Trabalha como eletricista há 25 anos, mas continua a ouvir clientes questionarem se é realmente ela quem vai executar o serviço. Raquel López tem 45 anos e conta que, apesar de um quarto de século de experiência, ainda há quem prefira que seja o marido a fazer o trabalho.
“Melhor que venha o teu marido fazer o trabalho” é uma das frases que a profissional espanhola diz continuar a ouvir. O testemunho foi partilhado numa peça publicada pelo jornal El Español sobre a presença feminina num setor ainda maioritariamente ocupado por homens.
Raquel entrou para a profissão aos 20 anos, quando decidiu frequentar um curso de Formação Profissional em Eletricidade. O contacto com a construção, contudo, já vinha de casa, uma vez que o pai trabalhava no setor.
Começou aos 20 anos e nunca abandonou a profissão
A eletricista explica que não se imaginava a trabalhar diariamente em frente a um computador e sempre teve interesse por trabalhos manuais. Depois da formação, realizou um estágio numa empresa e decidiu continuar.
Hoje, Raquel e o marido são trabalhadores independentes e têm uma empresa dedicada a instalações. Ainda assim, mesmo depois de 25 anos no ofício, conta que alguns clientes continuam a encará-la como alguém que apenas acompanha ou ajuda o marido.
“Vens ajudar o teu marido?” é outra das perguntas que diz já ter ouvido, além das dúvidas sobre se terá força suficiente para executar determinados trabalhos.
A profissional garante que estes comentários nunca foram suficientes para fazê-la desistir. Pelo contrário, continua a exercer uma profissão de que gosta e na qual acumulou mais de duas décadas de experiência.
“Continuam com a ideia de que estás a ajudar”
O problema não surge apenas quando chega a casa de clientes. Raquel conta que até no seu próprio meio continua a existir a ideia de que desempenha um papel secundário.
“Ainda hoje, quando se referem a mim, continua muito o ‘bem, tu ajudas’. Continuam com essa ideia de que estás a ajudar alguém”, lamenta.
O caso ganha particular relevância quando se olha para a presença feminina no setor. Segundo os dados citados pelo El Español, cerca de 160 mil mulheres trabalhavam na construção em Espanha em 2024, representando aproximadamente 11,4% dos trabalhadores desta indústria.
Raquel reconhece que encontrou bons colegas quando começou e não descreve a construção como um ambiente necessariamente hostil. Para a eletricista, uma das dificuldades está precisamente na perceção de quem ainda associa determinadas profissões exclusivamente aos homens.
Quer mostrar às jovens que também podem ser eletricistas
Depois de 25 anos a trabalhar no setor, Raquel passou também a participar em iniciativas destinadas a aproximar as raparigas das profissões da construção.
Numa dessas ações, estudantes puderam experimentar tarefas relacionadas com eletricidade, canalização e construção e ouvir o testemunho de uma mulher que trabalha diariamente no setor.
“Foi muito bonito porque sentes que podes ser uma referência para elas quando eu, por exemplo, não tive essa figura na minha altura”, explicou.
O testemunho acontece em Espanha, mas mostra como uma profissional com 45 anos e um quarto de século de experiência ainda pode ser confrontada com dúvidas sobre a sua capacidade simplesmente por exercer uma profissão tradicionalmente associada aos homens.















