Zezé Camarinha, o tipo de uma família de pescadores pobres do Algarve do Estado Novo, cujo escape foi viver de esquemas dependentes do turismo, orgulhando-se dessa sobrevivência a que foi votado como uma vitória do seu empreendedorismo chico-espertismo, espelhando o quick buck e a sexualização patriarcal da região, encarna na perfeição a versão latina do sonho americano, na variante do sul.
Zezé resume com a precisão de um bisturi as escolhas disponíveis quando o turismo devasta tudo: a subserviência, a imaginação na procura dos interstícios que é em si um trabalho a tempo inteiro ou a emigração. Nada disto o iliba de toda a performance chauvinista sobre a qual construiu a sua imagem, mas mesmo isso é tanto um reflexo do regime que o oprime, como sua criação.
O processo que tornou o lazer produção marcou também o princípio do fim do Algarve enquanto zona natural, urbanizando-o, não como resposta ao desenvolvimento demográfico, mas para atender à crescente pressão turística, assim colonizando todo o seu espaço litoral. A partir daí, deu-se uma espécie de êxodo rural, votando o Barrocal ao abandono, paralelamente à habitual expulsão dos habitantes para zonas cada vez mais periféricas.

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Mas, no caso singular do Algarve, as suas zonas periféricas encontram-se divididas em zonas subperiféricas com realidades divergentes e pouquíssimos pontos de contacto. No Barrocal, a par da desertificação, há bolhas hippiechic, ao passo que nos bairros tradicionais do litoral, há pressão, não resumida ao imobiliário e ampliada pela total falta de estímulo, incentivo e oportunidades, pelo que, mais do que repensar a distribuição, é preciso encontrar uma forma de mostrar aos seus reclusos que ambas as realidades são duas faces da mesma moeda.
Nas últimas décadas, o Algarve submeteu-se voluntariamente à lógica turística do mundo fantástico e intermitente, cuja continuidade está assente em serviços como hotéis, restaurantes, discotecas e campos de golfe, constituindo o grosso da actividade económica.
Este aglutinar de todos os sectores pelo turismo, obriga a cada decisão ser pensada segundo essa arquitectura, tanto no plano quotidiano quando se escolhe que estrada se toma para o trabalho, como no plano macro, onde restam poucas alternativas aos residentes, além de serem kamikazes na indústria da sua própria auto-destruição, vivendo numa síndrome de Estocolmo algarvio.
Mesmo quando a esmagadora maioria da população está refém de uma produção imaterial e consumível, a que frequentemente não tem condições de aceder, não surge qualquer ímpeto ludista, numa confirmação de que a guerra à imaginação identificada por Diane di Prima foi perdida e convivemos melhor com o fim do mundo em geral do que com o do velho mundo, em concreto, que ainda nos persegue, como avisado nas paredes de Paris em Maio de 68.
Tudo isto tomou uma nova escala quando deixou de acontecer numa espécie de principado europeu que é o Algarve e passou a acontecer nas grandes capitais europeias, atirando para cima da mesa a urgência em perceber como passar de uma indústria tão extractiva como o turismo para actividades mais sustentadas na matriz castradora do mercado global.
O facto de não existir, dentro da própria região, qualquer tipo de uniformidade, nem sequer no mesmo concelho, contribui para a desagregação. Loulé, espécie de Dubai tuga, apresenta a bolha da Quinta do Lago, projecto construído sobre terrenos baldios, lado a lado com o Bairro da Checul, nascido de uma cooperativa em 1975, fruto do programa SAAL. Já em Albufeira, resorts deluxe convivem com o turismo massificado modelo hooligan em modo fusão Benidorm, enquanto em Cacela Velha, Robert De Niro se prepara para construir um hotel de luxo.
Esse é o motor da especulação da região, onde há um esvaziamento sazonal com várias casas habitadas três meses por ano, criando um problema duplo. Por um lado, tanto provoca um aumento artificial do custo da habitação que leva à sua escassez, por outro, obriga muitas pessoas, cuja única forma de complementar parcas reformas ou salários a alugar quartos ou casas, a contribuir para o problema. Tudo isto gera um discurso antiturismo que mistura conglomerados económicos com reformados septuagenários a tentar complementar reformas baixas, levando a desconsiderar a óbvia questão classista em jogo perante a demagogia política.
Além do problema da habitação, há um problema de ordenamento territorial, onde, já nem só a cultura, mas serviços essenciais como a saúde e a educação vêem fundos desviados para o entretenimento veraneante, fazendo com que os residentes se tornem os verdadeiros estrangeiros numa região com existência descontínua.
É o próprio consumir da cidade a determinar o seu planeamento, tudo mercantilizando, desde os residentes até aos seus derradeiros refúgios, no sentido oposto ao proposto por Lefebvre, da cidade como um espaço construído pelos habitantes.
No Algarve, como na Comporta e na Arrábida, a privatização das praias é uma consequência lógica da aquisição das cidades por conglomerados financeiros, de habitação ou de consumo, funcionando como o cumulativo de tudo o resto, onde se insere a saúde, a educação, a habitação e a atenção.
A fundação desse movimento canibalizante das comunidades, começou logo na orientação de espaços públicos urbanos para o consumo, chamando-lhes concessão ou apoio de praia, quando mais não é do que uma subvenção do espaço público a privados que exclui, mais uma vez, quem não pode ou não quer pagar.
O resultado é uma desterritorialização geradora de uma revolta sem qualquer direcção, como a de Brando em The Wild one, tomando pares por inimigos, dado que todos os inimigos se tornaram intangíveis, quando não invisíveis, e também por estarmos tão enredados no lodo retórico do individualismo, cuja expressão revoltosa tem sido, por excelência, a extrema direita.
Tal acontece ao mesmo tempo que a sofreguidão por acolher estrangeiros enquanto turistas ou expatriados convive com a rejeição veemente de estrangeiros como mão de obra, remetendo-os para uma categoria sujeita a uma instrumentalização 306º, sem reconhecer que, essa é precisamente a condição do Algarve para o resto do país, e do país para a Europa.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia















