Se os jornalistas denunciam, com frequência, a violência que se abate sobre as mulheres, importa esclarecer uns e outros quanto ao berço de tão venerável brutalidade, para que melhor se possam subtrair a ela.
Porque, antes de a mulher ser espancada no corpo, já lhe haviam ferido a liberdade de pensar. E as ideias são, como se sabe, criaturas muito mais resistentes do que o corpo: sobrevivem aos séculos, mudam de roupagem, aprendem novas palavras e revitalizam-se sempre que alguém decide que a liberdade alheia requer vigilância e punição.
Comecemos por Eva.
A sociedade ocidental obteve uma certidão de nascimento que, em boa medida, vem assinada pela mãe de todos os viventes e, segundo consta, com excelentes contactos de proximidade com o departamento de relações públicas do demónio. Afinal, não foi ela encontrada a conversar com a serpente nos bastidores da Criação? E não foi ela que, perante a fruta proibida, revelou uma imperdoável transgressão gastronómica?
Logo aquela fruta.
Num Paraíso onde aparentemente não faltava sustento, Eva teve a desfaçatez de contrariar o poder soberano de quem que lhe exigiu que não comesse. Uma mulher com vontade própria: eis o primeiro escândalo da humanidade.
Desde então, a civilização ocidental, e não só, tem passado boa parte do tempo a insistir connosco que a culpa foi dela.
Quando alguma coisa corre mal, procura-se a mulher. Se foi o pecado, foi Eva. Se foi a sedução, foi Dalila. Se foi a guerra, haverá sempre uma Helena de Troia disponível. Se foi a bruxaria, queimemos a benzedeira que sabia demais. Se foi a moral pública, fiscalize-se o decote. Se foi a honra da família, controle-se a filha. E, se o marido perdeu a cabeça, procure-se uma justificação na roupa da mulher.
Assim se foi construindo uma civilização com uma extraordinária capacidade para acumular erros e uma ainda maior capacidade para encontrar alguém a quem atribuí-los, subjugando-a, entre vigilância e punição.
Desde os textos inaugurais de várias tradições religiosas e filosóficas, que a mulher aparece como suspeita de erro de fabrico: criatura incompleta, tentadora, emocionalmente perigosa, intelectualmente duvidosa ou moralmente necessitada de tutela.
Uma espécie de geradora do Mal, colocada, em termos estratégicos, no centro de todos os acidentes da humanidade: da maçã à concupiscência, do apetite desregrado à desordem familiar e desta, naturalmente, ao fim do mundo.
Vieram depois os doutores da Igreja, homens de grande elevação espiritual, explicar-nos que a mulher era um problema que a própria criação parecia ter tido alguma dificuldade em resolver.
São Tomás de Aquino chegou a escrever que, quanto à natureza individual, a mulher seria “defeituosa e malnascida”. É uma opinião curiosa, sobretudo vinda de alguém que, para existir, teve de contar com uma mulher.
Santo Agostinho, por seu lado, não foi propriamente um entusiasta da dimensão corporal da vida matrimonial, vendo nela uma ameaça à elevação da mente. Compreende-se que a sua experiência desregrada de uma juventude marcada por excessos e prazeres carnais tenha tornado o assunto interessante do ponto de vista teológico.
Mas não vem ao caso transformar Santo Agostinho num simples vilão retrospetivo. O homem viveu num mundo em profunda transformação, entre a herança romana, a consolidação do cristianismo e correntes filosófico-religiosas que olhavam para o corpo como território perigoso da alma.
O problema do maniqueísmo está menos em compreender o homem do seu tempo do que em perceber o que fizeram os séculos seguintes com aquilo que ele e outros pensaram.
Porque as ideias têm uma particularidade: quando são pronunciadas por homens importantes, deixam de ser apenas correntes de pensamento vulgar e adquirem uma autoridade singular.
E foi assim que a misoginia se transformou num património cultural muito peculiar. Passou de geração em geração sem necessidade de escritura, nem pagamento de impostos. Como uma bem guardada receita de família: ninguém sabe exatamente quem a inventou, mas todos sabem que não convém mexer nos ingredientes.
A mulher tornou-se perigosa: se sabia, se falava, se não obedecia. Perigosa se obedecia demasiado bem e depois descobria que queria deixar de obedecer.
E, quando a cultura não conseguiu suportar mais uma mulher com conhecimento, inventou a bruxa.
A bruxa foi a solução “mágico-religiosa” perfeita: uma mulher só precisava de saber usar ervas para curar milagrosamente a ignorância de toda a gente à sua volta. Bastava que tivesse autonomia, não inspirasse a suficiente docilidade de uma fada do lar ou fosse simplesmente inconveniente para merecer investigação. O cadafalso e a fogueira encarregavam-se do resto.
