No momento em que escrevo estas linhas — e sabendo que, provavelmente, estes números estarão desatualizados quando forem lidas — a guerra da invasão da Ucrânia pela Rússia já ultrapassa o meio milhão de mortes, de acordo com o The Economist. O projeto ACLED — Armed Conflict Location & Event Data Project — monitoriza centenas de milhares de incidentes de conflito em todo o mundo. Nos seus dados relativos a 2025–2026 a Ucrânia surge no topo da lista, seguem-se o Sudão, a Palestina, Myanmar e a Síria. Na Faixa de Gaza, o número de mortos desde o início do conflito, em outubro de 2023, já ultrapassou os 73.400 palestinianos, incluindo mais de 21.500 crianças, de acordo com os dados mais recentes, divulgados em agosto de 2026 pelas autoridades de saúde locais e acompanhados por agências internacionais como a UNICEF. Se acrescentarmos os feridos, o número ultrapassa já os 64.000. Ainda assim, as agências das Nações Unidas alertam que estes números poderão ser conservadores: milhares de vítimas permanecem desaparecidas ou soterradas sob os escombros de edifícios residenciais destruídos.
Perante estes factos, como não cair no desespero?
A filosofia estóica oferece uma resposta que pode parecer surpreendente nos tempos que correm. Um dos seus princípios fundamentais é a Sympatheia, a ideia de que tudo no universo está interligado e de que a humanidade participa de uma mesma comunidade universal. Marco Aurélio expressa bem esta ideia nas suas Meditações: “Reflecte frequentemente na ligação entre todas as coisas do Universo e na sua relação umas com as outras. Todas as coisas estão, de certa forma, misturadas umas com as outras, sendo, por isso, mutuamente amigáveis, pois uma sucede, a seu tempo, à outra, em virtude de movimentos locais e da harmonia e unidade do todo.” (VI, 38)

Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezcinstitute.com)
Não podemos, pois, banalizar a morte de outros seres humanos nem a destruição do planeta que partilhamos. A dor que sentimos perante estas notícias não é uma fraqueza. É, antes, um sinal de que a nossa bússola moral ainda funciona.
Diante do horror em larga escala, talvez o maior perigo para a mente humana seja precisamente o cinismo: aquela anestesia emocional que nos leva a pensar que o mundo sempre foi assim e que, portanto, não há nada a fazer.
O estoicismo combate essa atitude através da Justiça, uma das suas quatro virtudes cardeais. O objetivo não é anestesiar a mente perante o sofrimento, mas transformar a indignação e a tristeza em combustível para a ação moral. A empatia e a compaixão que sentimos perante o sofrimento alheio não devem transformar-se em ansiedade destrutiva. Devem ser canalizadas para ações concretas e justas dentro do nosso círculo de influência.
A primeira coisa a fazer seria clarificar a dicotomia do controlo — princípio central do pensamento de Epicteto. Devemos distinguir entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende:
• Fora do nosso controlo estão as decisões de líderes mundiais, o início de guerras e as estatísticas globais de mortalidade.
• Sob o nosso controlo está a nossa reação a estas notícias, a nossa capacidade de ajudar as vítimas (através de doações ou voluntariado) e a escolha de não nos deixarmos consumir pelo desespero ou pela apatia.
Os filósofos estóicos conheciam bem a guerra. Marco Aurélio escreveu as suas Meditações nas frentes de combate das Guerras Marcomanas, convivendo diariamente com a possibilidade da morte. Via a guerra como expressão de um ciclo repetitivo e trágico da humanidade: um horror que emerge quando os seres humanos abandonam a razão e se esquecem de que pertencem a uma mesma comunidade universal.
Em vez de permitir que a consciência da morte o conduzisse ao desespero, Marco Aurélio fez dela um incentivo para viver melhor: “Pratica todos os actos, diz todas as palavras, tem todos os pensamentos com o conhecimento de que os teus dias podem acabar a qualquer momento.” (Ibid., II, 10) Num contexto de sobrevivência, uma boa higiene mental torna-se imperiosa. O imperador tinha perfeita consciência disso: “Não desperdices o que te resta de vida em considerações sobre os outros quando isso não contribui para o bem comum.” (Ibid., III, 4) E o seu imperativo ético é ainda hoje desconcertante pela sua simplicidade: “Não organizes a tua vida como se tivesses 10.000 anos para viver. O destino pende sobre ti. Enquanto vives, sê bom, enquanto ainda podes.” (Ibid., IV, 17)
Séneca, por seu lado, via a guerra como uma espécie de loucura coletiva. Na Epístola 95 a Lucílio, uma das mais longas da sua obra, expôs uma contradição que permanece inquietantemente atual: “Somos proibidos de cometer assassinatos individualmente, mas os massacres de cidades e povos inteiros são decretados pelo Senado.” (Cartas a Lucílio, L.XV, 95, 30)
Será que o estoicismo pode ajudar-nos a gerir aquilo a que poderíamos chamar ansiedade geopolítica? Acredito que sim. Aqui ficam algumas sugestões de operacionalização da filosofia estóica:
1. Filtrar a informação: Não precisamos de consumir notícias compulsivamente. Passar horas a acompanhar atualizações em direto raramente aumenta a nossa capacidade de agir. Podemos perguntar-nos: “Este detalhe adicional vai aumentar a minha capacidade de fazer alguma coisa?” Se a resposta for não, talvez seja tempo de proteger a nossa mente. Informar-se é uma responsabilidade. Consumir sofrimento de forma ininterrupta não é.
