Às vezes gostaríamos que o mundo parasse. Não para sempre. Apenas o tempo suficiente para conservar certos lugares como os recordamos, reconhecer no espelho o rosto a que nos habituámos, e acreditar que aquilo que hoje nos parece seguro continuará amanhã no mesmo lugar.
Mas o mundo tem este hábito incómodo: não espera por nós.
Herberto Helder conta, em Teoria das cores a história de um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. O pintor retratava o peixe, mas, inesperadamente, o peixe começou a tornar-se negro. O quadro já não correspondia ao animal que tinha diante dos olhos. O pintor podia permanecer fiel ao vermelho de antes ou aceitar a cor nova que a realidade lhe mostrava. Ao procurar ser fiel ao seu modelo o artista compreende que este o coloca diante da lei da metamorfose. Assim, decide pintar o peixe de amarelo.
Parece uma história sobre pintura. Talvez seja uma história sobre quase tudo.
Passamos uma parte considerável da vida a pintar de vermelho peixes que já mudaram de cor.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezcinstitute.com)
Fazemo-lo nas relações: “Ele não era assim.” Fazemo-lo diante do espelho, quando estranhamos um corpo que continua a ser nosso, mas já não coincide com a imagem guardada na memória. Fazemo-lo com uma amizade, uma profissão, uma cidade, uma casa, uma paisagem. A realidade muda e nós continuamos, muitas vezes, a conversar com a sua fotografia antiga.
Talvez nenhum lugar revele tanto a ilusão da permanência como um casamento. Pensamos que o amor, uma vez conquistado, fica garantido. Deixamos de reparar nos pequenos gestos, nas mudanças subtis, no silêncio que cresce, na atenção que falta. Mas também uma relação está sempre a transformar-se. O que não é cuidado não permanece igual: afasta-se, desgasta-se, torna-se outra coisa.
Quase dois mil anos antes de Herberto Helder, Marco Aurélio escreveu no livro IV, das Meditações “Observa constantemente que todas as coisas existem em mudança, e mantém sempre este pensamento contigo (…)” Tudo aquilo que vemos está sujeito à transformação e uma parte da nossa perturbação nasce do juízo que fazemos sobre aquilo que acontece. As estações sucedem-se, uma árvore cresce, uma praia recua, uma casa deteriora-se. A dificuldade aumenta quando a transformação nos inclui: quando uma relação muda, um projeto termina, o corpo envelhece ou deixamos de desejar aquilo que durante anos pensámos que queríamos.
Neste ponto, Marco Aurélio e Herberto Helder encontram uma ideia central do budismo: a impermanência. Salvaguardemos as distâncias: Marco Aurélio não era budista e Herberto Helder não é um comentador do estoicismo. Chegam à mudança por caminhos diferentes. É precisamente por isso que o encontro é interessante.
Na tradição budista tibetana fala-se de mi rtag pa, a impermanência dos fenómenos condicionados. Não significa apenas que um dia as coisas acabam. Essa é a forma mais visível da impermanência. Num sentido mais subtil, tudo se encontra já em transformação a cada instante. O Dalai Lama, ao explicar este ensinamento, distingue a impermanência grosseira — uma mudança que conseguimos observar, como o envelhecimento ou a morte — da impermanência subtil: a mudança que ocorre continuamente.
Há qualquer coisa de inquietante: aquilo a que chamamos permanência talvez seja apenas mudança lenta demais para que a vejamos.
Uma amizade parece estável, uma rocha imóvel, o nosso rosto igual ao de ontem. Mas tudo está a acontecer. Talvez o presente não seja uma fotografia, mas uma música a fluir.
O estóico pergunta: se a transformação pertence à natureza das coisas, por que exigir ao mundo que permaneça conforme o nosso desejo?
O budista pergunta: se tudo o que é condicionado é impermanente, por que nos agarramos às coisas como se fossem fixas?
Herberto Helder parece colocar uma terceira pergunta: se tudo se transforma, que potência criadora existe nessa transformação?
Aceitar a impermanência é mais exigente do que a simples resignação. Um encontro é precioso porque não pode ser repetido exactamente. Uma paisagem merece ainda mais atenção porque não estará sempre ali da mesma maneira. Uma amizade pede cuidado porque não possui garantia de eternidade.
Em vez de uma filosofia da perda a impertinência converte-se em treino da atenção.
Há também uma diferença profunda entre resignação e metamorfose. A resignação diz: as coisas mudaram, nada há a fazer. A metamorfose pergunta: as coisas mudaram; o que pode agora nascer desta nova realidade?
Uma profissão que termina pode deixar um vazio ou abrir outra forma de participação no mundo. O envelhecimento pode ser vivido como inventário de deterioração ou como transformação daquilo a que damos valor. Uma cidade que se modifica pode produzir nostalgia, mas também responsabilidade pelo que merece ser preservado ou reinventado.
Nada disto significa romantizar a perda. Há mudanças que não escolhemos, rupturas que doem e ausências que nenhuma filosofia deve converter apressadamente em “oportunidades”. A tristeza existe, merece o seu espaço e o seu tempo, não deve ser rotulada como patologia nem domesticada à custa de ansiolíticos ou anti-depressivos. Porém, a consciência da impermanência pode suavizar o sofrimento ao mesmo tempo que nos impede de lhe acrescentar uma exigência impossível: a de que aquilo que é mutável não mude.
Talvez seja isso que torna tão perturbadora a história do peixe. Queremos que continue vermelho porque já aprendemos a relacionar-nos com o vermelho. Temos para ele um enquadramento, uma linguagem, uma expectativa. Quando se torna negro, não muda apenas o peixe: fica também foram de tom o que tínhamos pintado à sua volta.
Depois de compreender a metamorfose, o pintor não pinta simplesmente o peixe negro. Pinta-o amarelo. É um gesto extraordinário! A fidelidade à realidade não consiste em copiá-la servilmente. É preciso primeiro vê-la como ela é — reconhecer que o vermelho desapareceu — para depois poder criar algo que ainda não existia. A mudança, em vez de destruir a liberdade do pintor, devolve-lha.
É aqui que Herberto Helder introduz uma inquietação fecunda no encontro entre o estoicismo e a impermanência budista: reconhecer a transformação não significa apenas suportá-la com serenidade ou deixar de nos agarrar ao que passa. Pode significar trabalhar com ela.
Vivemos frequentemente como se a estabilidade fosse o estado natural das coisas e a mudança um acidente. Marco Aurélio, o budismo e Herberto Helder sugerem, cada um à sua maneira, o inverso: talvez a mudança seja a regra e a estabilidade uma breve aparência.
O mundo continuará a mudar, com ou sem a nossa autorização.
Nós também.
A questão talvez não seja como impedir que o peixe mude de cor. Nem sequer apenas como aceitar que mudou. A questão mais interessante é outra: quando finalmente vemos a nova cor do peixe, o que somos capazes de criar com ela?
Café Filosófico: A matéria do Instante — 8ª Sessão sobre o Estoicismo
14 de Outubro | 21:00 – 22:30 | Museu Municipal de Faro
Contribuição: 5€
Inscrições: [email protected]
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: Como ser vida em cenários de morte? | Por Maria João Neves
















