Na manhã de 5 de outubro de 1910, o Algarve continuava exatamente no mesmo lugar. A serra não se movera, o Atlântico continuava a bater na mesma costa, os pescadores saíam para o mar, os trabalhadores regressavam às fábricas e oficinas, os campos aguardavam os mesmos braços e as cidades conservavam as ruas, as casas e as memórias do dia anterior. E, no entanto, alguma coisa desaparecera. Pela primeira vez em séculos, deixava de existir um Rei de Portugal e dos Algarves.
Não desaparecera um país. O Algarve não era, à entrada do século XX, um Estado independente, nem possuía uma soberania separada da portuguesa. Mas seria igualmente redutor considerar vazia uma designação repetida durante centenas de anos e inscrita na própria representação do território. Ainda em 1826, quando a Carta Constitucional procurava definir juridicamente uma monarquia liberal, enumerava as províncias do território europeu e conservava, a Sul, uma designação singular: o «Reino do Algarve». A mesma Carta mantinha na titulatura régia o Rei de Portugal e dos Algarves.
As palavras importam. Sobretudo quando são repetidas durante séculos.

Muito antes disso, aquele Sul fora al-Gharb, o Ocidente do mundo islâmico peninsular, numa extensão que não correspondeu sempre ao Algarve atual. A conquista cristã não encontrou uma página em branco. Encontrou cidades, comunidades, campos, sistemas de exploração da água, redes comerciais, crenças, saberes e memórias. A integração definitiva na Coroa portuguesa, no século XIII, alterou poderes e estruturas, mas não eliminou a individualização do território. Ela sobreviveria, sob diferentes formas, durante séculos.
Este é um dos ensinamentos que a Arqueologia pode oferecer à História. Um novo estrato não apaga necessariamente aquele sobre o qual se deposita. Pode cortá-lo, transformá-lo, reutilizá-lo ou escondê-lo, mas alguma coisa permanece. Também as sociedades são feitas de sobreposições. Os regimes podem mudar num dia. As pessoas e as suas formas de compreender o mundo, raramente.
Para quem trabalha em Arqueologia, 1910 parece quase ontem. Não raras vezes, encontro em contexto arqueológico moedas dos finais da Monarquia ou dos primeiros anos da República. Quando estamos habituados a lidar com vestígios separados de nós por séculos ou milénios, estes objetos parecem estar quase ao virar da esquina. E, no entanto, passaram já 116 anos desde o 5 de Outubro. A moeda permanece; a mão que a segurou, o bolso onde foi transportada, o gesto que a perdeu e o pensamento de quem a possuía desapareceram.
Talvez sejam precisamente estes vestígios de um passado tão próximo que melhor nos recordem a rapidez com que o presente se transforma em património. Podemos identificar uma moeda, datá-la e interpretar o contexto em que surgiu. Muito mais difícil é recuperar aquilo que o objeto não conserva: o que pensava aquela pessoa, aquilo em que acreditava, o que receava ou esperava de um mundo que estava a mudar à sua volta.
É por isso que talvez possamos falar, num sentido necessariamente mais amplo, de uma arqueologia das mentes e do sentir. Estamos habituados a reconhecer o património numa muralha, numa igreja, numa fortificação, numa cerâmica, numa moeda ou numa sepultura. Mas as comunidades deixam outros vestígios: palavras, medos, expectativas, tradições, memórias, formas de pertença e maneiras de imaginar o lugar onde vivem. Nem todo o património cabe numa vitrina e nem toda a Arqueologia se faz no solo.
Isto não significa imaginar uma identidade algarvia imutável desde a Idade Média, muito menos atribuir aos homens e mulheres do passado, sentimentos que não documentaram. Significa procurar indícios da forma como um território foi sendo vivido e representado. E, no Algarve, a própria geografia acrescentava uma camada particular. A serra dificultou durante muito tempo as comunicações terrestres com o restante país, enquanto o mar, aparentemente uma fronteira, era também uma abertura. Visto de Lisboa, o Algarve podia parecer distante. Visto dos seus portos, encontrava-se ligado a outras rotas, pessoas e mercadorias.
Periferia de onde?
A pergunta merece ficar suspensa porque o século XIX estava precisamente a transformar as distâncias e as pertenças. O Liberalismo modificou instituições e formas de administração; estradas e caminho de ferro aproximaram progressivamente territórios; os jornais multiplicaram-se; associações e centros políticos criaram novos espaços de sociabilidade. A alfabetização continuava muito limitada, sobretudo no mundo rural, mas a palavra escrita adquiria uma importância política crescente. E foi neste Algarve, longe de estar adormecido à espera das notícias da capital, que começou a circular com insistência outra palavra.
