Faro constitui um estudo de caso exemplar internacional em Hidropolítica, ou seja, na ciência que estuda as relações entre água, poder e sociedade. Peças fundamentais da sua identidade. Por ora, constitui-se uma dedicatória à memória do coletivo farense que fez do contexto de sua ligação à água, seu controlo, movimento, retenção e simbolismo, a mestre na sua História!
A água, esse bem comum, tão difícil de apropriação individual, mas que os farenses desde cedo transformaram em mercadoria e direito. Uma história de diques, geometria da paisagem, retenção de sal e peixe com que os fenícios fundaram entrepostos comerciais na antecessora Ossonoba significando, segundo leituras freguesas, “Osson ébá; seja, armazém no sapal.
A doca central da cidade é majestosa. Exprime e reflete tudo. Espelho calmo urbano de controlo humano sobre a mãe Água. Linhas arquitetónicas à noite. Ligação a um mar através de uma ria, formosa, que o abraçará com ternura. O azul será também fundo na sua heráldica. A cidade festiva em cada 7 de Setembro, o ano de 1540 em que João III a elevou a cidade num contexto de dominante municipalismo foralengo iniciado no liberalismo e prolongado no Estado Novo.

“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”
Mas a estátua do rei elevador não se erigiu em Faro. O íntimo da cidade bem sabe que tem História mais rica. A geopolítica, de fundação logística. De rendição honrosa e sofrimento por Portugal. De triunfo militar num Reino apartando-se dele com um governo civil. Façamos retrospetiva multimilenar.
No centro da cidade, o neomourisco das agências do Banco de Portugal ou o neomanuelino da Caixa Geral de Depósitos expressam leitura coerente de renovação, requinte e poder na ligação entre arte e finanças fronteiros a um espaço público de alameda ou jardim. Para ser visualizado e disfrutado por clientes ou que viessem a sê-lo reflexivamente em momentos de lazer.

Estes estilos são geopolíticos. De ligação a Portugal. A torre da CGD branca e cónica, comum no Alentejo/Ribatejo, é recordatória militar-religiosa de minaretes ou atalaias em meridionais geográficos planos. A esfera armilar no topo é parte da bandeira nacional. São azulados os revestimentos junto ao branco do Banco de Portugal próximo? Tranquilos! As cores das armas portuguesas estão no brasão municipal.
A arquitetura destes edifícios foi disputada entre autoridades nacionais e locais. Ricardo Agarez em a Construção do Algarve (pp.298-299) afirma que o central predominou enquanto «abstração do Sul», visão de diversidade pitoresca para lugares periféricos, a sul, com reminiscências árabes.
A história geopolítica transporta-nos mais além. Faro foi cidade leal à causa liberal. Esta aportou o conceito de propriedade- mercadoria, acumulável e livre de ónus ou encargos feudais, poderes, títulos ou privilégios. Transacionável, alienável e divisível em lotes vendáveis no imobiliário ou em títulos na bolsa. Faro acolhe no seu seio patrimonial instituições do poder liberal.
O financeiro proporciona investimento, logística, aprovisionamento e infraestruturação económicas. Encontramos exemplos homólogos na Europa capitalista? Será Faro aplicação meridional da holandesa construída na ligação à água? Aí construiu-se um Estado-Nação moderno e soberano bem financiado e planeado num território exíguo.
A história toponímica de Faro responde-nos afirmativamente. O armazém no sapal, a Porta do Mar, o Entre-Águas pela ria acessível. Demonstra-se uma implantação de terra na água, um conhecimento cuidado, um planeamento, uma gestão aperfeiçoada entre dois sistemas naturais, ria e mar. Boa herança. Alargada, hoje, com sucesso ao ar no transporte aéreo.
O armazém, a logística são fundamentais na geopolítica do transporte e da guerra. Armas e alimentos. No centro do Algarve para combater a leste/ oeste ou na montanha as guerrilhas absolutistas. Razões da localização da sede militar em Faro. O triunfo liberal foi reforço, também, de opções político-económicas assentes em agricultura exportável. Faro tem um hinterland de fruta, horticultura e frutos secos? Sucesso acumulado.
O liberalismo colocou fim ao governo militar do Reino do Algarve e das suas instituições de poder indireto. A monarquia constitucional tinha outros planos. Uma maior racionalização administrativa. Um governo civil. Um Algarve agregado ao círculo eleitoral de Beja. Um distrito. Faro dará seu nome e capital nesta novel circunscrição.

Faro tem más recordações de guerra e impérios em choque. O saque do inglês conde de Essex em 1596 relembra um sofrimento por um Portugal que não cumpria o seu equilíbrio geopolítico entre Atlântico e Mediterrâneo, subordinado estava aos interesses da União Ibérica. A Inglaterra sempre procurou abrigo amigável na linha atlântica ocidental para contrariar interesses de potências continentais meridionais. E na altura, não o tinha. Tudo ajuda a explicar Portugal.
A geopolítica de Faro explica-se no poder da Harmonia? Da Conciliação, da Paz? Sim, O Entre-Águas é equilíbrio associado ao posicionamento central heráldico e lendário da Virgem Maria e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal. Uma história militar reinventada e de bispos eminentes na diocese do Algarve explicarão essa viagem desconhecida.
Virgílio Machado, autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e Portugal Geopolítico” (http:reinosdoalgarve.com).
(Continua)
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