Não queria.

Insistimos um pouco. Explicámos. Negociámos. Voltámos atrás. Tentámos novamente.

Quem tem filhos conhece bem estas pequenas negociações diplomáticas em que os adultos apresentam argumentos aparentemente irrefutáveis e uma criança responde com a palavra mais poderosa da língua portuguesa:

— Não.

Até que, naquele dia, aceitou.

Entrou no mar apenas com as braçadeiras. Primeiro cauteloso. O corpo ainda preso à memória da bóia que já não estava lá. Os movimentos medidos. A atenção concentrada naquela enorme quantidade de água que, de repente, parecia estar muito mais próxima.

Depois aconteceu qualquer coisa. Não sei identificar o momento exato. Talvez tenha percebido que não ia ao fundo. Talvez tenha sentido que as pernas podiam movimentar-se de outra maneira. Talvez tenha descoberto simplesmente que o medo que imaginara era maior do que aquilo que estava realmente a acontecer.

Mas vi-o mudar diante de mim. Começou a aventurar-se. Depois a rir. Depois a querer ir mais longe.

Aceitou molhar o nariz, coisa que antes evitava. Experimentou movimentos novos. Começou a brincar com a água em vez de apenas se proteger dela.

E, pouco depois, já não queria sair.

Quando finalmente conseguíamos convencê-lo a vir para a areia, bastavam alguns minutos para regressar a correr.

Mais. Queria mais. Mais água. Mais experiências. Mais aquela sensação que acabara de descobrir e para a qual provavelmente ainda não tinha uma palavra.

Eu tinha.

Liberdade.

Foi impossível não ficar a observá-lo.

Porque o meu filho não tinha aprendido a nadar naquele dia.

Não tinha passado subitamente a dominar o mar.

Continuava a precisar das braçadeiras. Continuava a precisar de adultos por perto. Continuava a existir risco, como existe sempre que uma criança entra na água.

Objetivamente, muito pouco tinha mudado.

E, no entanto, tinha mudado tudo.

Ele tinha descoberto que conseguia fazer uma coisa que até então acreditava não conseguir.

Poucas sensações humanas sejam tão poderosas como essa.

As nossas bóias

Fiquei a pensar nas bóias que carregamos pela vida. Algumas são indispensáveis. Outras foram indispensáveis durante algum tempo. E há aquelas que continuamos a usar muito depois de deixarem de ser necessárias, simplesmente porque nos habituámos à sensação de segurança que proporcionam.

Uma rotina. Um emprego. Uma relação. Uma determinada maneira de viver. A aprovação dos outros. O medo de falhar. O medo de tentar. O medo de parecer ridículo. O medo de descobrir que afinal não conseguimos.

Construímos mecanismos de proteção e, muitas vezes, precisamos deles.

O problema começa quando deixamos de perceber que aquilo que nos protege também pode limitar os nossos movimentos.

Uma bóia cumpre extraordinariamente bem a sua função. Mantém-nos à superfície. Mas não nos ensina a nadar.

E talvez algumas das nossas maiores prisões sejam precisamente assim: não parecem prisões. Parecem segurança. São confortáveis. Conhecidas. Previsíveis. Permitem-nos continuar à superfície. Só não nos deixam descobrir até onde conseguiríamos ir sem elas.

O medo também nos protege

Seria fácil transformar esta pequena história numa daquelas frases motivacionais que nos dizem para abandonar tudo aquilo que nos dá segurança e «seguir os nossos sonhos».

Não acredito nisso.

O medo existe por uma razão.

A prudência existe por uma razão.

E as braçadeiras ficaram nos braços do meu filho por uma razão muito concreta.

Liberdade não é irresponsabilidade.

Talvez tenhamos criado uma ideia demasiado simplista de liberdade, como se ser livre significasse viver sem limites, sem compromissos, sem regras ou sem depender de ninguém.

Não significa.

Somos sempre condicionados por alguma coisa: pelo corpo, pelo tempo, pelo dinheiro, pelas pessoas que amamos, pelas responsabilidades que assumimos, pelas escolhas que fizemos.

A liberdade absoluta provavelmente nem existe.

Mas existe uma liberdade muito mais interessante.