A modernidade, felizmente, substituiu a fogueira por métodos mais sofisticados. Refinámos a barbárie. É reconfortante perceber que a fogueira foi finalmente erradicada e substituída por uma tecnologia muito mais eficaz: o assassinato de carácter em banho-maria. A mulher que pensa já não corre o risco da fogueira, mas apenas de ver a sua dignidade desmantelada através de sussurros bem-intencionados sobre a sua conduta privada. A independência feminina deixou de ser um crime de feitiçaria para passar a ser um lamentável “problema de temperamento”. E aquela ordem bíblica para obedecer ao cônjuge? Coisa do passado. Agora a exigência surge disfarçada de sociologia barata, embrulhada na urgência de “preservar a estrutura familiar”, ou de defender a “família tradicional”. O progresso é isto: a fogueira extinguiu-se, mas as cinzas continuam a ser feitas do mesmo material.
A linguagem refinou-se, as ideias nem tanto.
E chegámos assim à nossa fascinante e admirável atualidade, na qual a mulher pode frequentar a universidade, exercer uma profissão, dirigir uma empresa, ser mãe ou não ser, casar ou não casar, divorciar-se, viver sozinha, apaixonar-se, desapaixonar-se e até cometer a extravagância de ser feliz sem autorização superior.
Tudo isto, note-se, com uma enorme dificuldade de alguns em compreenderem que a emancipação feminina não é uma concessão feita pelos homens à mulher. É a retirada de uma concessão que nunca deveria ter existido: a de que alguém pudesse decidir por ela.
É aqui que a conversa sobre violência doméstica ganha a sua dimensão mais profunda.
Um homem que agride uma mulher não inventa uma violência momentânea. A violência pode constituir o ato final de uma longa cadeia de ideias sobre posse, autoridade, domínio e direito sobre o outro.
Nem todo aquele que acredita numa hierarquia entre homens e mulheres será agressor; mas uma cultura que naturaliza a desigualdade pode fornecer um terreno onde a violência encontra justificação.
E a família, essa instituição que alguns gostam de apresentar como vacina contra todos os males sociais, não possui qualquer imunidade especial contra a crueldade.
Um lar tanto pode ser um lugar de amor, como o lugar onde alguém fecha a porta e começa a ameaçar, humilhar ou bater — um lugar de horror.
O casamento não transforma um agressor em marido respeitável. Nem a aliança no dedo não constitui um certificado de carácter, nem a certidão de casamento contém qualquer cláusula de autorização para a violência.
Talvez seja esta uma das grandes revoluções ainda incompletas: perceber que ninguém pertence a ninguém.
Nem a mulher ao marido. Nem o marido à mulher. Nem os filhos aos pais. Nem o corpo à moral dos outros. Nem a sexualidade à opinião pública.
A mulher dos nossos dias carrega nos ombros o rascunho rasurado de uma história que outros homens redigiram, dedicando os seus melhores anos a emendar, com tinta própria, os erros herdados do passado.
Estudou, trabalhou, criou filhos, recusou outros, amou, divorciou-se, voltou a começar, conquistou direitos e, sobretudo, aprendeu a palavra mais perigosa de todas: aprendeu a dizer não.
Não quero. Não aceito. Não devo. Não sou tua.
Esta última frase talvez seja a verdadeira blasfémia que atravessa séculos de patriarcado.
Não sou tua.
Porque é precisamente aí que começa a liberdade. E talvez seja por isso que ainda exista quem se sinta desconfortável com ela. A mulher livre é uma criatura de difícil administração. Não aceita ser propriedade, ornamento, consciência moral do marido, empregada doméstica gratuita, santa de altar ou pecadora de serviço.
É simplesmente uma pessoa.
Que ideia extravagante.
Foram necessários séculos de fogueiras e concílios, dogmas e filosofias, sob o punho severo da autoridade dos homens, para que a civilização compreendesse uma verdade tão elementar que cabe na inocência de uma criança: a de que no peito de uma mulher habita a mesmíssima humanidade que no peito do homem.
Não parece uma descoberta particularmente revolucionária, mas considerando o tempo que demorámos a descobri-la, talvez seja.
E ainda não terminámos.
Porque a violência contra as mulheres não desaparecerá apenas porque mudámos as leis, embora elas sejam indispensáveis. Desaparecerá quando a velha ideia de posse, superioridade e tutela deixar de encontrar abrigo na cultura, na educação, na família, na religião, na política ou no comentário de café.
É claro que não faltam nostálgicos que insistem em que o passado os governe — “no meu tempo…” — e que chegam a utilizá-lo como álibi para a violência.
Eva comeu a maçã.
Talvez tenha sido esse o seu maior crime: ter descoberto que uma proibição não é uma lei da natureza.
Desde então, continuamos a tentar convencer as mulheres de que há frutas que não lhes pertencem.
O problema é que já provaram a maçã.
E passaram a saber a que sabe a liberdade.
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