Dormir debaixo de uma ceifeira-debulhadora no verão e encher e coser sacos de cereal faziam parte do trabalho nas colheitas. Um agricultor que começou ainda criança recorda essas rotinas depois de mais de oito décadas no campo, numa vida profissional que terminou perto dos 100 anos.
Óscar “Toto” Policastro, de 97 anos, deixou de trabalhar após um percurso de 85 anos na agricultura, em Morse, na província de Buenos Aires, na Argentina.
A máquina que conduziu nas últimas campanhas foi entregue para abate, mas será preservada e exposta na localidade, segundo o jornal digital espanhol Noticias Trabajo, citando uma reportagem ao canal argentino Agrofy News.
A despedida aconteceu no final de julho, poucos dias antes de completar 97 anos, em agosto. A decisão esteve ligada às dificuldades físicas e à necessidade de ajuda para manter a máquina a funcionar.
Começou a trabalhar com o pai aos 12 anos
Toto tinha apenas 12 anos quando começou a acompanhar o pai nas colheitas. Uma das suas tarefas consistia em subir e descer manualmente a plataforma da máquina, numa época em que esse movimento ainda não era automático.
As explorações agrícolas também eram diferentes.
Em declarações ao Agrofy News, recordou terrenos de 40, 50 ou 100 hectares e um trabalho sem a sementeira direta e os herbicidas disponíveis atualmente.
Quatro trabalhadores deram lugar a um operador
Nas máquinas que conheceu nos primeiros anos, as tarefas estavam repartidas: uma pessoa conduzia, duas enchiam e cosiam os sacos e outra movimentava a plataforma. A mecanização alterou essa organização do trabalho.
“Agora, uma só pessoa faz o trabalho dessas quatro”, resumiu o agricultor. Ao longo das décadas, viu aumentar a dimensão das máquinas e chegar os sistemas informáticos, num setor onde, segundo descreveu, as campanhas passaram a fazer-se com maior pressão de tempo.
Noites passadas debaixo da ceifeira
As condições de descanso também ficaram na memória do agricultor. “No verão dormíamos debaixo da máquina”, contou, referindo-se sobretudo às campanhas de trigo que os levavam para longe da povoação.
As deslocações eram mais difíceis e os veículos disponíveis tinham limitações. Toto recordou ainda a escassez de pneus e combustível durante os anos da guerra, num quotidiano em que permanecer junto das máquinas fazia parte da campanha agrícola.
Perda de sensibilidade nas mãos pesou na decisão
Os filhos nunca quiseram impor-lhe o fim da atividade. Segundo a filha, Nora Policastro, a família preferiu esperar que fosse o próprio a decidir quando chegara o momento de parar, apesar das dificuldades que foram surgindo.
O agricultor explicou que receava cair da máquina e que a menor sensibilidade nas mãos dificultava as reparações. Passou a precisar de outra pessoa para o ajudar, o que também alterou as contas da atividade.
“A verdade é que não me compensa pagar a alguém para fazer o trabalho”, afirmou à mesma fonte. A decisão de deixar o campo acabou, assim, por juntar limitações físicas e uma razão económica.
Entrega da máquina comoveu a família
Quando chegou o momento de levar a ceifeira-debulhadora para o centro de desmantelamento, os filhos acompanharam-no numa carrinha. “Foi muito emocionante acompanhá-lo atrás da ceifeira-debulhadora”, recordou Nora.
Já no destino, Toto explicou aos trabalhadores para que serviam os diferentes componentes. Segundo a filha, descrevia o funcionamento da máquina como se esta fosse continuar a trabalhar, mantendo o cuidado com que a tinha utilizado.
Ceifeira será preservada na terra onde trabalhou
A máquina terá, porém, um destino diferente do inicialmente previsto: será conservada e exposta em Morse, localidade conhecida pela tradição das colheitas.
Toto participou durante anos na organização da festa dedicada a esta atividade, cuja primeira edição aconteceu em 1996, e foi o primeiro distinguido com um reconhecimento de mérito e carreira.
A homenagem passará também pela preservação da ceifeira que utilizou nas últimas campanhas, de acordo com o Noticias Trabajo. Nora explicou o significado dessa decisão com uma frase: “Essa máquina pertenceu a alguém que trabalhou 85 anos em Morse”.















