Vivemos tempo polarizados, em que tudo, como já aqui o escrevemos, tende a ser preto ou branco. Está-se de um lado ou do outro. É-se a favor ou contra. É-se dos bons ou dos maus. E quem se atreve a perguntar se as coisas serão assim tão simples arrisca-se a ser imediatamente colocado no campo adversário.
A dúvida tornou-se suspeita. A nuance é frequentemente confundida com tibieza. Tentar compreender as razões de alguém parece, aos olhos de muitos, o mesmo que justificar os seus actos. Reconhecer erros de quem está «do nosso lado» é quase uma traição. Admitir que o adversário possa ter razões, ainda que isso não lhe dê razão, é aproximar-se perigosamente da heresia.
É um fenómeno que encontramos em todo o lado. Na política, nas redes sociais, nas conversas quotidianas. Mas talvez seja nas relações internacionais que ele se revele hoje de forma mais inquietante.
Durante séculos, a diplomacia partiu de uma constatação simples, embora pouco romântica: os Estados não são amigos nem inimigos eternos; têm interesses. E esses interesses, por vezes incompatíveis, obrigam a falar mesmo quando não há simpatia, confiança ou concordância.
A diplomacia nunca foi uma reunião de pessoas de boa vontade. Pelo contrário: existe precisamente porque há conflitos, antagonismos e interesses divergentes. Negociar com quem pensa como nós seria uma atividade relativamente simples. O verdadeiro trabalho diplomático começa quando é necessário sentar à mesa quem preferiria nem sequer estar na mesma sala.
Mas hoje parece ter-se instalado uma outra lógica. Falar com o adversário é visto como sinal de fraqueza. Procurar uma saída negociada pode ser interpretado como cedência. Defender um compromisso é, demasiadas vezes, ser acusado de equidistância — palavra que, curiosamente, se transformou quase num insulto.
Como se o mundo fosse um tribunal moral permanente, onde a primeira obrigação fosse escolher imediatamente quem são os justos e quem são os condenados.
O problema é que a política internacional raramente cabe nessa simplicidade. As vítimas são reais, as agressões existem, as responsabilidades devem ser identificadas. Mas reconhecer estes factos não dispensa a necessidade de pensar. Pelo contrário: torna-a ainda mais urgente.
Porque compreender não é desculpar. Explicar não é justificar. E conversar não é capitular.
Pode ser moralmente reconfortante dividir o mundo entre bons e maus. É também muito mais fácil. Dispensa-nos do esforço de aceitar que as pessoas, os povos e os Estados são capazes de praticar atos condenáveis e, simultaneamente, ter interesses legítimos; de serem vítimas num determinado contexto e responsáveis noutro; de defender princípios elevados e agir, quando lhes convém, de forma bastante menos elevada.
A realidade, infelizmente, raramente é coerente.
Talvez seja precisamente essa incoerência que mais nos incomoda. Preferimos narrativas claras, personagens facilmente identificáveis e conclusões definitivas. O mundo complicado cansa-nos. Exige atenção, memória e, sobretudo, a incómoda disposição de mudar de opinião perante novos factos.
É muito mais cómodo viver a preto e branco.
Mas há um preço a pagar por essa comodidade. Quando desaparecem os matizes, desaparece também o espaço para o diálogo. E, quando o diálogo desaparece, resta frequentemente a linguagem da força, da ameaça e da humilhação.
Não significa isto que todos os conflitos possam ser resolvidos à mesa das negociações, nem que todas as partes mereçam a mesma consideração moral. A diplomacia não é uma forma de amnésia. Não obriga a esquecer crimes, agressões ou injustiças. É, simplesmente, o reconhecimento de que condenar e negociar não são atividades incompatíveis.
Pode-se considerar alguém responsável por uma guerra e, ainda assim, falar com ele para tentar terminá-la.
Aliás, talvez esta seja uma das verdades mais difíceis de aceitar nos tempos que correm: a paz raramente é feita entre amigos. Se fossem amigos, provavelmente não haveria guerra para terminar.
Vivemos, pois, tempos sem matizes. Tempos em que a complexidade é confundida com relativismo, a prudência com cobardia e a diplomacia com traição. Tempos em que se exige a cada um uma declaração de pertença antes de se ouvir o que tem para dizer.
Talvez devêssemos desconfiar um pouco dessa necessidade permanente de escolher cores.
O mundo não é preto e branco. Nunca foi. E, se quisermos continuar a viver nele sem o tornar ainda mais perigoso, talvez seja altura de recuperar aquilo que perdemos entre duas trincheiras: a capacidade de ver as muitas cores que existem entre uma e outra.
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