Geopolítica e religião. Temas sensíveis. Alarguem-se horizontes em Faro. Aquireúnem-se um conjunto de evidências históricas de um património singular de valor universal. Harvey Whitehouse em a Herança explica o conceito de era axial na religião. Uma forma de reação ideológica à desigualdade económica e social criada pela acumulação de poder nos Impérios. Simbolizada numa religião de resistência popular no íntimo e em comunhão contra as injustiças criadas pelo poder político.
Axial é X como símbolo. Que converge ao centro, sem hierarquia precisa, linhas e polos diametralmente opostos. Durer no século XVI retratou pioneiramente um escudo de armas do Reino do Algarve dedicado ao Imperador Maximiliano I com cristãos e muçulmanos em simetria axial. Estávamos nos alvores do Império português. Pela história de Faro colhemos evidências.

“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”
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Uma cidade plana dá especial valor à Paz. Não escolhe um urbanismo de colina com muralhas para se defender. Sinais históricos. Primeiro. Sede de taifa muçulmana denominada Santa Maria do Algarve em 1085 conforme o historiador espanhol Eduardo Moreno em España Plural. Respeito de um passado com pontes religiosas cristãs. Segundo. Acordo de rendição negociado com os mouros sem saques, acontecimento invulgar na Idade Média aquando da conquista por Afonso III em 1249. Terceiro. Uma das portas da muralha denominar-se-ia Nossa Senhora de Entre-Águas quando seus exércitos chegaram.

No limiar do Império Português (1475-1525) Portugal atingiria um valor aproximado de um milhão de habitantes. A cifra que Whitehouse estima como favorável ao dealbar de uma religiosidade com características axiais. Quinto sinal. O convívio são com a comunidade hebraica e seu primeiro livro impresso em Portugal, o Pentateuco em 1487. Um cemitério judaico é hoje legado à cidade. A intolerância da Inquisição não conseguiu destruir a durabilidade desta vontade histórica e religiosa axial.
Poucas cidades no mundo se podem orgulhar deste cruzamento convergente de três religiões monoteístas no sentido da Paz. A diocese do Algarve e suas obras reforçariam estas características.

O pensamento humanista de D. Jerónimo Osório, primeiro bispo em Faro (1577), reconhecido internacionalmente, insere-se nesta linha. Tempos de Impérios em colisão. Pugnava pela existência de uma ordem do universo divinalmente justa, assente numa hierarquia de méritos pela prática da virtude empregue no bem comum. Esta seria a fonte principal da nobreza e não o sangue, títulos ou privilégios. A nobreza, defendia, é transmissível entre os homens. O rei seria o nobre dos nobres. Regista entre as virtudes, a Justiça e a Beneficência. Assinalamos aqui dimensões axiais: bem comum, mérito, virtude, justiça, disseminação humana. O mentor não teria tempo para sua aplicação prática falecendo em 1580. Pior. A cidade seria saqueada 16 anos depois por corsários ingleses.
D. Francisco Gomes de Avelar, bispo entre 1789 e1816, teve essa oportunidade pela duração do cargo e projetou-a urbanisticamente, Numa região empobrecida carente de justiça social e reedificações após o terramoto de 1755 fez um trabalho administrativo e religioso notável orientado para o bem comum.
Leu seguramente Osório. E completou sua axialidade. Arco da Vila. 1812. Arquiteto Fabri. São Tomás de Aquino no nicho central? Por ser um dos maiores pensadores políticos medievais. Seus escritos conciliam razão e fé, verdade natural e revelada, ordem e criação. Defendia um equilíbrio inteligente de poderes mistos onde se encontram reunidos, em convergência monarquia, aristocracia e governo popular reinventando conceções de Aristóteles.

Avelar traduziu o que foi o Reino dos Algarves? Num governo central, em regra ausente, periférico, com intermediários indiretos, que melhor práxis para um procurador local senão o governo pelo bem comum? De mérito pelo conhecimento? De igualdade religiosa e popular dos filhos de Deus? Simbolizou-se na escultura para a eternidade em Faro a harmonia política de São Tomás. O papa Pio XII, na sua mensagem de Natal de 1944, caracterizava-o como “equilíbrio inteligente próximo da democracia constitucional contemporânea”.
A axialidade é leitura urbanística da Vila Adentro. Suas muralhas e ruas em sentido oblíquo em vista aérea. Como se entra para o Largo da Sé e como se posiciona este em relação à Praça Afonso III, bem como as entradas da sé e câmara municipal. Poderes com suas órbitas próprias, contactos possíveis, mas intermitentes e temporários, com itinerários de regresso ao ponto de partida. Ao centro, a estátua do bispo (incomum nos centros históricos portugueses) em linha oblíqua à catedral, retratando sua importância enquanto dirigente experimentado na periferia de uma ordem política indireta. A história geopolítica axial de Faro tem valor subjacente: A Paz. Uma vista aérea interpretativa do alto de uma catedral, miradouro ou depósito de água dar-lhe-ia significado. Um tesouro geopolítico-religioso. O Arco do Repouso orientado a este, para o nascimento do sol e de religiões monoteístas, interpretadas na era axial como projetos de maior justiça social em tempos de Império, será um excelente ponto final de percurso numa viagem de inscrição universal.
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