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ANA ALEXANDRA RESENDE - Arqueóloga e escritora. Foto DR
Opinião

Não podemos ser só amor e sorrisos | Por Ana Alexandra Resende

“Não quero ensinar aos meus filhos que ser educado significa permitir tudo. Nem que respeitar uma autoridade significa nunca a questionar”

07:30 10 Setembro, 2026 06:44 10 Setembro, 2026 | Cristina Mendonça
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Há qualquer coisa de profundamente artificial na obrigação contemporânea de parecermos sempre bem.

Temos de ser positivos. Empáticos. Tolerantes. Inclusivos. Resilientes. Cordiais. Temos de escolher cuidadosamente as palavras, controlar o tom, evitar o conflito, compreender todas as perspetivas e, de preferência, terminar qualquer divergência com um sorriso.

À primeira vista, parece uma evolução civilizacional. Talvez seja.

Mas começo a perguntar-me se, algures pelo caminho, não confundimos civilidade com conformismo.

Porque uma sociedade não se constrói apenas com amor e sorrisos. Constrói-se também com pessoas que discordam, que questionam, que se indignam, que apontam incoerências e que, perante aquilo que consideram injusto, têm a coragem pouco conveniente de dizer: não.

E dizer não tornou-se estranhamente perigoso. Não necessariamente porque existam censores à porta. O mecanismo contemporâneo é muito mais subtil.

Quem questiona demasiado é «difícil». Quem insiste é «conflituoso». Quem reclama é «problemático». Quem não aceita imediatamente uma explicação é «complicado». Quem diz aquilo que pensa «não sabe estar».

E assim se produz uma das formas mais eficazes de silêncio: não é preciso proibir ninguém de falar. Basta fazer com que as pessoas tenham medo das consequências sociais de o fazer. Talvez seja por isso que tantas vezes encontramos uma extraordinária distância entre aquilo que as pessoas dizem publicamente e aquilo que fazem quando ninguém está a olhar.

Nunca tivemos tantas palavras bonitas à nossa disposição: inclusão. Empatia. Diversidade. Solidariedade. Respeito. Justiça. São palavras indispensáveis. Mas as palavras, quando repetidas sem correspondência nos atos, também podem transformar-se numa espécie de decoração moral.

Artigo Ana Resende
Imagem gerada através de Inteligência Artificial

É relativamente fácil defender princípios em abstrato. Muito mais difícil é aplicá-los quando nos dão trabalho, quando nos obrigam a sair da nossa zona de conforto ou quando não existe uma plateia para reconhecer a nossa virtude. A verdadeira coerência começa precisamente aí. Quando ninguém está a ver. No telefonema a que respondemos. Na pessoa que não ignoramos. Na criança de quem nos lembramos. Na injustiça pequena que seria muito mais cómodo fingir que não vimos. Na capacidade de aplicarmos aos outros os princípios que tão eloquentemente defendemos para nós próprios.

Porque a justiça não pode funcionar por categorias de simpatia. Não pode depender de quem conhecemos, de quem nos comove mais, de quem tem maior capacidade de mobilização ou de qual injustiça fica melhor numa publicação. Há sofrimentos visíveis e sofrimentos silenciosos. Há crianças com necessidades diagnosticadas e crianças que atravessam dificuldades que nenhum relatório consegue traduzir. Há famílias que gritam e famílias que não sabem pedir ajuda. Há pessoas extraordinariamente capazes de explicar publicamente aquilo em que acreditam e surpreendentemente incapazes de praticar, nos pequenos gestos quotidianos, os valores que anunciam. E isto deveria inquietar-nos. Sobretudo porque estamos a ensinar. Mesmo quando não somos professores.

