Hoje estou revoltada.
Não encontro uma palavra mais bonita e, francamente, também não a quero procurar.
Estou revoltada.
Com um país onde tantas vezes nos dizem para trabalhar mais, estudar mais, qualificarmo-nos mais, insistirmos mais, sermos mais resilientes. Onde nos repetem que o mérito conta, que a experiência conta, que o conhecimento conta.
E depois passamos uma vida a tentar perceber quando é que começam, de facto, a contar.
Conheço a escola por dentro. Dei aulas durante anos. Tive alunos, turmas, responsabilidades, avaliações, reuniões, tudo aquilo que faz parte da vida real de um professor.
E continuo à procura de uma oportunidade de estabilizar.
Continuo à procura de uma forma de me profissionalizar.
Pergunto. Procuro. Escrevo. Já escrevi para quem tutela. Tento perceber qual é o caminho.
E tantas vezes encontro silêncio.
É isto que me revolta.

Não estou a pedir que me ofereçam uma profissão. Estou a pedir que me deixem percorrer o caminho necessário para poder exercê-la com estabilidade.
Se me falta uma qualificação, digam-me como a obtenho.
Se preciso de formação, indiquem-me o caminho.
Se existem regras, expliquem-nas.
Mas não me deixem eternamente num corredor onde uma porta exige a chave que está guardada atrás da própria porta.
Porque isso não é exigência.
É um círculo.
E depois vejo escolas a precisarem de professores. Ouço falar de falta de docentes. Vejo horários aparecerem e desaparecerem. E continuo a perguntar-me como pode um país precisar de professores e, simultaneamente, tornar tão extraordinariamente difícil o percurso de quem já ensinou e quer continuar a fazê-lo.
Não estou revoltada com os professores que conseguem.
Ainda bem que conseguem.
Não quero o lugar de ninguém.
Quero o meu lugar.
E talvez seja precisamente esta frase que tenha demorado tantos anos a conseguir dizer.
Não quero uma cunha.
Não quero aprender a bajular. Nunca soube fazê-lo. Não sei dizer que sim quando penso que não. Não sei sorrir estrategicamente para quem talvez amanhã me possa ser útil. Nunca consegui conformar-me apenas porque seria mais conveniente ficar calada.
Talvez tenha pago um preço por isso.
Mas não quero acreditar que, num país democrático, uma pessoa tenha de escolher entre a sua independência e as suas oportunidades.
Quero acreditar que ainda é possível trabalhar, estudar, adquirir experiência e ser avaliada por isso.
Só que há dias em que essa crença vacila.
Hoje vacilou.
Porque voltei a perguntar-me:
O que mais é suposto eu fazer? Estudar? Estou a começar um doutoramento.
Trabalhar? Trabalho.
Ganhar experiência? Tenho-a.
Reinventar-me? Já perdi a conta às vezes que o fiz.
E é então que aparece a pergunta mais dolorosa de todas:
Para quê? Para que estudamos mais uma vez? Para que acrescentamos mais uma qualificação? Para que acumulamos anos de experiência?
Para que nos dizem permanentemente que devemos investir em nós próprios se depois continuamos a sentir que a oportunidade está sempre um pouco mais à frente?
Não quero que um doutoramento me dê direitos sobre ninguém.
Não quero que anos de experiência façam de mim melhor do que outro profissional.
Quero apenas que as coisas tenham valor.
Que o conhecimento tenha valor.
Que a experiência tenha valor.
Que o trabalho tenha valor.
Que o mérito tenha valor.
E que uma pessoa consiga perceber de que forma esse valor se transforma numa oportunidade.
Porque estou cansada de uma palavra que parece ter-se tornado a resposta universal para tudo: resiliência.
Há qualquer coisa de profundamente perverso numa sociedade que elogia constantemente a capacidade das pessoas para suportarem dificuldades, mas raramente pergunta porque precisam elas de suportar tantas.
Caiu? Levante-se.
Não conseguiu? Tente novamente.
A porta fechou? Bata noutra.
Não há emprego? Reinvente-se.
Não tem a qualificação? Estude.
Já estudou? Estude mais.
E depois?
Depois seja resiliente outra vez.
Não!
Às vezes temos o direito de estar fartos.
Eu estou.
Não quero desistir de trabalhar. Quero deixar de sentir que estou permanentemente a lutar pelo direito de o fazer.
Não quero deixar de estudar. Quero poder estudar porque quero aprender, e não porque continuo à procura da credencial seguinte que talvez finalmente abra uma porta.
Não quero facilidades. Quero clareza. Quero oportunidades. Quero mérito.
Quero poder deitar a cabeça na almofada e não estar permanentemente a pensar no mês seguinte, no trabalho seguinte, na candidatura seguinte, na conta seguinte.
E sei perfeitamente que existem pessoas com vidas muito mais difíceis.
Mas também estou cansada dessa comparação.
A existência de sofrimento maior não transforma o nosso cansaço em ingratidão.
Podemos amar aquilo que temos e, simultaneamente, perguntar por que razão foi necessário lutar tanto para o conseguir e porque continuamos a lutar para o conservar.
Tenho 46 anos.
E talvez seja por isso que hoje a pergunta pesa mais.
Quando? Quando é que chega aquela estabilidade que durante anos imaginámos estar apenas um pouco mais à frente? Quando é que deixamos de viver permanentemente a preparar o futuro e começamos simplesmente a vivê-lo? Quando é que uma oportunidade aparece sem precisarmos de um favor? Quando é que o trabalho feito começa a valer pelo trabalho feito?
Não sei.
Hoje não tenho uma conclusão inspiradora. Não vou terminar a dizer que amanhã será melhor. Não vou escrever que todas as dificuldades nos tornam mais fortes. Não sei se tornam. Algumas apenas nos cansam. E hoje estou cansada. Mas sobretudo estou revoltada. E talvez ainda bem. Porque a indiferença seria muito pior.
Ainda me revolto porque ainda acredito que isto podia ser diferente.
E se este texto chegar apenas a uma pessoa que alguma vez se sentou em silêncio e pensou «eu fiz tudo o que me disseram; então porque é que continuo sem conseguir chegar?», já não o escrevi em vão.
Porque talvez essa pessoa também esteja cansada de ouvir que precisa de conhecer alguém, esperar mais um pouco, tentar outra vez ou simplesmente conformar-se.
Eu não sei conformar-me. Nunca soube. E, aos 46 anos, já percebi que provavelmente nunca vou aprender.
Por isso continuo a perguntar. Mesmo que incomode. Mesmo que ninguém responda:
Quando é que chega a nossa vez?
Não a vez de recebermos uma cunha.
Não a vez de passarmos à frente de alguém.
Não a vez de nos oferecerem aquilo que não merecemos.
A vez de vivermos num país onde não precisamos de nada disso.
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