Há dias em que parece que Portugal inteiro fica suspenso, à espera de um jogo.
Ligamos a televisão e lá está o futebol, especialidade da casa, em todos os canais. Abrimos o jornal e é mais futebol. Vamos tomar um café e alguém está a falar de futebol. Entramos num táxi e o motorista tem uma opinião formada sobre treinadores e jogadores. No trabalho, há sempre alguém que sabe quem devia e quem não devia jogar. Em casa, discutem-se convocatórias de jogadores como se delas dependesse o destino da República.
Parece haver qualquer coisa de indecente na forma como este país entrega os seus dias ao futebol. Como se alguém tivesse descoberto, de uma maneira mansa, a anestesia perfeita para a nossa alma: lança-se uma bola ao relvado e, de imediato, a nação inteira ajoelha-se à sua volta, consumida por uma febre coletiva que a faz esquecer, ainda que por algumas horas, o peso da sua própria existência.
O esférico rola numa voragem que engole as horas, triturando o tempo. Desesperadas por audiências disfarçadas de serviço público, as televisões despejam comentadores em barda. Dia e noite, assistimos ao espetáculo de homens cuja carreira parece consistir em racionalizar o irracional, passando a vida a explicar o inexplicável. São os académicos do chuto, os magistrados da canelada, os teólogos do golo, os profetas do óbvio e os adivinhos de equipamentos coloridos.
No topo dos valores desta era, a análise milimétrica de uma perna em movimento consegue esmagar, em respeito e tempo de antena, a profundidade de uma obra literária inteira.
É o eclipse da cultura: um único movimento de perna exige mais vénias e exegese do que o pensamento de um livro.
Numa nação de prioridades distorcidas, necessidades estruturais — a cultura, a educação, a saúde, a habitação, a ciência, o bem-estar das crianças e dos idosos e a própria dignidade humana, essa velha senhora que já anda descalça — são constantemente secundarizadas.
Enquanto a crise social é tratada com uma complacência quase administrativa, o futebol beneficia de uma urgência imediata. Claro que não faltam argumentos superficiais para tentar dissociar estas duas realidades, como se o espaço mediático, político e financeiro que damos a umas coisas não tivesse qualquer relação com o que retiramos a outras.
Não temos nada contra o desporto e menos ainda contra o futebol. O que nos preocupa é outra coisa: o espaço excessivo que ele ocupa numa sociedade como a nossa. É a exposição mediática provocada pela importância desmesurada do jogo no quotidiano do país, que acaba por abafar a dureza da própria realidade.
O telefonema de um primeiro-ministro ao selecionador nacional diz muito sobre as nossas prioridades. A cultura de um povo mede-se também pelos seus símbolos de devoção. É o encontro entre o poder político e o poder do futebol, revelando que a nossa sociedade escolheu os relvados para consagrar os seus heróis.
A idolatria popular, porém, é passageira. O futebol ocupa esse espaço hoje, mas o futuro será inevitavelmente mais exigente se não forem definidas metas, prioridades e caminhos estruturados para o país.
E, de repente, reaparecem no ecrã os fantasmas da velha nobreza: títulos e linhagens centenárias que se estendem por árvores genealógicas tão complexas que o tempo se encarregou de as tornar quase intocáveis.
São condes, marqueses, senhores de apelido comprido, famílias cuja árvore genealógica tem tantas ramificações que parece uma árvore antiga que ninguém se atreve a cortar.
Discute-se a nobreza como se o prestígio fosse sinónimo de riqueza moral e material. Desenterram-se as glórias de outrora e recorda-se a tradição. E o público assiste, fascinado, como se a herança familiar constituísse um ofício por si só e como se o passado, apenas por ostentar privilégios, merecesse mais espaço no amanhã do que aqueles que vivem o presente.
Enquanto isso, os velhos artistas vão desaparecendo.
O nosso país prefere a crueldade vagarosa, aquela que ninguém consegue apontar no calendário.
Primeiro tiram-lhes o palco e depois o nome. De seguida, dizem que estão velhos. Finalmente, empurram-nos para os lares, para corredores onde a tarde chega sem testemunhas e o relógio parece ter perdido o caminho de casa.
E assim se matam os velhos artistas, que trazem consigo muitas casas. Trazem personagens, músicas, palavras, memórias, mundos que talvez ainda não tenham nascido. Passaram a vida a inventar caminhos para os outros e, chegada a velhice, descobrem que já não há estrada para eles.
Dizem que a idade os tornou frágeis, num país que talvez tenha envelhecido por dentro.
Existe até um prémio de consolação tardio, denominado Subsídio de Mérito Cultural, destinado àqueles que fizeram da cultura uma maneira de respirar, enriquecendo a alma do país e acabando, muitas vezes, com as contas bancárias em estado vegetativo.
Homens e mulheres que deram à pátria aquilo que não cabe numa fatura: imaginação, memória, beleza, pensamento.
Chegados ao fim da estrada, descobrem que até a pobreza precisa de certidão.
Bastará recordar as mudanças abruptas comunicadas pelo Governo, que colocaram beneficiários com uma média de 80 anos em situação de carência extrema, com relatos de recurso a ajuda alimentar e casos de desespero pessoal, após a perda do subsídio instituído.
É assim que desenhamos a nossa pequena ideia de civilização: o aristocrata recebe horário nobre; o futebolista recebe horas de emissão; o velho artista recebe um formulário.
E depois perguntamos onde foi parar a vergonha.
Talvez tenha partido. Emigrado como tantos outros.
Entretanto, aos ecrãs continuam a chegar novelas de todos os lados. Reality shows onde a humilhação se tornou profissão. Programas onde a intimidade se despe na praça pública e a vulgaridade já não precisa de pedir desculpa.
Já não é acidente ser medíocre. É programação.
Já não é preciso ter alguma coisa para dizer. Basta estar diante de uma câmara.
E nós ficamos ali. Olhando. Como quem vê uma cheia do outro lado da janela, esquecendo que a água já passou da soleira. Primeiro molha o quintal. Depois entra na cozinha. E, quando levantamos os olhos, já estamos a dormir no leito do rio.
O curioso é que até os lugares já começaram a mudar de dono sem mudarem de escritura.
A Comporta tornou-se um pequeno reino sem rei, um principado de areia, dinheiro e silêncio.
E a areia sabe disso. Consegue distinguir perfeitamente quem nela procura apenas alguns momentos de lazer de quem traz consigo o aparato de uma mudança. Identifica de imediato quem procura descanso e quem chega disposto a impor as suas regras.
Sei que o leitor poderá pensar: que se dane a Comporta. Tenho mais que fazer com que me preocupar. Ainda há areia, mar e placas a dizer que a praia é pública.
Mas, da Comporta a Portimão, é muito clara a continuidade do ímpeto privado na apropriação do espaço litoral.
A areia não mudou. Nós é que mudámos.
Quem chega com dinheiro percebe que há portas que se abrem sem ninguém precisar de tocar. Talvez seja esta uma das novas diferenças entre nós.
A destrinça já não é apenas entre quem tem dinheiro e quem não tem. É entre quem pode entrar, estar e ficar e quem começa a perceber que há lugares onde, embora ninguém diga nada, não é bem recebido. Porque também o mar, há muito, começou a aprender a linguagem do dinheiro.
Talvez a nova fronteira seja essa, porque nestas formas de apropriação social, até a coitada da língua sofre, fenómeno talvez ainda mais difícil de explicar.
Portugal tem uma língua viajada pelo mundo. Uma língua onde todos cabemos, que tem no cartão de visita Camões, Pessoa, Sophia e também a voz da mãe, da avó que nos chamava para jantar.
É a língua dos pescadores, dos emigrantes, dos homens do campo, das crianças na rua e dos velhos que guardam provérbios como quem guarda sementes.
É uma língua de muita gente.
Mas há lugares onde falar português parece começar a gerar um certo embaraço.
Entramos num restaurante e o empregado muda imediatamente de idioma. O menu vem noutra língua. Às vezes parece que somos nós os estrangeiros.
Não tenho nada contra as outras línguas. Pelo contrário. O problema começa quando sentimos que a nossa é investida de uma espécie de fustigação que convém esconder.
Um dia destes ainda vamos ter de pedir desculpa por falar português em Portugal.
E talvez ninguém ache estranho.
No fundo, as coisas ligam-se.
Um país que trata a cultura como decoração, os velhos como encargo incómodo, as praias como negócio e a língua como embaraço é também um país que encontra no futebol uma excelente forma de não conversar consigo próprio.
Compreende-se.
Falar de futebol é fácil. Pensar no país é mais complicado. Obriga a questionamentos.
Por que razão damos tanto tempo de televisão a quem tem tão pouco para dizer?
Por que razão a ciência e a cultura são tão desvalorizadas no desenvolvimento deste país?
Por que razão certas praias públicas começam a parecer privadas?
Por que razão nos envergonhamos, às vezes, da nossa própria língua?
Essas perguntas não cabem facilmente num intervalo publicitário. A bola, pelo contrário, cabe em todo o lado. Ela tem a enorme vantagem de ser redonda. Andando às voltas, falamos muito, discutimos muito, comentamos tudo. E, no fim, continuamos no mesmo lugar.
Enquanto a bola rola, não perguntamos para onde vai o país, quem ficou para trás. Temos sempre qualquer coisa para dizer.
Talvez ainda não sejamos um país de terceiro mundo. Mas, olhando para certas coisas, parece que estamos a trabalhar nisso com uma admirável dedicação.
E, se continuarmos assim, talvez lá cheguemos.
Com festas, bandeiras, bandeirolas, comentadores e televisão.
Em horário nobre.
Naturalmente.
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