Cada geração ensina à seguinte não apenas através daquilo que lhe diz, mas através daquilo que tolera. Dizemos às crianças que devem ser verdadeiras, mas ensinamo-las muito cedo a não dizer determinadas coisas porque «fica mal». Dizemos-lhes que devem defender os colegas, mas recomendamos prudência quando isso lhes pode trazer problemas. Ensinamos pensamento crítico na escola e, frequentemente, irritamo-nos quando uma criança começa realmente a questionar os adultos. Pedimos-lhes personalidade, mas premiamos obediência. Queremos filhos autónomos, desde que façam as escolhas que imaginámos para eles. Queremos cidadãos participativos, desde que não participem demasiado. Queremos pessoas com opinião, desde que a opinião não nos incomode.

Há aqui uma contradição que merece ser pensada. O problema não é o conflito! Durante muito tempo olhei para o conflito como aquilo que devia ser evitado. Hoje não tenho tanta certeza.

Há conflitos destrutivos, naturalmente. Há agressividade gratuita, humilhação, violência verbal, incapacidade de escutar e aquela necessidade infantil de ganhar todas as discussões.

Nada disso me interessa defender.

Mas existe outro conflito. O conflito que produziu direitos. O conflito que obrigou instituições a mudar. O conflito de quem perguntou por que razão determinada regra existia. O conflito de quem recusou aceitar que «sempre foi assim» constituísse uma explicação suficiente. A História, afinal, não avançou graças a uma sucessão harmoniosa de pessoas que concordavam umas com as outras. Os direitos laborais não nasceram porque trabalhadores e empregadores sorriram cordialmente uns para os outros. Os direitos das mulheres não surgiram porque alguém os ofereceu gentilmente. A liberdade de expressão não existe porque o poder sempre apreciou ser contestado. A democracia, ela própria, institucionaliza o conflito: oposição, debate, contraditório, fiscalização, protesto. Uma sociedade sem conflito não é necessariamente uma sociedade pacífica. Pode simplesmente ser uma sociedade onde alguém deixou de poder contestar. E talvez devêssemos recordar isto antes de ensinarmos às novas gerações que o ideal humano consiste em nunca incomodar ninguém: a indústria da positividade.

As redes sociais agravaram esta estranha transformação. Construímos montras de personalidade. Publicamos felicidade, consciência social, solidariedade, indignação e virtude em pequenos fragmentos cuidadosamente selecionados. Gostamos. Partilhamos. Colocamos um coração. Escrevemos «força». E seguimos.

Nunca foi tão fácil parecermos envolvidos com tudo e comprometermo-nos verdadeiramente com tão pouco. Não significa que toda a manifestação pública de solidariedade seja falsa. Evidentemente que não. Significa apenas que passámos a possuir ferramentas extraordinárias para construir uma identidade pública sem que essa identidade tenha necessariamente de enfrentar o teste incómodo da vida privada.

É fácil escrever sobre empatia. Difícil é responder quando alguém nos incomoda.

É fácil defender inclusão. Difícil é incluir aquela pessoa que não escolheríamos espontaneamente.

É fácil exigir respeito. Mais difícil é respeitar quem discorda de nós.

É fácil denunciar a indiferença coletiva. Muito mais difícil é perguntarmo-nos quantas vezes nós próprios fomos indiferentes quando o problema não era nosso.

É aqui que as palavras deixam de ser palavras e passam a ser valores. E depois há os «reivindicativos»

Conheço bem a palavra. É frequentemente pronunciada com uma mistura curiosa de censura e aviso: «Tu és muito reivindicativa!» Talvez. Mas comecei a desconfiar da forma como utilizamos esse adjetivo.

Porque reivindicar significa, na sua essência, reclamar aquilo que consideramos legítimo. Não significa ter razão. Uma pessoa reivindicativa pode estar profundamente enganada.

Mas uma sociedade precisa desesperadamente de pessoas dispostas a perguntar “Porquê?”; “Com que fundamento?”; “Quem decidiu?”; “É igual para todos?”; “Onde está escrito?”; “Porque aconteceu assim?”

