Atualmente, o trabalho já é reconhecido como um determinante fundamental da saúde individual, familiar e até mesmo da comunidade. Assim, e numa perspetiva de saúde pública, torna-se essencial proteger a saúde e segurança dos trabalhadores ao longo de todo o seu percurso profissional, tentando diminuir ou mesmo eliminar os riscos a que são sujeitos diariamente1.
Todos nós trabalhamos, mas nem todos estamos expostos aos mesmo riscos profissionais, pois estes variam conforme a atividade. Um trabalhador que passa o dia diante de um computador enfrenta desafios diferentes de quem trabalha com máquinas ou permanece muitas horas de pé ou no exterior. Por isso, conhecer os riscos profissionais associados à própria atividade é um dos primeiros passos para proteger a sua saúde.
1. Trabalha o dia inteiro de pé na mesma posição?
A permanência prolongada na posição de pé pode comprometer o retorno venoso e aumentar a sobrecarga muscular, favorecendo o aparecimento de fadiga e desconforto musculoesquelético, nomeadamente nas pernas, costas, pescoço e pés. Permanecer de pé durante períodos prolongados torna-se um risco particularmente relevante principalmente quando não dispõe de condições que permitam alternar regularmente entre diferentes posturas2.
Recomendações:
Sempre que a atividade profissional o permita, deve-se avaliar se a permanência prolongada em pé é realmente indispensável à atividade, procurando adaptar o posto de trabalho de forma a possibilitar a alternância entre a posição de pé, sentado e em movimento. Quando a permanência em pé não puder ser evitada, existem várias medidas que podem ser adotadas nomeadamente a utilização de tapetes anti-fadiga uma vez que estimula movimento sutil dos músculos das pernas, facilitando assim a adequada circulação venosa. O calçado também tem que se pensado, pois o mesmo tem que ser confortável, ter espaço suficiente para mover os dedos dos pés e ter a possibilidade de colocar palminhas acolchoadas. Neste tipo de atividades torna-se fundamental a realização de pausas ao longo do dia, estando comprovado que têm mais eficácia várias “micro” pausas em vez de uma única pausa mais duradoura. Nestes pequenos intervalos é aconselhado fazer alongamentos. Caso não seja possível opte por uma pequena caminhada na hora do almoço, para devolver a movimentação dos músculos das pernas e consequentemente estimular o aumento do fluxo sanguineo2
2. Trabalha sentado e em frente ao ecrã?
Permanecer na posição de sentado durante o trabalho e associar a utilização de monitores pode provocar uma contração continua da musculatura cervical, levando a um aumento da tensão e a sobrecarga muscular, consequentemente originar dor e desconforto no pescoço, costas e membros superiores. Paralelamente, verifica-se que a utilização repetitiva do teclado e do rato pode igualmente sobrecarregar os ombros, antebraços e punhos, aumentando o risco de lesões musculoesqueléticas.
Quando é associado um mobiliário inadequado ou pouco ajustável, o trabalhador é obrigado a adotar posturas compensatórias por falta de alternativas3.
Recomendações:
O monitor deve ser colocado à frente do trabalhador, aproximadamente ao nível dos olhos e sem reflexos, desta forma é evitado rotações ou inclinações prolongadas do pescoço e do tronco.
O rato e o teclado devem permitir que os punhos e os ombros mantenham uma posição descontraída, recomendando-se assim a utilização de tapetes de rato com apoio de pulso e adoção uma posição onde o cotovelo fique apoiado na mesa ou no braço da cadeira.
A cadeira deve permitir ajustar a altura, proporcionar apoio adequado às costas e possibilitar a regulação dos apoios de braços, podendo ainda, associar um apoio para os pés para favorecer uma posição confortável dos membros inferiores e facilitar na troca de posição das pernas para melhorar o retorno venoso.
Como na permanência estática de pé é igualmente recomendado realizar pequenas pausas, mas aqui o importante será levantar-se, caminhar e realizar movimentos e/ou alongamentos de forma a reduzir a fadiga e o desconforto associados à permanência prolongada na mesma postura3.
3. Trabalha em espaços exteriores?
Os trabalhadores que desenvolvem atividades no exterior podem estar expostos a condições ambientais que constituem riscos importantes para a saúde. Entre elas encontram-se temperaturas elevadas, exposição à radiação solar, frio, calor, desidratação4.
