A fome no mundo tem uma ironia difícil de engolir: produzimos comida suficiente para alimentar a população global, mas conseguimos a proeza de deixar milhões com o prato vazio. Não é falta de comida; é falta de acesso, dinheiro, estabilidade e, aparentemente, bom senso.
O sistema económico tem uma regra simples: a comida vai para quem pode pagar. Assim, se uma comunidade tem fome, mas não tem poder de compra, o mercado responde com a sua habitual delicadeza: “Oh pá que chatice. Volta quando tiveres dinheiro.” O capitalismo, pelo menos, mantém a coerência.

Depois temos as guerras, que transformam campos agrícolas, estradas e armazéns em alvos estratégicos. Pessoas perdem casas, terras e empregos, enquanto toneladas de alimentos continuam a circular pelo mundo desde que haja lucro e logística para isso.
E há o desperdício: cerca de um terço dos alimentos produzidos acaba perdido ou desperdiçado. Uma verdadeira façanha civilizacional: alguns passam fome enquanto outros discutem se a banana está demasiado torta para ir para a prateleira.
E aqui aparece outra contradição interessante: combater a fome não significa apenas produzir mais alimentos. Significa garantir que eles chegam a quem precisa, quando precisa e em condições dignas. Significa também investir em agricultura local, melhorar transportes e armazenamento, apoiar pequenos produtores e criar redes de proteção para quem fica temporariamente sem capacidade para comprar comida. Porque uma pessoa pode ter supermercados à porta e, ainda assim, não conseguir pôr uma refeição decente na mesa.
A fome também pode existir no meio da abundância, escondida atrás de portas fechadas, contas por pagar e frigoríficos vazios. E talvez seja essa a parte mais desconfortável: é muito mais fácil imaginar a fome como um problema distante, de outro continente, do que admitir que ela pode estar a poucos quilómetros de nós.
As alterações climáticas ainda dão uma ajuda, destruindo colheitas com secas, cheias e pragas. Entretanto, continuamos a degradar solos e recursos como se o planeta tivesse um botão de reiniciar.
No fundo, fome não é falta de comida. É excesso de desigualdade, desperdício, conflitos e decisões absurdas servido diariamente à escala global.
Leia também: Desperdiçar é uma escolha: escolha não desperdiçar | Por Rosa Caramez















