A magnífica obra Castelos, Fortalezas e Torres do Algarve de Valdemar Coutinho inspira. O Algarve tem uma especificidade e unidade militar por explicar. Afinal, um Reino Fronteira teve de ser robusto face às ameaças de Castela ou do Islão. O que espera o Algarve para alavancar um turismo militar? A sua condição de Reino-Fronteira desde o século XIII até à República não tem equivalente na Europa.
Irei mais longe na História de Guerra e Paz deste território. A observação estrutural histórica e leituras holísticas mundiais são o caminho desta viagem milenar. O mar é fundamento: recurso privilegiado no transporte pode, além de importar produtos e tecnologias, confrontar ideias e ameaças. Os militares protegeram o comércio e uma ordem política. Antes, serranias e altos alcantilados de colinas e falésias contextualizavam o histórico de segurança da população.
Harvey Whitehouse em a Herança – A Origem evolutiva do mundo moderno ensina. Um dos maiores impulsionadores do desenvolvimento das sociedades foram as evoluções tecnológicas militares. A utilização do bronze no armamento pela sua resistência, durabilidade e facilidade de fundição terá contexto algarvio. A agricultura, pela carência de cereais e solo arável, não será seu marco. Mas, antes, a exposição ao comércio, favorável na paz e adverso na guerra.

“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”
A impactante obra 1177 a.C. – O ano em que a civilização colapsou de Eric Cline explica uma importante reconfiguração da Idade do Bronze deslocada do Próximo Oriente e Sudeste mediterrâneo para o Atlântico. Utiliza-se a designação geopolítica do Algarve como portal de um arco atlântico que se estende por mar até à Escandinávia, com raízes numa cultura megalítica.
A presença maciça de estanho e cobre, misturas necessárias ao bronze, no Sudoeste Peninsular transformariam o Algarve e o Guadiana, numa via de suporte comercial e militar. E de seu acesso para defesa militar e meio de pagamento. Atesta-o a descoberta, em Huelva, 1923, do maior tesouro submarino jamais encontrado deste metal. O complexo militar-comercial do bronze navegava aqui com intensidade.

O Algarve regista traços fundamentais desse desenvolvimento institucional. Os cónios foram um povo de raízes indo-europeias ou celtas que introduziram um tipo de escrita pioneiro no extremo Sudoeste Peninsular. As casas circulares com muros de pedra, os moinhos de vento no Nordeste algarvio são vestígios de uma cultura atlântica de castros e aproveitamento local de energia marcadas por uma perceção de insegurança, mas também por um forte sentimento de demarcação, de luta e fixação de residência num determinado lugar.
A utilização da pedra e metais como vantagem tecnológica militar continuariam. De Alcoutim a Aljezur, castelos em rocha dura marcam uma linha longitudinal de segurança militar, paralela ao mar, fonte dos perigos que fez colapsar a civilização de Cline. E que instituiria a rede de atalaias, torres, fortins, fortes, castelos e fortalezas para segurança sempre que existissem convulsões militares, saques, corsos e captura de escravos. Os presuntivos sete castelos tomados aos mouros ao Algarve como arco das quinas na bandeira nacional fazem parte deste ADN histórico-militar.
O Algarve, saliente-se, foi palco de uma árdua disputa política e militar entre os reis de Castela e Portugal terminada com o Tratado de Badajoz (1267). Antes, teve manifestações de rebeldia militar nos tempos islâmicos. Com as revoltas do malogrado Ibn Amar em Silves (1085) contra Sevilha e do sufista Ibn Qasi em 1144 contra os Almorávidas. Mais tarde, o governo militar de armas instituído no Algarve desde o século XVI ao XIX seria instituição única no quadro peninsular.
Atalaias de Alfanxia, Torrejão, Torres de Marim, Quatrim, Amoreira, Bias e Atalaia no Sotavento Algarvio, a par dos castelos de Silves, Lagos e fortaleza de Sagres, são património militar algarvio de marcos, construções e matrizes de uma identidade geopolítica do arco atlântico. Com fricção permanente com o Mediterrâneo, enquanto o Reino do Algarve de Além-Mar teve presença no Norte de África até 1769 em Mazagão. As lutas liberais do século XIX tiveram aqui particular intensidade. A história do Remexido confirma-o.

Outra observação a não perder nesta história de dignidade, é a habilidade dos antigos caldeireiros que, trabalhando o cobre e estanho, antigos ingredientes militares, nos legaram as famosas cataplanas que fazem as delícias gastronómicas dos amantes de peixe e marisco na região. Loulé em destaque.
Da placidez do Guadiana aos ventos fortes do Cabo de São Vicente, do Barranco do Velho às altaneiras vigias de Monchique, inspiram-se imaginários de posições defensivas em valas ou promontórios de socalcos que marcam fronteiras de segurança, vigilância e firme determinação em lutar por uma casa, uma aldeia, uma comunidade partilhada por ameaças perante a inevitabilidade das guerras. O Algarve ganhou o seu prestígio em resiliência militar e é prestigiante ser ensinada a sua História na importância fundamental da Paz para sua atual maioritária industria-o turismo.
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