Desde os primórdios da humanidade o fenómeno da morte foi investido de significado cultural e social, de monumentalidades e sacralidades, como demonstra a arqueologia pré-histórica na interpretação de enterramentos colectivos em cromeleques, antas,…
A morte, enigma maior da existência, passagem do humano para o mundo desconhecido, foi e é acompanhada de rituais e celebrações em diferentes contextos culturais e religiosos. No México, com origem indígena, atinge proporções de festividade nacional, a 2 de Novembro as almas visitam os vivos.
Formas de tratamento dos corpos variaram, a cremação é permitida no hinduísmo e budismo, o fogo considerado elemento libertador, o Islão interdita a prática. Outras culturas religiosas praticaram o embalsamamento e a inumação.

Sociólogo
Do ponto de vista filosófico-religioso, na Europa a morte tem como referências as tradições de práticas greco-romanas e judaico-cristãs.
A formação de classes sociais estabeleceu hierarquização e diferenciação na vida e na morte, são escolhidos lugares simbólicos onde se construíram monumentos funerários com túmulos de grande valor artístico.
As necrópoles na periferia eram “cidades dos mortos” com funções sanitárias dada a frequente ocorrência de epidemias.
O panteão dos deuses gregos, etruscos e romanos evoluiu para monumentos de memória mandados construir por poderosos, caso do imperador Adriano que em 123 d.C. edificou o seu próprio túmulo no Castelo de Sant’Ângelo, em Roma.
Panteão reconhecido pela grandiosidade e riqueza é o Vale dos Reis no Egipto datado de 1550 a.C. guarda 26 tumbas de faraós, durante séculos estes erigiram pirâmides e hipogeus com labirintos subterrâneos e câmaras funerárias.
Para os Papas a Igreja Católica escolheu um subterrâneo na Basílica de São Pedro onde estão as tumbas de 91 Papas do total de 266, existindo outros túmulos papais dentro e fora de Itália. No Vaticano encontra-se o túmulo de São Pedro, identificado por arqueólogos pela inscrição grega “Petrós Aní” / “Pedro está aqui”.
João XXI ou Pedro Hispano (1215-1277), único Papa português, teólogo, médico e matemático, atingido pela queda de um tecto, está sepultado na Catedral de Viterbo.
Surgiram na Itália medieval os “campo santo”, lugares sacralizados e consagrados pela Igreja, cercados por muros, organizados segundo corporações e ofícios. Para os enterramentos eram utilizados adros das igrejas, áreas anexas a conventos, no caso de escravos e indigentes depositavam os corpos em valas comuns.
Os panteões reais revelam o desejo de perpetuar o poder das dinastias, afirmar a relação com o divino e o reconhecimento da Igreja, estão em mosteiros e igrejas.
Em Portugal existem cinco panteões reais, nos mosteiros de St.ª Cruz de Coimbra, Alcobaça, Batalha, Jerónimos e S. Vicente de Fora.
A dinastia afonsina está dispersa, no mosteiro de St.ª Cruz encontram-se os túmulos de D. Afonso Henriques e D. Sancho I, no mosteiro de Alcobaça os de D. Afonso II, D. Afonso III, D. Pedro I e Inês de Castro, maravilhas da escultura gótica.
D. Sancho II estará sepultado na Catedral de Toledo, não existindo comprovação. D. Dinis tem o túmulo no Convento de Odivelas, recentemente aberto e descobertos achados, nomeadamente a espada real. Os restos mortais de D. Afonso IV estão na Sé de Lisboa, de D. Fernando I na Igreja de S. Francisco em Santarém.
A dinastia de Avis tem dois panteões, no mosteiro da Batalha onde se encontram os restos mortais de D. João I, D. Duarte, D. Afonso V e D. João II, no mosteiro dos Jerónimos os de D. Manuel I, D. João III, D. Sebastião e do Cardeal D. Henrique.
A dinastia de Bragança concentrou os túmulos dos reis na Igreja de S. Vicente de Fora, com excepção de D. Pedro IV, cujo corpo se encontra na Catedral de Petrópolis no Brasil e de D. Maria I na Basílica da Estrela em Lisboa.
Com o advento do liberalismo, do laicismo e do republicanismo, sob influência do ideário da revolução francesa, o poder liberal decidiu criar um Panteão Nacional para personalidades relevantes da vida política e das artes.
Em 1836, o ministro Passos Manuel decretou a edificação de um Panteão Nacional sem local definido, o objetivo era o de dignificar os heróis da Revolução de 1820 e trazer à memória do povo personalidades esquecidas, como Luís de Camões.
A decisão de transformar Santa Engrácia em Panteão Nacional foi tomada durante a I República, mas apenas em 1966 se concretizou, por este facto na gíria popular aos atrasos de obras são sarcasticamente designadas “obras de Santa Engrácia”.
Neste Panteão foram colocados cenotáfios, túmulos simbólicos sem restos mortais, casos de D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e Luís de Camões. Nas capelas anexas estão túmulos de Alexandre Herculano, dos Presidentes da República Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona, dos escritores Almeida Garrett, João de Deus e Guerra Junqueiro. Mais tarde foram trasladados o presidente Manuel de Arriaga, o general Humberto Delgado, o escritor Aquilino Ribeiro, a poetisa Sophia de Mello Breyner, a fadista Amália Rodrigues e o futebolista Eusébio Ferreira.
A decisão de “panteonizar” uma personalidade relevante compete à Assembleia da República, passados obrigatoriamente 20 anos do falecimento.
A colocação de corpos no Panteão Nacional tem sido objecto de polémicas, sobre justiça comparativa, recusas expressas em vida, oposição de familiares, como na recente trasladação do escritor Eça de Queirós.
Nas sociedades contemporâneas a relação com a morte alterou-se.
A morte é menos percebida, em Portugal 61% dos óbitos ocorre em hospitais e unidades de cuidados paliativos, apenas um terço em domicílio. Existe menor contacto com a comunidade, foram alterados rituais públicos, o processo funerário industrializou-se e comercializou-se, empresas prestam serviços a entidades e familiares.
Existe um turismo especializado em visitas a necrópoles, com acompanhamento de guias e aplicativos, o cemitério Pere-Lachaise em Paris recebe 3,5 milhões de visitantes por ano, que procuram as campas de celebridades como Proust, Molière, Modigliani, Braudel, Callas, Piaf, Jim Morrison,…
No plano científico o tema transcende as disciplinas médicas, nas ciências sociais constituíram-se áreas de investigação sobre a morte, existe uma literatura autónoma, abordagens de pensadores contemporâneos como Edgar Morin que escreveu “O homem e a morte” (1951) e muitas dezenas de obras de editadas.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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