O problema começa quando deixamos de responder às perguntas e começamos a classificar quem as faz. É muito mais simples chamar alguém de complicado do que responder-lhe. Muito mais confortável considerar uma pessoa conflituosa do que admitir que talvez tenha identificado uma contradição. E muito mais conveniente aconselhar silêncio em nome da diplomacia do que enfrentar aquilo que o silêncio protege.

Também aqui existe, evidentemente, uma responsabilidade individual. Nem todas as injustiças são injustiças. Nem toda a discordância exige uma batalha. Nem toda a incoerência precisa de ser denunciada. E ninguém tem o monopólio da verdade apenas porque fala mais alto. Talvez a verdadeira maturidade esteja precisamente aí: saber distinguir aquilo que merece a nossa voz daquilo que merece apenas a nossa indiferença.

Eu própria continuo a aprender essa diferença. Mas recuso uma conclusão: a de que crescer significa aprender a calar. Porque o silêncio também educa.

Preocupa-me particularmente aquilo que estamos a transmitir às crianças. Uma criança que nunca vê um adulto discordar de forma civilizada não aprende tolerância. Aprende a evitar. Uma criança que ouve constantemente «não te metas nisso» aprende que a segurança está acima da justiça. Uma criança que percebe que fazer perguntas pode torná-la incómoda aprenderá rapidamente a fazer menos perguntas. E uma criança que vê os adultos defenderem determinados valores em público e ignorá-los na vida quotidiana aprende talvez a lição mais perigosa de todas: que os princípios são coisas que se dizem. Não coisas que se fazem.

Depois surpreendemo-nos com adolescentes apáticos. Com jovens que não participam. Com adultos que dizem «não vale a pena». Com cidadãos que deixaram de acreditar nas instituições.

Talvez devêssemos perguntar quantas vezes lhes ensinámos exatamente isso: «Não te metas.»; «Deixa estar.»; «Não vale a pena.»; «Não arranjes problemas.»; «É melhor ficares calado.»

Quantas injustiças sobreviveram ao longo da História graças a quatro palavras aparentemente inofensivas?

Não vale a pena. Não quero aprender a sorrir perante tudo. Quero continuar a acreditar na delicadeza. Na educação. Na capacidade de pedir desculpa. Na empatia. Na ternura.

Na extraordinária importância de tentarmos compreender o lugar do outro. Não quero uma sociedade de pessoas permanentemente indignadas, patrulhando cada palavra e transformando qualquer divergência numa guerra. Mas também não quero o contrário. Uma sociedade de sorrisos automáticos, concordâncias estratégicas e silêncios convenientes.

Não quero ensinar aos meus filhos que ser educado significa permitir tudo. Nem que respeitar uma autoridade significa nunca a questionar. Nem que preservar relações exige abdicar das convicções. Quero que saibam dizer «não» sem insultar. Quero que saibam perguntar «porquê?» sem medo. Quero que consigam reconhecer quando estão errados. Quero que defendam alguém mesmo quando não existe uma plateia para aplaudir. E, acima de tudo, quero que compreendam que coerência não é aquilo que mostramos quando todos estão a olhar. É aquilo que fazemos quando ninguém está. Talvez algumas pessoas não gostem de nós por isso. Talvez sejamos considerados difíceis. Talvez alguém nos aconselhe a falar menos, a contestar menos, a deixar passar mais coisas. E talvez, algumas vezes, esse conselho até seja sensato.

Mas há uma diferença fundamental entre escolher o silêncio e aprender a ter medo da própria voz. A primeira coisa é liberdade. A segunda é conformismo.

Não podemos viver permanentemente zangados. Mas também não podemos ser só amor e sorrisos.

Porque há momentos em que amar significa acolher. Outros em que significa compreender.

E outros, inevitavelmente, em que significa ter a coragem de olhar para aquilo que está diante de nós e dizer, com toda a educação possível e toda a firmeza necessária: não, isto não está certo.

Leia também: Quando é que chega a nossa vez? | Por Ana Alexandra Resende

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