Durante períodos de calor intenso a exposição ao calor pode provocar desidratação, cãibras, síncope, exaustão pelo calor e, nos casos mais graves, pode ser potencialmente fatal4. Por outro lado, a exposição prolongada a baixas temperaturas pode provocar redução da destreza manual e da capacidade de concentração, fadiga, dor nas extremidades, alterações da circulação periférica e agravamento de problemas musculoesqueléticos, podendo, em situações de exposição intensa, conduzir a lesões provocadas pelo frio ou hipotermia5.
Hoje sabe-se ainda que não perdemos líquidos apenas através da transpiração aquando muito calor. Em situações de frio intenso a nossa circulação aumenta na região central do nosso corpo e consequentemente pode ocorrer um aumento de produção de urina, mesmo sem aumentar a ingestão de água6.
Recomendações:
Durante o calor o trabalhador deve sempre ter água consigo e beber de 20 em 20 minutos mesmo que não haja sede, isto fará com que se previna a desidratação. A roupa deve ser leve e confortável e o protetor solar deve ser aplicado várias vezes ao dia, assim consegue prevenir as queimaduras da radiação solar. E Sempre que possível deve se aproveitar as pausas para arrefecer em locais mais frescos4.
Durante o frio extremo é indispensável garantindo pausas regulares em locais protegidos e aquecidos, utilizar vestuário adequado, preferencialmente em várias camadas e utilizar luvas, proteção da cabeça e calçado adequado, assim consegue-se manter a temperatura corporal e proteger as extremidades. Deve ainda assegurar uma hidratação regular, preferencialmente com líquidos quentes, mesmo quando a sensação de sede é reduzida5.
4. Trabalha num local com muito ruído?
O ruído é um dos riscos físicos mais relevantes em diversos ambientes de trabalho, nomeadamente em atividades industriais, construção, oficinas e agricultura devido a utilização de máquinas muito ruidosas.
A exposição a níveis elevados de ruído pode provocar alterações auditivas temporárias ou permanentes. Mesmo níveis inferiores aos associados ao risco de perda auditiva podem causar incómodo, perturbar o sono e contribuir para o aumento do stress.
Recomendações:
Sempre que possível deve-se redução a exposição ao ruído na origem, através da escolha e manutenção adequada dos equipamentos, pois por vezes estamos expostos ao ruido desnecessariamente.
As medidas individuais de proteção, nomeadamente os aucutadores/abafadores devem ser sempre utilizados quando expostos ao ruido8.
O trabalhador deve estar atento a sinais como zumbidos, sensação de ouvido tapado ou dificuldade em compreender a fala, sobretudo quando surgem após períodos de exposição ao ruído. Estes sinais não devem ser desvalorizados e deve falar com o seu medico e enfermeiro do trabalho.
5. Trabalha a carregar pesos?
A movimentação manual de cargas é uma fonte importante de sobrecarga física e associado ao peso das cargas a manipular, existem outros fatores que agravam este risco, tais como a distribuição desigual do peso, a dificuldade em agarrar a carga, a dificuldade para mover a carga, a frequência e duração do movimento, entre outros9.
Recomendações:
Antes de proceder à movimentação manual de uma carga, deve avaliar sempre se há possibilidade de utilizar equipamentos ou meios mecânicos que facilitem essa tarefa. Quando a movimentação manual é inevitável, devem ser adotadas técnicas adequadas para reduzir o esforço e prevenir lesões, mantendo as costas direitas, aproximando a carga o máximo possível do corpo e utilizando principalmente a força dos membros inferiores. A carga deve ser movimentada, sempre que possível, com os braços estendidos e aproveitando o peso do próprio corpo para puxar ou empurrar. Sempre que possível verifique se pode pedir ajuda de colegas para dividir o peso9.
6. Nem todos os riscos no trabalho se veem: atenção à saúde mental
Nem todos os riscos profissionais são visíveis. A forma como o trabalho é organizado, a intensidade e volume das tarefas, os horários, a pressão, o grau de autonomia, os conflitos e a qualidade das relações no local de trabalho são alguns dos fatores que podem afetar o bem-estar e a saúde mental dos trabalhadores.
