Fui atropelado em Albufeira, tal como aconteceu há uns dias a várias pessoas na Rua da Oura.
Entretanto já perdi conta a todas as manobras perigosas dos condutores, na época turística e fora dela ou a quantidade de vezes em que fui correr e tive de parar na passadeira para não ser atropelado, mesmo assinalando antecipadamente a minha direcção e parando para dar tempo aos condutores, em alguns casos foram sábados de manhã, pelas 8:00, portanto já depois do afterhours.
Se uma parte do problema é a indiferença deste município à ausência de passeios, encostando-se ao turismo como se fosse a bala de prata e não um tiro nos miolos, promovendo, por omissão a cultura do automóvel, ao impossibilitar qualquer alternativa, outra parte é a própria cultura do automóvel a que as populações sucumbiram, em parte por estatuto, em parte por conveniência e no Algarve por manifesta falta de alternativa.

Autor, tradutor e editor
Nada disto muda o cocktail explosivo que é, num município cuja cultura, além da do automóvel, é a do álcool, a união de ambas.
Ao mesmo tempo que mascara o problema do incentivo ao consumo do álcool em Albufeira, como se fosse um efeito perverso e não a motivação para a maioria dos turistas (basta ver as reportagens na televisão) com medidas moralistas em jeito de placebo, Rui Cristina prossegue o caminho do Presidente Rolo.
Ao insistir na legislação vitoriana – ainda por cima, anticonstitucional segundo alguns juristas – da proibição dos transeuntes circularem em fato de banho na via pública, o executivo de Albufeira, confunde propositadamente ou incompetentemente, bikinis com nudez, atentado ao pudor ou simulação de actos sexuais. Sendo estes últimos praticados por pessoas ou grupos embriagados, ao enfatizar o comportamento em si, o executivo retira assim a atenção do consumo de álcool e responsabiliza unicamente o indivíduo. Dessa forma iliba-se a si mesmo, enquanto fiscalizador e promotor, assim como as discotecas e os bares que oferecem shots e outras bebidas brancas, entre outras tácticas encorajadoras da alcoolização.
A embriaguez em horda, existe porque esse é o único propósito das hordas, uma vez que turismo em Albufeira é sinónimo de bebedeira, promessas de sexo fácil e o habitual laxismo perante empresas, culpabilizando o indivíduo, ao verdadeiro estilo cacique do CH, no que é, afinal, o típico comportamento colonialista que Portugal exerce sobre terceiros mas que ressente quando é o seu alvo.
Não se trata apenas da identidade de Albufeira ter sido, primeiro aglutinada numa imagem de resort low cost ao jeito de Naked Lunch de Burroughs com menos romance, e depois totalmente descartada, juntamente com quase todos os vestígios da região.
Trata-se de um absoluto vácuo de uma cidade que existe sem quaisquer referências geográficas, culturais ou temporais, à mercê de um branding como o impune paraíso da lascívia movida a álcool. A eficácia da sua ressignificação e desterritorialização foi tal que erradicou totalmente, durante vários anos, qualquer outra espécie de turismo, tornando-se a variante hooligan juvenil para quem, afinal, veio apenas concretizar o que foi prometido.
Ao reunir-se a cultura do álcool ao automobilista típico, tornam-se expectáveis atropelamentos por condutores alcoolizados, como o das quase duas dezenas de pessoas na Rua da Oura a 24 de Agosto.
Basta considerar como Albufeira tem estado nos últimos anos nos lugares cimeiros dos atropelamentos, com 97 pessoas atropeladas em 2011, de acordo com um estudo de Bruno Lopes da Universidade Nova de Lisboa, e uma média de 46 nos anos seguintes.
Em 2024, os atropelamentos na localidade aumentaram 34,4%, passando de 32 para 43, período em que as operações de segurança nas zonas de diversão nocturna registaram centenas de ocorrências, principalmente intoxicações alcoólicas, na Avenida Sá Carneiro, que se cruza com as zonas dos bares, sugerindo uma provável relação entre a pressão nocturna associada ao álcool e a sinistralidade pedonal. Sem provas, mas com o óbvio empirismo e com testemunhos de pessoas que trabalham no centro de saúde, apontando o número de pessoas alcoolizadas este ano, como superior aos anteriores.
Embora Faro apresente números idênticos e também seja atravessado pela EN125, os acidentes concentram-se sobretudo em estradas nacionais, ao passo que em Albufeira, o local por excelência, é a Avenida dos Descobrimentos, junto com outros arruamentos urbanos, confirmando que o planeamento pode evitar alguns episódios, mas não a maioria, sobretudo se o posicionamento turístico se mantiver no allincluded ou nos 11 shots a 10 euros.
Rui Cristina, o homem que prometeu devolver Albufeira aos Albufeirenses que na realidade é a mistura de várias etnias e nacionalidades por si negadas, está há um ano no cargo, mas tão ocupado a reproduzir os mesmos esquemas dos executivos anteriores enquanto os critica, que as suas declarações sobre os atropelamentos na Rua da Oura parecem as de alguém sem qualquer responsabilidade política ou meios para atender ao problema. Com a agravante de apresentar um acontecimento recorrente – os atropelamentos – como um acto isolado, quando na realidade, são uma tendência que nenhum executivo quer reconhecer por razões económicas.
Isto demonstra a razão pela qual um partido com tendência para o aprimoramento humano, para o autoritarismo e para o moralismo cristão, convive pacificamente com o que, na sua retórica, seria o deboche.
Desta vez, será difícil culpar a emigração, porque os envolvidos não conduzem uber nem trabalham em estufas e também por talvez ser mais conveniente não acicatar os ânimos enquanto não se resolve a acusação de incitamento ao ódio no ministério público.
Certamente, não culpabilizará o álcool, o turismo e menos ainda a sua gestão, cuja campanha foi feita segundo o mote O Chega Resolve.
Em 2025, quando concorreu pelo círculo eleitoral de Beja pelo partido de André, Cristina respondeu assim ao Diário do Alentejo quando questionado sobre a necessidade de imigrantes para trabalhar: “queremos pessoas que venham para cá para respeitar a nossa cultura, a nossa religião e que não venham cá impor a cultura nem a religião deles perante a nossa.”
Se essa for a cultura da embriaguez, e a julgar pelas políticas autárquicas, parece ser, saia um shot para o Chega.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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