A minha primeira crónica de divulgação científica, publicada em Maio de 2026, foi sobre a doença de Alzheimer e uma pergunta aparentemente simples: Afinal, o que queremos dizer quando dizemos que alguém tem uma doença?
Nessa altura, usei o cancro como comparação. Podemos detectar um tumor antes de existirem sintomas e, ainda assim, dizer que a pessoa tem cancro. Na doença de Alzheimer, podemos encontrar alterações características no cérebro muitos anos antes da demência, sem sabermos se ela alguma vez chegará a desenvolver-se.
Há, porém, outra ligação entre estas duas doenças que não referi nessa altura. E é bastante mais peculiar.

Há décadas que vários estudos sugerem que o cancro e a doença de Alzheimer parecem evitar-se mutuamente. Pessoas que tiveram cancro apresentam, em média, menor probabilidade de desenvolver Alzheimer. Uma meta-análise publicada em 2020 estimou essa redução em cerca de 11%.
Durante muito tempo foi possível explicar parte deste fenómeno sem recorrer à biologia. Pessoas com cancro podem morrer antes de atingir uma idade em que a Alzheimer se tornaria evidente, e os próprios tratamentos oncológicos podem causar alterações cognitivas que confundem o diagnóstico.
Mas restava uma possibilidade muito mais interessante: E se o cancro estiver realmente a fazer alguma coisa que protege o cérebro?
Um estudo que foi publicado este ano na revista Cell sugere que sim.
Os investigadores implantaram tumores humanos do pulmão, da próstata e do cólon em ratinhos usados como modelo da doença de Alzheimer. O resultado foi inesperado: Os animais com tumores desenvolveram menos placas de beta-amilóide no cérebro (características da Doença de Alzheimer) e tiveram melhor desempenho em testes cognitivos.
O tumor estava longe do cérebro, portanto, alguma coisa produzida pelas células cancerígenas teria de estar a “viajar” pelo organismo.
A principal suspeita acabou por ser uma proteína chamada Cistatina C. Produzida pelos tumores, conseguia chegar ao cérebro e estimular mecanismos naturais de remoção da beta-amilóide via activação da microglia. (A microglia são células que patrulham o tecido nervoso, detectam danos e removem detritos, funcionando como uma espécie de serviço de limpeza e vigilância do cérebro).
É uma descoberta curiosa porque muda ligeiramente a pergunta. O interesse não está em saber se o cancro “protege” contra Alzheimer, muito menos em imaginar o cancro como tratamento. Está em descobrir que mecanismo biológico o tumor está a explorar e se podemos reproduzi-lo de forma segura.
É também importante não exagerar. O estudo foi feito em ratinhos e ainda não sabemos se o mesmo acontece em seres humanos. Além disso, a doença de Alzheimer é muito mais complexa do que a acumulação de beta-amilóide.
Ainda assim, há qualquer coisa de particularmente interessante nesta descoberta.
Passámos décadas a estudar o cancro e a Alzheimer como dois dos grandes inimigos da medicina moderna. No cancro, as células recusam-se a morrer e proliferam quando não deviam. Na Doença de Alzheimer, células que gostaríamos de conservar deixam progressivamente de funcionar e morrem.
Talvez não seja inteiramente coincidência que estas duas doenças pareçam afastar-se uma da outra.
Na minha primeira crónica, usei o cancro para ajudar a pensar sobre a Doença de Alzheimer. Poucos meses depois, volto à mesma comparação por uma razão muito diferente: Desta vez, o cancro pode estar a ensinar-nos alguma coisa sobre como combater a Alzheimer.
E talvez seja esta uma das características mais interessantes da ciência: Por vezes, uma pista para compreender uma doença aparece quando estudamos outra.
Citações:
Li, Xinyan, et al. Peripheral cancer attenuates amyloid pathology in Alzheimer’s disease via cystatin-c activation of TREM2. Cell (2026). https://doi.org/10.1016/j.cell.2025.12.020
Heidi Ledford. Cancer might protect against Alzheimer’s – this protein helps explain why. Nature (News and Views) (2026) https://doi.org/10.1038/d41586-026-00222-7
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