Trabalhos arqueológicos no estuário do Arade, entre Portimão e Lagoa, decorrem até sábado para identificar, referenciar e documentar as áreas que serão alvo de intervenções e escavações em 2027, no âmbito de um projeto dedicado ao património subaquático.
A campanha integra o projeto MUSA – Musealização dos Achados Arqueológicos do Fundo do Rio Arade, que pretende caracterizar e acompanhar o estado de conservação de vestígios de naufrágios e de outros testemunhos de diferentes períodos históricos existentes no rio que separa os dois concelhos algarvios.
Campanha cria referência para intervenções em 2027
Os trabalhos deste ano estão sobretudo centrados “na criação de uma situação de referência” sobre o estado de conservação dos sítios arqueológicos, explicou José Bettencourt, coordenador do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS).
A informação recolhida deverá permitir definir a estratégia para a próxima campanha, prevista para 2027.
“Temos uma zona portuária, uma zona de fundeadouro, onde as embarcações ancoravam” e onde se foram acumulando materiais resultantes das atividades desenvolvidas à superfície, formando “um arquivo da sua história”, afirmou José Bettencourt.
De acordo com o responsável, “há vestígios que documentam” cerca de dois mil anos de navegação no estuário, desde materiais associados à época romana até âncoras perdidas recentemente por embarcações de recreio.
A área onde têm sido encontrados vestígios prolonga-se por todo o estuário e abrange a zona portuária, incluindo vários locais de naufrágio. O mais antigo identificado data do século XVI, enquanto os mais recentes remontam ao século XIX.
José Bettencourt destacou que as estruturas de madeira dos navios afundados permitem estudar a construção naval, a navegação, a circulação e a relação das comunidades com o mar ao longo dos séculos.
Escavações serão mais intensas na próxima campanha
Em 2027, os trabalhos deverão decorrer entre maio e outubro e terão uma dimensão diferente. A campanha será “mais robusta em termos de logística e mais intrusiva”, prevendo a escavação controlada de sedimentos, a desmontagem de estruturas e a retirada de objetos, acompanhadas pela documentação dos respetivos contextos arqueológicos.
O objetivo “é aprofundar o conhecimento científico sobre o património subaquático e constituir uma coleção de materiais arqueológicos que será objeto de conservação e investigação”, estando prevista a futura exposição dos achados em dois polos museológicos, no Museu de Portimão e em Lagoa.
A decisão de retirar objetos do fundo do rio será tomada caso a caso. Alguns materiais poderão permanecer no local ou ser transferidos para depósitos subaquáticos, tendo em consideração, entre outros fatores, os elevados custos associados à conservação.
O projeto contempla uma reserva subaquática visitável destinada a peças de grandes dimensões em ferro, como âncoras e canhões, enquanto os objetos mais pequenos e com maior potencial científico e patrimonial deverão ser recuperados.
“A solução que será adotada será provavelmente a criação da tal reserva subaquática”, onde ficarão objetos de maior dimensão, enquanto os materiais mais pequenos e considerados relevantes do ponto de vista científico e patrimonial serão retirados, explicou o coordenador do CNANS.
A futura reserva deverá poder ser visitada por mergulhadores, desde que estejam garantidas condições adequadas de profundidade e segurança, permitindo o acesso público ao património preservado debaixo de água.
Achados poderão ser expostos em Portimão e Lagoa
Os materiais recuperados serão conservados no Museu de Portimão e no CNANS, em articulação com a Câmara de Lagoa, antes de serem integrados nos dois espaços museológicos previstos pelo projeto.
Com um investimento de 3,4 milhões de euros, financiado pelo Programa Regional ALGARVE 2030, o MUSA inclui igualmente a criação de um museu virtual, com visitas em 360 graus, modelos desenvolvidos durante a investigação, fotografias e vídeos.
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