República.
Muito antes de ser um regime, a República foi uma possibilidade. Foi impressa nos jornais, pronunciada em comícios, discutida em centros políticos, associações e cafés, ensinada, desejada e combatida. E não significava necessariamente a mesma coisa para todos.
Nas últimas décadas do século XIX, encontramos organização republicana em diferentes pontos da região. Lagos foi precoce na imprensa e na propaganda republicanas; Faro ganhou crescente importância política e jornalística; Tavira, Loulé, Olhão e Silves tiveram centros, jornais ou estruturas ligadas ao movimento. E as ideias não ficaram fechadas nas cidades. Em 1884, depois de uma passagem pelo Algarve de destacados dirigentes republicanos, as próprias autoridades monárquicas reconheciam com inquietação que já se falava de República nas povoações, no campo e até na serra.
A frase é extraordinária porque nos permite ver uma ideia em movimento.
Mas que República chegava à serra? Seria certamente diferente daquela que se discutia entre jornalistas e advogados de Faro ou nos centros republicanos de Lagos. Para alguns, República significava regeneração nacional, educação, progresso e ciência. Para outros podia significar menos impostos, alterações no recrutamento militar ou uma transformação social muito mais profunda. Para trabalhadores submetidos a longas jornadas e salários reduzidos, a promessa de mudança política podia facilmente confundir-se com a esperança de uma vida diferente.
Antes de existir uma República real, existiram muitas Repúblicas imaginadas.
E existiam muitos Algarves dentro do Algarve.
Havia o Algarve marítimo dos pescadores, marítimos e comerciantes; o Algarve industrial e operário da cortiça, das conservas, dos portos e oficinas; o Algarve rural, onde as ideias políticas circulavam por vias que nem sempre deixaram a mesma abundância de documentos; o Algarve dos proprietários e das profissões liberais; o dos professores, funcionários, militares e pequenos comerciantes. Havia também um Algarve profundamente católico, para o qual o anticlericalismo republicano podia representar uma ameaça, e outro que via precisamente no combate à influência da Igreja uma condição de modernização.
E havia as mulheres.
A República falava de cidadania e de igualdade num país em que metade da população continuava afastada da cidadania política plena. É neste paradoxo que uma algarvia como Maria Veleda, nascida em Faro em 1871, adquire particular significado. Professora, escritora, republicana e feminista, fez da educação e da emancipação feminina parte do seu combate. A sua presença impede-nos de contar a implantação da República apenas através dos homens que conspiraram, votaram ou ocuparam cargos. Obriga-nos a perguntar quem cabia, afinal, dentro da palavra «cidadão».
Também o mundo do trabalho obrigaria a República a confrontar-se rapidamente com as expectativas que ajudara a despertar. O associativismo operário atravessava vários pontos da região, das áreas corticeiras e industriais às comunidades portuárias e piscatórias. A República que um proprietário imaginava não era necessariamente a República esperada pelo homem que entrava numa fábrica antes de nascer o Sol.
É justamente por isso que um pequeno episódio de São Bartolomeu de Messines vale mais do que uma longa história local. Em outubro de 1910, o entusiasmo foi registado numa frase repetida nas ruas: «Até que enfim». A alegria era descrita como espontânea, própria de quem acreditava assistir ao nascimento de um tempo novo. Pouco depois, porém, a imprensa operária local denunciava condições duríssimas entre os trabalhadores corticeiros.
A Monarquia tinha acabado. A exploração não.
Entre essas duas realidades começa a distância entre a República imaginada e a República vivida.
Mas ainda não chegámos lá. Nos primeiros anos do século XX, a possibilidade continuava em aberto. O republicanismo disputava eleições, criava estruturas, promovia educação e utilizava a imprensa como arma política. As redes estendiam-se pela região e cruzavam grupos sociais diferentes. Republicanismo, movimento operário, livre-pensamento, associativismo e Maçonaria encontravam-se por vezes nas mesmas pessoas e espaços, embora não fossem, e não devam ser tratados como, uma única realidade.
E o Algarve não se limitava a receber ideias produzidas em Lisboa. Também fornecia protagonistas aos acontecimentos nacionais.
Um deles nasceu em Loulé, em 1883. José Mendes Cabeçadas Júnior, oficial da Marinha, participou na preparação da revolução e, na madrugada de 4 de outubro de 1910, esteve diretamente envolvido na sublevação do cruzador Adamastor. O navio participou nas operações militares que contribuíram para a queda da Monarquia.
A imagem tem uma força particular: enquanto um algarvio participava em Lisboa na revolução que derrubava a Monarquia, milhares de pessoas no Algarve esperavam notícias para saber se ela tinha realmente caído.