2. Distinguir os factos dos nossos julgamentos: Epicteto escreveu: “O que perturba os homens não são as coisas, mas os julgamentos sobre as coisas.” (Encheirídion, 5) A guerra é terrível. A nossa ansiedade, porém, não a torna menos terrível nem ajuda diretamente a pôr-lhe fim. Apenas nos retira energia. Isto não significa tornarmo-nos apáticos ou emocionalmente anestesiados. Significa aprender a reconhecer a emoção e a canalizar a energia para aquilo que podemos efetivamente fazer.
3. Transformar a angústia em ação: se o problema dos refugiados, das guerras ou da destruição do planeta nos perturba, devemos procurar agir onde temos algum controlo: fazer uma doação, apoiar refugiados, participar numa ação de voluntariado ou simplesmente ajudar a nossa própria comunidade. A ação construtiva pode transformar a impotência em agência. Recuperar a sensação de que somos capazes de fazer alguma coisa é, por si só, uma forma de resistência ao desespero.
4. Aceitar a impermanência do mundo: A história humana sempre foi feita de períodos de guerra e de paz, de prosperidade e de crise. Ter consciência desta impermanência liberta-nos da exigência irrealista de que o mundo tenha de ser perfeito para podermos alcançar alguma serenidade interior. É aqui que surge o conceito estoico de Amor Fati —aceitar a realidade tal como ela é, por mais dura que seja, e encontrar dentro dela a possibilidade de agir corretamente.
Recentemente, uma mulher ucraniana contou-me uma experiência que teve no IEFP. Perguntaram-lhe:
— O que é que sabe fazer?
Ela respondeu:
— Digam-me o que precisam. Em dois dias aprendo e faço.
Depois explicou-me que este é, para ela, um traço do espírito ucraniano. Se uma bomba destrói um café, alguém coloca um pedido de ajuda na internet e rapidamente se forma um grupo para reconstruí-lo. No dia seguinte, se possível, o café reabre e as pessoas vão lá consumir, precisamente para ajudar o negócio a recuperar. O mesmo acontece se houver um nevão: alguém publica na internet a hora, o local e os utensílios necessários. E as pessoas aparecem. Esta iniciativa cidadã cria algo fundamental: a sensação de que somos capazes de responder à adversidade aumenta a auto-estima, a confiança e a capacidade coletiva de resistência. Talvez este seja um excelente exemplo de aplicação do estoicismo: perante aquilo que não podemos controlar, devemos concentrar-nos ainda mais naquilo que podemos fazer.
Há, contudo, uma outra dimensão deste problema. Viver em segurança em Portugal enquanto outras partes do mundo estão mergulhadas na guerra pode criar um fenómeno psicológico difícil de suportar: a culpa de estar bem quando outros estão a sofrer. É a denominada angústia da assimetria, sentimo-nos culpados por jantar tranquilamente enquanto milhares passam fome ou vivem sob bombardeamentos. Perguntamo-nos se temos sequer o direito de estar felizes. O estoicismo não procura eliminar esse sentimento. Procura reorganizá-lo através do dever moral. A culpa inútil é uma emoção passiva: consome energia sem produzir virtude — A culpa paralisa. A virtude move.
Por isso, em vez de transformar a paz que temos em motivo de culpa, podemos entendê-la como uma responsabilidade acrescida. Se a geografia, a história ou simplesmente o acaso nos concederam o privilégio de viver sem o som das sirenes, talvez a resposta não deva ser a autocomiseração, mas a responsabilidade. Temos tempo. Temos segurança. Temos capacidade de pensar e de agir. Podemos usar esses recursos para ajudar.
E há ainda uma última lição: reconhecer os nossos próprios limites. Epicteto sabia que nenhum indivíduo pode carregar o peso do cosmos nos ombros. Reconhecer que não conseguimos parar uma guerra com um estalar de dedos não é cobardia. É humildade racional. Fazemos aquilo que está ao nosso alcance, no nosso círculo de influência, e aceitamos que o resto não depende de nós.
Aplicar o estoicismo a este mundo de 2026 não significa fechar os olhos ao horror, desligar as notícias ou repetir que “tudo acontece por uma razão”. Significa algo muito mais exigente, significa perguntar: perante um mundo ferido, como posso eu viver hoje uma vida justa, pacífica e íntegra?
Não podemos impedir todas as guerras. Não podemos salvar todas as vítimas. Não podemos controlar as decisões dos líderes mundiais nem alterar as estatísticas que amanhã estarão provavelmente ainda mais altas. Mas podemos escolher não ser indiferentes. Podemos ajudar alguém. Podemos acolher. Podemos doar. Podemos participar. Podemos cuidar da nossa comunidade. Podemos recusar o ódio. Podemos proteger a nossa saúde mental sem perder a nossa humanidade. E podemos, sobretudo, não desperdiçar a paz que temos — talvez seja esta a melhor forma de honrar aqueles que sofrem e perecem.
Café Filosófico | 30 Setembro 2026 | Espaço Alfa — Faro | 21.30-22.00 | 5€
Inscrições: [email protected]
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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