Não deixa de ser curioso assistir à forma como, em particular, os principais partidos que, ao longo das décadas posteriores ao 25 de Abril, têm assumido responsabilidades governativas no país vêm reagindo ao aparecimento e ao crescimento eleitoral de um partido que consideram populista: o Chega.
Menos evidente, porém, tem sido a existência de uma reflexão igualmente exigente sobre as razões que levaram uma parte considerável do eleitorado a afastar-se desses partidos e a aproximar-se do dito Chega.
Seria legítimo perguntar: onde terão falhado? Que expectativas criaram? Que promessas fizeram e não cumpriram? Que compromissos abandonaram ou, em alguns casos, terão mesmo traído? E que responsabilidade lhes cabe na crescente desconfiança de muitos cidadãos em relação à política, às instituições e aos próprios partidos?
As perguntas poderiam abranger vários domínios: as relações entre capital e trabalho, os salários e as condições de emprego, a precariedade, a habitação, a educação, a saúde, o funcionamento dos serviços públicos, a transparência da Administração Pública, a corrupção ou, simplesmente, a perceção de que as oportunidades de melhorar as condições de vida não têm acompanhado as expectativas criadas ao longo de décadas.
É perfeitamente legítimo criticar o Chega, as suas propostas, o seu discurso e a sua estratégia política. É também legítimo apontar os riscos que determinadas posições podem representar para a qualidade do debate democrático e para as próprias instituições.
Mas reduzir o seu crescimento eleitoral à capacidade de um partido populista para manipular ou «enganar» uma parte significativa do eleitorado é uma explicação demasiado cómoda — e, sobretudo, insuficiente.
Os eleitores não são uma massa amorfa de pessoas incapazes de pensar. Podem votar por convicção, por protesto, por desilusão ou simplesmente porque deixaram de reconhecer nos partidos tradicionais respostas para os seus problemas. Podem, naturalmente, combinar várias destas motivações. E podem também encontrar no discurso do Chega respostas que, certas ou erradas, lhes parecem mais próximas das suas preocupações do que aquelas que lhes são oferecidas pelos partidos tradicionais.
Ignorar estas motivações não faz desaparecer o fenómeno; apenas impede que se compreenda.
E compreender não significa justificar.
Reconhecer que existem razões sociais, económicas e políticas para o crescimento do Chega não implica aceitar ou legitimar as suas propostas. Significa apenas admitir que o descontentamento que alimenta determinado fenómeno político não nasceu necessariamente com o partido que dele beneficia.
Aliás, talvez uma das questões mais importantes seja precisamente esta: se existe descontentamento suficiente para fazer crescer significativamente um partido como o Chega, porque não conseguiram os partidos tradicionais dar-lhe resposta antes de esse descontentamento encontrar expressão política noutra força?
Não será suficiente responder que os eleitores foram enganados. É necessário perguntar por que razão estavam disponíveis para ser convencidos.
Não será suficiente denunciar o populismo. É necessário perceber por que razão encontrou terreno fértil.
Não será suficiente atribuir o fenómeno à personalidade ou ao discurso dos seus dirigentes. É necessário olhar também para as condições que tornaram esse discurso eficaz junto de uma parcela crescente da população.
Talvez seja, por isso, chegada a hora de esses partidos olharem menos para o adversário e mais para si próprios. De interrogarem as razões da perda de confiança do eleitorado e de perguntarem se algumas das suas opções, omissões ou contradições contribuíram para esse afastamento.
Uma autocrítica séria não deveria significar uma aproximação às posições do Chega, nem uma aceitação das suas respostas. Deveria significar, antes, a capacidade de reconhecer que uma parte do descontentamento social e político é real e que não pode ser resolvida simplesmente desqualificando quem o exprime ou quem, por razões diversas, encontra naquele partido uma alternativa.
Uma democracia saudável exige dos partidos não apenas a capacidade de denunciar os adversários, mas também a coragem de examinar criticamente o seu próprio percurso, reconhecer erros e perceber por que razão tantos cidadãos deixaram de confiar neles.
Atribuir tudo ao populismo é fácil.
Mais difícil é perguntar por que razão o populismo encontrou terreno fértil.
E talvez seja precisamente essa pergunta — mais incómoda, mais exigente e menos conveniente — que os partidos tradicionais tenham de começar por fazer a si próprios.
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