Cabeçadas não representa o Algarve, tal como Maria Veleda não representa todas as mulheres algarvias e os corticeiros de Messines não representam todos os trabalhadores do Sul. São janelas. Permitem-nos observar diferentes lugares de uma sociedade confrontada com a mesma mudança histórica.
Quando chegou o 5 de Outubro, a República não encontrou, portanto, uma região silenciosa.
Em Faro, Lagos, Loulé, Olhão, Silves, Tavira, Portimão ou Vila Real de Santo António, a mudança foi recebida por sociedades que já conheciam o debate político, ainda que de formas e intensidades diferentes. No interior e na serra, onde a documentação é menos generosa, viviam milhares de pessoas cuja experiência da mudança não pode simplesmente ser confundida com a das elites urbanas. Uns celebraram. Outros recearam. Muitos terão continuado a trabalhar.
E talvez seja essa a imagem que mais facilmente esquecemos quando comemoramos revoluções: no dia seguinte, é preciso voltar a viver.
A nova ordem precisava, porém, de tornar-se visível. Caíram símbolos da Monarquia, hastearam-se novas bandeiras e alteraram-se nomes de ruas e largos. Em São Bartolomeu de Messines, por exemplo, surgiram a Rua da Liberdade, o Largo da República e as ruas Cândido dos Reis e Miguel Bombarda. A transformação política inscrevia-se na paisagem. Aquilo que hoje tratamos como património começou, em alguns casos, por ser um gesto revolucionário.
E começava finalmente a experiência mais difícil: transformar uma promessa num regime.
Os professores que tinham defendido a instrução continuavam a encontrar um país marcado pelo analfabetismo. As mulheres que tinham participado na causa republicana descobriram rapidamente os limites da igualdade proclamada. Os trabalhadores que tinham associado a mudança política à emancipação social confrontaram-se com conflitos laborais e, posteriormente, com repressão. Os católicos enfrentaram uma República cuja política religiosa abriria profundas fraturas. A unanimidade que tantas comemorações posteriores parecem sugerir nunca existiu.
Em Messines, o contraste torna-se quase simbólico. Em 1910 ouvira-se «Até que enfim». Em 1913, sindicalistas da localidade já eram alvo de buscas policiais. Em 1918, nas eleições realizadas durante o sidonismo, não chegou a constituir-se ali uma mesa por falta de eleitores, num contexto de enorme abstenção no concelho de Silves.
Tinham passado menos de oito anos.
Entre três palavras pronunciadas com esperança e uma mesa eleitoral vazia cabe uma parte importante da história da Primeira República.
Mas também não seria justo reduzir essa história à desilusão. A República abriu e ampliou espaços de participação, educação, associativismo e debate. A região continuou a interrogar-se sobre o seu próprio desenvolvimento e sobre a relação com o poder central. E aqui reaparece, já sob outra forma, uma questão muito antiga.
O rei dos Algarves desaparecera. O Algarve, evidentemente, não.
Figuras como Tomás Cabreira pensariam o desenvolvimento regional, o turismo e a autonomia administrativa algarvia dentro da própria ordem republicana. Não significa que o regionalismo do século XX seja uma simples continuação do antigo Reino — estabelecer essa linha direta seria historicamente abusivo. Significa algo mais interessante: a mudança de regime não eliminou a necessidade de pensar o lugar do Algarve dentro de Portugal.
Talvez seja aqui que possamos regressar à manhã de 5 de outubro de 1910.
Os regimes mudam mais depressa do que as pessoas. Também os símbolos desaparecem mais depressa do que as memórias. A Arqueologia ensina-nos a desconfiar das superfícies demasiado limpas: por baixo delas existem estratos, cortes, reutilizações e sobrevivências. Com as sociedades acontece algo semelhante.
O património de uma revolução não é apenas a bandeira que se hasteou, o monumento que se ergueu, o nome que se deu a uma rua ou o objeto que chegou a um museu. Está também nas palavras que passaram a ser possíveis, nas expectativas que nasceram, nas desilusões que se seguiram e nas maneiras de imaginar a cidadania, a liberdade e a pertença.
Talvez a Arqueologia mais difícil seja precisamente aquela que não se escava com uma colher. É a arqueologia das ideias que herdámos sem sabermos exatamente de onde vieram, das pertenças que sentimos sem conseguirmos datá-las e das memórias que sobrevivem muito depois de terem desaparecido os símbolos que lhes deram nome.
Na manhã de 5 de outubro de 1910 deixou de haver um Rei de Portugal e dos Algarves.
O Sul, esse, continuou a fazer a sua História.
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