Enquanto se investe na profissionalização e automação em todas as áreas e também na prevenção e no combate aos incêndios, os bombeiros, principal meio em ambas as vertentes, continuam a desempenhar as suas funções em regime de voluntariado sem existir qualquer discussão séria sobre o tema.
Aceitando, e perante as evidências é impossível não o fazer, termos já ultrapassado o ponto de não retorno climático e reconhecendo a inegável crise ambiental que leva à inevitabilidade no aumento da quantidade e intensidade de fogos rurais e florestais que por sua vez agravam as condições climatéricas que novamente influem na frequência e potência dos incêndios, os bombeiros, assim como os médicos no Covid, ganham uma importância estratégica acrescida.
Não obstante, o centro da discussão pública está sempre inquinado, de e para a tecnologia, impondo como motor a necessidade, real, é certo, de meios de combate aéreos, o que retira aos bombeiros o papel fundamental em qualquer estratégia de combate aos incêndios.

Autor, tradutor e editor
Nascidos do associativismo após o terramoto de 1755 para responder à necessidade de socorro, o que outrora foi um acto comunitário demonstrativo do poder popular solucionador de problemas mais eficaz do que as instituições, o cariz voluntário dos bombeiros há muito se transformou em precariedade aceite como inerente à sua condição, remetendo-os para uma zona invisível, algures entre os imigrantes e as figuras religiosas da abnegação.
A lógica da sua existência não está muito distante da do Banco Alimentar, subordinada a voluntários para colmatar o que é, não apenas uma falha basilar do Estado – qualquer Estado – mas também um sintoma da sua adesão às estratégias corporativistas da servidão, com a agravante, no caso dos bombeiros, de não ser apenas um trabalho de risco, mas também de elevado impacto emocional e psicológico.
É impossível não assinalar a dupla ironia na condição de existência fantasma dos bombeiros, como uma versão proletária do Algarve, cujo reconhecimento surge associado a picos de necessidade ou desejo.
90% dos bombeiros portugueses são voluntários, com um elevado custo pessoal e até financeiro, quando cada esfera da vida, desde as redes sociais até aos tecnocratas, são empurradas, já não para a profissionalização, mas para uma ultraespecialização forjada em labirintos burocráticos densos e no desenvolvimento de um jargão técnico para criar um fosso entre os técnicos e o cidadão comum.
Sendo a subsídio-dependência a pedra de toque na crítica-fetiche invertida de uma marxização cultural inexistente, toda a nossa sociedade infantotecnológica está dependente de uma forma de associativismo do séc. XIX, totalmente centrada em seres humanos, sem os quais nenhuma IA ou desenvolvimento científico será eficaz na salvaguarda do património natural, pessoal, público e de segurança, motivo frequentemente invocado para políticas castradoras dos direitos humanos, mas que nunca servem para a sua solidificação.
Intrincadamente anexado ao consentimento da precariedade nos bombeiros como incontornável fatalidade, está a forma como as alterações climáticas são apresentadas, enquanto inescapável preço a pagar por uma democracia liberal, onde a primeira está sequestrada pela vertente económica da segunda, não existindo nada além disso.
Assim, inocenta-se o garrote do mercado relativamente ao pilar da defesa que são os bombeiros, num cenário de devastação ambiental semelhante ao da guerra. Mas para a segunda, consideramos o sacrifício dos 5% do PIB, golpe mortal no estado social, e o regresso do serviço militar obrigatório. Para a primeira, nem uma contrição.
Assim não só erradicamos do discurso qualquer gesto no sentido de atrasar a destruição do planeta, como também a apressamos através da intensificação das crises artificiais que nos colocam cada vez mais sob a dependência de combustíveis fósseis e intervenções bélicas para defender uma segurança que já só existe na nossa imaginação.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia
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