O sistema imunitário envelhece. Pelo menos, é assim que costumamos contar a história. Com a idade, responde pior às infecções e às vacinas, torna-se menos eficiente e, ao mesmo tempo, mais propenso à inflamação. Seria portanto razoável imaginar que, aos 110 anos, restasse sobretudo uma versão cansada do sistema imunitário que tivemos aos 30.
Mas os supercentenários (pessoas com mais de 110 anos) parecem contar uma história diferente.
Há alguns anos, investigadores japoneses descobriram que pessoas com mais de 110 anos tinham uma quantidade invulgar de um tipo raro de células imunitárias: Os linfócitos T CD4 citotóxicos.
O nome é pouco simpático, mas a sua função é relativamente simples de descrever. Os linfócitos T CD4 são habitualmente conhecidos por coordenarem outras células do sistema imunitário, porém aqueles que são citotóxicos, tal como o nome indica, possuem também a capacidade para matar directamente células consideradas perigosas para o organismo.
Um novo estudo, publicado na revista Cell Reports, tentou perceber como aparecem estas células ao longo do envelhecimento, e os números encontrados ajudam a perceber a dimensão desta mudança.

Nos 28 participantes estudados, estas células representavam, em mediana, apenas 4% dos linfócitos T entre os 70 e os 99 anos. Entre os 100 e os 109 anos, a proporção subia para 9,6% e, nos supercentenários com 110 anos ou mais, chegava aos 17,6% (mais de quatro vezes o valor do grupo mais jovem). E não era apenas uma questão de haver mais células: muitas eram cópias (ou clones) umas das outras. O clone mais abundante representava, em média, um terço de todos os linfócitos T CD4 citotóxicos e, num dos centenários, uma única “família” de células correspondia a 53,8% do total. É difícil imaginar um sinal mais claro de que aquelas células tinham encontrado alguma coisa que as fizera multiplicar-se repetidamente.
Surge então uma pergunta óbvia: O que estão elas a combater?
A resposta mais honesta é: Ainda não sabemos com detalhe.
Algumas das suas características genéticas são semelhantes às encontradas em células T que se expandem dentro de tumores (sobretudo no cancro do pulmão). Isto levanta uma hipótese particularmente interessante: Talvez estas células ajudem os supercentenários a eliminar células cancerígenas antes de elas conseguirem formar um tumor.
Mas convém não transformar uma hipótese num facto. O estudo não demonstrou que estas células estejam a matar células cancerígenas. Nem sequer sabemos ainda quais são os seus verdadeiros alvos. Podem estar a responder a vírus persistentes, a células envelhecidas ou a outras alterações que se acumulam ao longo de uma vida excepcionalmente longa.
Ainda assim, há algo de profundamente fascinante e optimista nesta descoberta.
Falamos quase sempre do envelhecimento como uma história de perda. Perdemos músculo, visão, audição, capacidade de regeneração, memória, eficiência imunitária. Mas talvez, pelo menos em algumas pessoas, o organismo não passe apenas um século a perder. Também continua a crescer e a adaptar-se.
Talvez chegar aos 110 anos não dependa apenas de conservar durante mais tempo as defesas da juventude. Talvez dependa também da capacidade de construir novas defesas contra problemas que só aparecem depois de termos vivido durante um século.
Citações:
Hashimoto, K. et al. CD4 CTLs in supercentenarians: Signs of adaptive expansion in healthy aging. Cell Reports (2026). https://doi.org/10.1016/j.celrep.2026.117728
Bourzac, K. How do people live beyond 110? Abundance of cancer-killing cells might be key. Nature (2026). https://doi.org/10.1038/d41586-026-02587-1
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