Há qualquer coisa de profundamente estranho nas prioridades de um país quando, perante uma sucessão de problemas que afetam diretamente a vida de milhões de pessoas, a grande discussão nacional acaba por ser a ausência de um jogador de futebol da seleção.
Comecemos pelo princípio.
Um novo ano letivo arranca, mais uma vez, com falta de professores em várias disciplinas. Há escolas onde alunos começam o ano sem saber quando terão todas as aulas, professores sujeitos a condições que pouco têm de motivadoras e uma comunidade educativa confrontada, cada vez mais, com episódios de indisciplina e violência.
Na saúde, milhares de doentes continuam à espera de uma cirurgia. Esperam dias, semanas, meses. Esperam enquanto a doença não espera. Enquanto a dor não espera. Enquanto a ansiedade das famílias não espera.
Na habitação, a palavra “crise” já quase deixou de ser suficiente para descrever aquilo que se passa. Para demasiados portugueses, encontrar uma casa que consigam pagar transformou-se numa corrida de obstáculos. E para muitos jovens, sair de casa dos pais e construir uma vida autónoma parece cada vez mais um projeto adiado.
Depois há o custo de viver.
Os combustíveis pesam. A alimentação pesa. As rendas pesam. As prestações pesam. As despesas com os filhos pesam. E, para muitas famílias, o salário chega ao fim do mês muito antes de chegar o mês ao fim.
Mas eis que surge a grande questão nacional: por que razão aquele jogador não jogou e abandonou a seleção?
E subitamente temos especialistas. Muitos especialistas.
Há comentadores a explicar. Ex-jogadores a analisar. Treinadores a opinar. Adeptos indignados. Programas televisivos dedicados ao assunto. Debates. Manchetes. Publicações nas redes sociais. Milhares de comentários de cidadãos que, durante horas, discutem com uma seriedade quase parlamentar a decisão de um selecionador.
Tudo isto por causa de um jogador de futebol.
Um jogador que, convém lembrar, por muito que possa ser injustamente tratado numa determinada circunstância — e isso é uma discussão legítima — dificilmente terá de enfrentar as mesmas angústias económicas de tantos portugueses que, todos os meses, fazem contas para perceber se conseguem pagar as despesas essenciais.
Não há aqui qualquer crítica ao futebol. O futebol é importante. Tem uma enorme dimensão cultural, económica e social. Dá alegria, cria memórias coletivas e, em muitos momentos, consegue aquilo que a política raramente consegue: juntar milhões de pessoas à volta de uma mesma emoção.
O problema começa quando confundimos aquilo que nos distrai da realidade com aquilo que deveria ocupar a nossa atenção enquanto sociedade.
Porque o futebol não é o problema.
O problema é a desproporção.
É a capacidade que temos de transformar uma questão desportiva num assunto de Estado, enquanto problemas que deveriam provocar verdadeira indignação coletiva vão sendo normalizados.
A falta de professores tornou-se recorrente.
As listas de espera tornaram-se recorrentes.
A crise da habitação tornou-se recorrente.
O aumento do custo de vida tornou-se recorrente.
A violência nas escolas tornou-se recorrente.
E, talvez o mais preocupante, a nossa indignação perante tudo isto parece estar a tornar-se igualmente recorrente — e, por isso mesmo, cada vez mais breve.
Indignamo-nos durante alguns dias. Fazemos umas manchetes. Promovem-se uns debates. Trocam-se acusações. Publicam-se declarações. Depois aparece outro assunto.
E seguimos em frente.
Até que alguém não faz entrar em campo um jogador e este abandona a seleção.
Aí, aparentemente, paramos o país.
Talvez porque seja mais fácil discutir futebol do que discutir políticas públicas. Mais simples escolher um culpado por uma não entrada em campo de um jogador do que perceber por que razão faltam professores. Mais divertido discutir a estratégia de um treinador do que discutir a estratégia de um Governo para a saúde. Mais confortável discutir quem deve jogar do que discutir por que razão há famílias que trabalham e, ainda assim, não conseguem pagar uma casa.
O futebol oferece-nos uma coisa preciosa: um problema com princípio, meio e fim.
Há onze jogadores. Há um treinador. Há uma convocatória. Há um jogo. Há um resultado. Há vencedores e vencidos.
Já a vida real é muito mais complicada.
Não há um árbitro para apitar o fim da crise habitacional. Não há VAR para corrigir uma política de saúde errada. Não há cartão vermelho para quem deixa uma escola sem professores. E não existe prolongamento que resolva a angústia de uma família que não sabe se conseguirá pagar a renda no próximo mês.
Talvez seja precisamente por isso que gostamos tanto de discutir futebol.
Porque é muito mais fácil.
E, no entanto, há uma pergunta que deveríamos fazer.
Quem está a discutir os problemas que realmente importam?
Quem está a discutir a escola que queremos daqui a dez anos?
Quem está a discutir um Serviço Nacional de Saúde capaz de responder atempadamente a quem dele precisa?
Quem está a discutir uma política de habitação que permita aos jovens construir uma vida sem depender eternamente da casa dos pais?
Quem está a discutir salários que permitam viver — e não apenas sobreviver?
Quem está a discutir um país onde trabalhar seja suficiente para viver com dignidade?
Essas discussões talvez não produzam tantas audiências.
Talvez não sejam tão divertidas.
Talvez não gerem tantos “gostos”, partilhas ou comentários.
Mas são infinitamente mais importantes.
Por isso, discutamos o futebol. Discutamos a seleção. Critiquemos ou defendamos as opções do selecionador. Celebremos os jogadores. Soframos com as derrotas e festejemos as vitórias.
Mas, por favor, não confundamos o ruído com o essencial.
Porque enquanto discutimos quem ficou de fora da seleção, há portugueses a ficar de fora de coisas muito mais importantes: de uma consulta, de uma cirurgia, de uma casa, de uma escola com professores, de um salário que lhes permita chegar ao fim do mês.
E talvez essa seja a verdadeira convocatória que deveríamos exigir.
Não a de onze jogadores.
A convocatória de um país inteiro para discutir, finalmente, aquilo que realmente importa.
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