O Stress relacionado com o trabalho, ansiedade, alterações do sono, irritabilidade, dificuldade em manter a concentração, cansaço persistente ou sensação de esgotamento não devem ser encarados como algo normal ou inevitável. Estes sinais podem indicar que as condições em que o trabalho é desenvolvido precisam de ser avaliadas e que podem ser necessárias medidas de prevenção e intervenção adequadas10.
Recomendaçoes:
Se sentir que o trabalho está a afetar a sua saúde mental, não ignore esses sinais. Fale com o médico ou enfermeiro do trabalho, que poderá ajudar a avaliar a situação e, em articulação com os restantes responsáveis pela saúde e segurança no trabalho, identificam medidas adequadas para reduzir ou controlar os fatores de risco.
A prevenção começa pelo conhecimento
Proteger a saúde no trabalho não significa apenas evitar acidentes. Significa também prevenir doenças, reduzir exposições, adaptar o trabalho às pessoas e promover ambientes de trabalho física e psicologicamente saudáveis.
O trabalhador tem um papel importante na prevenção, mas a responsabilidade não é exclusivamente sua. A prevenção eficaz depende da identificação e avaliação dos riscos, da organização do trabalho, das condições proporcionadas pelo empregador, da participação dos trabalhadores e da atuação dos serviços de Segurança e Saúde no Trabalho
Conhecer os riscos é o primeiro passo. Preveni-los é uma responsabilidade de todos.
Referências bibliográficas
1. Ministério da Saúde. Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Saúde Ocupacional 2030: Saúde Ocupacional: valor que transforma a sociedade [Internet]. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2026 [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://www.dgs.pt/saude-ocupacional/documentos-so/pnsoc-2030_consulta-publica-pdf.aspx
2. European Agency for Safety and Health at Work. Musculoskeletal disorders and prolonged static standing [Internet]. Bilbao: EU-OSHA; 2020 [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://oshwiki.osha.europa.eu/en/themes/musculoskeletal-disorders-and-prolonged-static-standing
3. European Agency for Safety and Health at Work. Musculoskeletal disorders in visual display unit (VDU) tasks [Internet]. Bilbao: EU-OSHA; 2020 [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://oshwiki.osha.europa.eu/en/themes/musculoskeletal-disorders-visual-display-unit-vdu-tasks
4. Direção-Geral da Saúde. Proteção dos trabalhadores expostos a temperaturas elevadas e ondas de calor: recomendações para as empresas [Internet]. Lisboa: DGS; 2026 [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://portal.act.gov.pt/AnexosPDF/Dossiers%20tem%C3%A1ticos/AlteracoesClimaticas-Calor%E2%80%8B/dgs-recomendacoes-de-protecao-dos-trabalhadores-expostos-a-temperaturas-elevadas.pdf
5. Clínica Vera Cruz. Exposição a condições climáticas extremas: frio – riscos e medidas de proteção [Internet]. [local desconhecido]: Clínica Vera Cruz; 2025 [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://clinicaveracruz.pt/trabalho-frio-riscos-e-medidas-de-protecao/
6. Tetzlaff EJ, Hancock C, Waddell L, Gagnon SS, Mäkelä KA, Karhu T, et al. Cold exposure and human metabolism: a heterogeneous response across tissues and organs. Temperature (Austin). 2026;13(1):15-50. doi:10.1080/23328940.2025.2599582.
7. World Health Organization. Occupational hazards in the health sector: risks in ambient work environment [Internet]. Geneva: WHO; [data desconhecida] [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://www.who.int/tools/occupational-hazards-in-health-sector/risks-in-ambient-work-environment
8. International Labour Organization. Protection of workers against noise and vibration in the working environment: code of practice. Geneva: ILO; 1984. ISBN 92-2-101709-5.
9. Autoridade para as Condições do Trabalho. Guia prático: movimentação manual de cargas [Internet]. Lisboa: ACT; 2018 [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://portal.act.gov.pt/AnexosPDF/Documenta%C3%A7%C3%A3o/Publica%C3%A7%C3%B5es/Constru%C3%A7%C3%A3o/GUIA%20PRATICO_MMC_20180327.pdf
10. International Labour Organization. Psychosocial risks and stress at work [Internet]. Geneva: ILO; 2022 [citado 2026 set 12]. Disponível em: https://www.ilo.org/resource/psychosocial-risks-and-stress-work
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