Quando era primeiro-ministro, António Guterres encontrou uma forma singular, e até económica, de tomar o pulso à saúde da economia nacional, dispensando os incómodos relatórios do INE, as estatísticas do Banco de Portugal e demais instrumentos que costumam atrapalhar as certezas políticas. Bastava-lhe observar a extensão da fila de automóveis a caminho do Algarve nos feriados encostados a um fim de semana. Se a caravana se mostrasse longa, como quase invariavelmente acontecia, o país podia dormir descansado: a prosperidade seguia ao volante.
Hoje, porventura, o método poderia ser atualizado sem perda de rigor científico. Em vez das filas na A2, bastaria contar os milhares de festivaleiros que acorrem, de norte a sul, aos mais variados certames musicais, de um Vilar de Mouros minhoto ao omnipresente Festival F algarvio. À vista da multidão, concluir-se-ia, sem necessidade de maiores estudos, que a abundância continua a ser o nosso recurso mais renovável.
Mas se outrora a economia se media pelas filas de trânsito, os tempos modernos descobriram um critério igualmente expedito para aferir da pobreza nacional. O observatório já não é a autoestrada, mas antes o contentor do lixo. E o indicador não é o número de automóveis carregados de veraneantes, mas o de pessoas que revolvem resíduos em busca de embalagens que valem dez cêntimos.
Segundo nos informa o presidente de uma câmara municipal de Lisboa, aqui os números assumem contornos bem menos tranquilizadores. Ao contrário das filas rumo ao Algarve, que continuam a certificar a nossa prosperidade estival, o crescente afluxo aos contentores parece sugerir que alguns portugueses participam menos na economia dos festivais e mais na economia do vasilhame. Uma distinção estatística talvez sem grande relevância para os otimistas profissionais, mas certamente digna de nota para quem ainda insiste em confundir realidade com propaganda.
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