A liberdade de descobrir que podemos.

Podemos tentar.

Podemos aprender.

Podemos mudar.

Podemos afastar-nos alguns centímetros da margem.

Podemos abandonar uma segurança quando já não precisamos dela.

Podemos conservar as braçadeiras enquanto aprendemos a viver sem a bóia.

E isto parece-me particularmente importante num tempo em que queremos eliminar da vida das crianças praticamente todos os riscos.

Protegemos. Vigiamos. Antecipamos. Corrigimos. Evitamos quedas. Tentamos poupar-lhes frustrações. Fazemo-lo por amor. Naturalmente.

Mas talvez exista uma fronteira muito delicada entre proteger uma criança e impedi-la de descobrir aquilo de que é capaz.

Porque a confiança não se explica.

Experimenta-se.

Podemos dizer cem vezes a uma criança:

— Tu consegues.

Mas existe um momento em que ela própria tem de descobrir:

— Eu consigo.

E nenhuma palavra nossa substitui essa experiência.

A extraordinária importância do «outra vez» Foi talvez aquilo que mais me impressionou naquele dia.  Não foi ele ter entrado sem a bóia. Foi querer voltar. Outra vez. E outra. E outra. O medo tinha-se transformado em desejo. Aquilo que, minutos antes, exigira negociação, tornou-se uma coisa da qual já não conseguíamos afastá-lo.

É assim que a liberdade funciona. Depois de a experimentarmos verdadeiramente, alguma coisa muda.

Não significa que deixemos de ter medo. Significa que passamos a conhecer uma possibilidade que antes desconhecíamos.

E é muito difícil apagar esse conhecimento.

Quem descobriu que consegue pensar por si próprio dificilmente volta a sentir-se inteiramente confortável quando lhe dizem o que deve pensar.

Quem descobriu que consegue sobreviver sozinho olha de maneira diferente para as dependências que antes julgava inevitáveis.

Quem encontrou a própria voz dificilmente regressa ao silêncio com a mesma facilidade.

Quem percebeu que existe mundo para lá daquilo que conhece começa inevitavelmente a olhar para a fronteira de outra maneira.

Talvez seja por isso que a liberdade sempre assustou tanto.

Não apenas quem a conquista.

Também quem estava habituado a decidir os limites dos outros.

O meu filho ainda não sabe nadar. Esta frase é importante. Porque liberdade também é reconhecer aquilo que ainda não sabemos fazer. Não lhe tirei as braçadeiras. Não lhe disse para ir sozinho. Não transformei coragem em imprudência.

Estive ali.

Perto.

A diferença foi apenas esta: dei-lhe espaço suficiente para descobrir um pouco mais de si próprio.

Talvez educar seja sobretudo isto.

Estar suficientemente perto para que saibam que podem regressar.

E suficientemente longe para que descubram que conseguem avançar.

Não viver por eles.

Não eliminar todos os obstáculos.

Não lhes oferecer permanentemente a nossa bóia porque temos medo de assistir às suas primeiras braçadas desajeitadas.

Dar-lhes raízes, sim.

Mas aceitar que, a determinada altura, as raízes cumprem melhor a sua função quando permitem partir.

Naquele dia, enquanto via uma criança sair da água e regressar imediatamente a correr para o mar, pensei em quantas vezes fazemos exatamente o contrário na vida adulta.

Sentimos vontade de avançar e recuamos.

Queremos experimentar e adiamos.

Sabemos que alguma coisa já nos limita, mas continuamos agarrados a ela porque pelo menos sabemos como funciona.

Talvez ainda carreguemos bóias que já podíamos ter deixado na areia. Não sei. Sei apenas aquilo que vi. i medo. Vi hesitação. Vi uma primeira tentativa. E depois vi um rosto completamente diferente. O rosto de alguém que acabara de descobrir uma possibilidade.

O meu filho não aprendeu a nadar naquele dia. Mas aprendeu qualquer coisa talvez ainda mais importante. Aprendeu que o medo não significa necessariamente «não consigo».

Às vezes significa apenas: ainda não experimentei.

E depois voltou a correr para o mar.

Talvez fosse isso.

O primeiro sabor da liberdade.

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