“Vamos ficar reduzidos a talvez 500 milhões de humanos.” A previsão foi feita há duas décadas por James Lovelock, cientista britânico conhecido pela hipótese de Gaia, numa entrevista em que apresentou um cenário particularmente pessimista para o futuro da humanidade.
Lovelock, que morreu em 2022 aos 103 anos, defendia que as alterações no sistema climático poderiam atingir um ponto em que já não seria possível evitar consequências profundas para a população e para várias regiões do planeta.
“500 milhões de humanos a viver lá em cima, no Ártico”
Em entrevista ao jornal espanhol El País, publicada em 2006, o cientista afirmou acreditar que uma parte substancial da população mundial não sobreviveria às transformações climáticas que antecipava.
“Vamos ficar reduzidos a talvez 500 milhões de humanos, tão poucos quanto isso, 500 milhões de humanos a viver lá em cima, no Ártico”, afirmou Lovelock.
Na altura, a população mundial rondava os 6,6 mil milhões de pessoas. Atualmente, ultrapassa os oito mil milhões.
A previsão de Lovelock era particularmente extrema e não deve ser confundida com uma projeção consensual da comunidade científica. Tratava-se da visão do próprio investigador sobre aquilo que poderia acontecer perante alterações profundas no clima terrestre.
Cientista acreditava que já era “demasiado tarde”
Lovelock considerava, já naquela altura, que a humanidade tinha deixado passar a oportunidade de impedir algumas das grandes transformações do planeta.
“O deterioro foi longe demais”, afirmou, defendendo que o sistema estaria a aproximar-se rapidamente de momentos críticos.
Para explicar a sua ideia, utilizou uma comparação simples: uma pessoa dentro de um barco que se aproxima demasiado de uma cascata pode continuar a remar, mas já não conseguirá impedir a queda.
O cientista acreditava que ainda existiriam sobreviventes e que a humanidade teria oportunidade de “começar de novo”, mas num planeta profundamente diferente.
Quem era James Lovelock?
Nascido em 1919, James Ephraim Lovelock foi químico, inventor e investigador, tendo colaborado com a NASA no desenvolvimento de instrumentos utilizados na investigação espacial e na procura de sinais de vida noutros planetas.
Ficou sobretudo conhecido pela hipótese de Gaia, segundo a qual os seres vivos, a atmosfera, os oceanos e o solo formam um sistema complexo de interações capaz de contribuir para a manutenção das condições necessárias à vida.
Desenvolveu esta ideia no livro Gaia: A New Look at Life on Earth, publicado em 1979.
Décadas depois, Lovelock tornou-se também conhecido pelas suas previsões particularmente pessimistas sobre as alterações climáticas, algumas das quais apresentou no livro The Revenge of Gaia.
Previu Londres debaixo de água
Na mesma entrevista de 2006, o cientista antecipou consequências severas para as regiões costeiras devido à subida do nível do mar.
Lovelock chegou a afirmar que Londres poderia ficar inundada antes do final deste século e apontou igualmente para os riscos enfrentados por países particularmente vulneráveis à subida das águas, como o Bangladesh.
Também previa um degelo muito rápido das regiões polares, chegando a apontar para 2050 ou até antes.
Nem todas estas previsões correspondem, contudo, às projeções atualmente consideradas mais prováveis pela ciência climática.
As avaliações do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) trabalham com diferentes cenários de emissões e intervalos de subida do nível médio do mar, em vez de preverem como inevitável o cenário extremo descrito por Lovelock.
As declarações que agora voltaram a circular foram, portanto, feitas há cerca de 20 anos e refletem uma das visões mais pessimistas que James Lovelock apresentou sobre o futuro do planeta, e não uma nova previsão científica para as próximas décadas.
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