Estátuas de reis ou chefes de Estado não são neutrais. São símbolos de poder, tão mais fortes quanto se perpetuarem e resistirem a revoluções. Tendo localização espacial são geopolíticas, subjetivando e enfatizando a importância de personalidades, formas ou ações de governo num determinado local ou território.
“Reinos”, “Impérios”, “Metrópoles”, “Colónias, “Nações”, “Internacionais”, “Transnacionais”, são ordenações geopolíticas. Será a ordem política portuguesa relação entre metrópole e colónias, no desdobramento Reino de Portugal e dos Algarves? Terão as estátuas de poder, para além de uma simples implantação local, conteúdos que visam dimensões geopolíticas? Propõe-se uma viagem interpretativa da estatuária de governantes máximos de Portugal implantada no Algarve.
Numa observação, quiçá subversiva e de gira-história, propõe-se explicar passado pelo presente. Extraem-se significados geopolíticos, relacionais e internacionais das estátuas de líderes de Portugal no Algarve. Indagando-se pela sua coerência estrutural e multisecular justificativa de território histórico de estatuto particular.

“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”
Manuel Teixeira Gomes, natural de Portimão, é personalidade invulgar. Foi empresário, poeta, escritor, viajante, diplomata, político e chefe de Estado. Assina o decreto de elevação de Portimão a cidade. Esta retribuirá. A sua efígie, discreta, num bloco laminado de mármore em fonte luminosa, olha para norte, no sentido de Lisboa e Europa, palco do seu protagonismo político e inspiração literária em viagens.
A sua vida inspira transnacionalidade que o Algarve agradecerá. Viriam de Inglaterra os pioneiros turistas que a sua diplomacia junto do Império Britânico cativou. A região inserir-se-ia numa ordem turística internacional até aos nossos dias.

Existiram sombras da sua vida. O exílio voluntário de cerca de 16 anos na Argélia onde morrerá, sabendo que a ditadura vinha a caminho. Os seus movimentos viajantes e migratórios vão do Atlântico ao Mediterrâneo. Fazem parte integrante de um ADN algarvio e português de comércio e guerras na ligação entre Europa e África. A História tem a sua força.
É um dizer que se replica na estátua do próximo governante recuado no tempo, Sebastião I em Lagos. De 1973 pela arte de João Cutileiro, retrata um Rei-menino com olhos salientes, assustado, frágil, com luvas e capacete de guerra, prostrado no chão, demasiado pesado para a sua condição física e maturidade. O desfecho militar será previsível.
Lagos foi sede de um governo militar no Algarve dos séculos XV ao XVIII. Sebastião elevá-la-ia a cidade em 1573. Para além dos Descobrimentos e do Infante Henrique, a cidade tem significado geopolítico ligado às expedições militares ao Norte de África, projeto de expansão político-militar e religioso de Portugal projetada no Reino dos Algarves de Aquém e Além-Mar, substitutiva da expressão Império que os reis portugueses nunca quiseram adotar.
O olhar de Sebastião I direciona-se para a Rua e Largo das Portas de Portugal. Toponímias que a cidade conserva daquele Reino. Alusão provável a uma metrópole da qual o rei imperial não deveria ter saído. A incapacidade de gerir bem as periferias coloniais em Alcácer Quibir deu azo a que a soberania portuguesa naufragasse dois anos depois com a União Ibérica. Tal repetir-se-ia, com uma mudança de regime político, um ano após a inauguração da estátua do rei militar vencido. O 25 de Abril poria termo a outra guerra colonial inglória. A História tem destas homologias!…

A estátua de Afonso III implanta-se no centro histórico de Faro. Assume-se a importância militar da conquista da cidade aos mouros em 1249. Mas o seu grande legado reside no Tratado de Badajoz, de 1267, celebrado com o Rei de Castela Afonso X que renunciou aos direitos de conquista no Algarve português (existindo um prévio Emirado do Algarve também em parte da Andaluzia) e cedeu-os ao filho de Afonso, Dinis, quando perfizesse sete anos. Nascia o Reino do Algarve português.
O rei tem a coroa na cabeça, ou seja, em pose cerimonial. Mas o elemento mais importante é a entrega, a outorga de uma espécie de espada-ceptro que a mão do rei sinaliza. Este é o elemento simbólico de prolongamento do braço do rei, manifestando poder e autoridade, mas também, na tradição grega, o direito de administrar a justiça.
Administração e justiça dão mãos no mundo medieval. A mão não demonstra belicosidade, mas antes positividade, construção, restauração de uma ordem, com sentido de paz, equilíbrio e concórdia entre um passado muçulmano e um futuro cristão sob a égide do Reino do Algarve.
A estátua do rei Afonso III, em Faro, capital da região, mais que um sentido local, é transversal e regional, sendo magnânima em dignificação da história política e militar dos Reinos de Portugal e do Algarve. Houve conquista, glória e sacrifício, mas também concórdia, harmonia e paz. O ceptro em sinal de entrega será representativo de uma identidade geopolítica justaposta, de justificação de soberania pela honra, de convergência institucional pela justiça, de um desígnio de consensos.
Por sua vez, a de Sancho I em Silves, a última desta viagem, tem um sentido inverso, militar, proclamatório. O rei não tem coroa. De porte pronunciado, exalta a força guerreira do rei e militar cristã. Homenageia a conquista da cidade em 1189. Num tempo em que a Terceira Cruzada internacional daria forte apoio.

O guarda-mão da espada com maior ângulo, a cota de malha e a proteção dos pés representarão vantagens tecnológicas do sucesso. Mas o êxito foi fugaz. A cidade seria reconquistada pelos Almóadas dois anos depois. Ainda assim, o rei intitulou-se Rei de Portugal, de Silves e do Algarve em édito diplomado que é portador na sua mão esquerda.
Reino do Algarve, porquê? Pelo valor da localização favorável em comércio e transporte marítimo na ligação com portos da Andaluzia, Gibraltar, Norte de África e Europa. Ventos, água potável e madeira próximas para navegação. Conexão, interstício, movimento, relação, transnacionalidade numa travelling theory, justificarão respostas.
A coerência geopolítica do Algarve é única, justificativa das explicações da estatuária de poder na região, para além de uma dimensão local. Geopolítica pela sua inserção num constante criticismo transnacional explicativo do passado e do qual o seu futuro dependerá. Primor, laboratório, ensaio que o Portugal turístico e político deverá sempre tomar boa nota.
Virgílio Machado, autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e Portugal Geopolítico” (http:reinosdoalgarve.com).
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